Nevoeiro Maldito 0 723

Caminhava de forma lenta e sonolenta, como costumava caminhar nas manhãs de segunda-feira. Era cedo. Muito cedo. A cidade amanhecia coberta por um forte nevoeiro, que por ele, nem havia sido notado. A sonolência dopava seus sentidos. A névoa era espessa, absurda, insólita. Envolvia tudo. Envolvia todos. Sabia de cor o caminho até o ponto de ônibus, por isso, as primeiras duas quadras foram assumidas pelo piloto automático. Tinha se levantado a quase uma hora, mas só acordou quando bateu a cabeça no orelhão. Enfim percebeu a tenebrosidade do maldito nevoeiro. Não conseguia ver dois palmos a frente. Tentava tatear a rua com os pés. Dava passos tímidos, ridículos. Mal saia do lugar. Quando resolvia ousar e dar uma passada mais larga, ou chutava algo ou tropeçava no meio-fio. Poucas horas depois os pés cansaram de falhar. Sabia que logo tudo voltaria ao normal. O velho conformismo. Se agachou, de forma quase confortável. Pensou nas contas que precisava pagar. No chuveiro que já quase nem esquentava. No filme do Bruce Willis que viu na noite anterior. Até que não pensou em mais nada.

Não sabia quanto tempo passou naquela posição. Havia perdido o pouco que lhe restara da percepção temporal. Ao se levantar, quase caiu. Suas pernas estavam dormentes. Assim como sua cabeça. Condição ideal para o piloto automático tomar as rédeas outra vez. Em poucos passos chegou até a copa, onde era servido o café. Um lugar estreito e desconfortável, impossível de ser ocupado por mais de uma pessoa sem gerar desconforto e constrangimento. Tinha um pote ao lado da garrafa térmica, que era abastecido com biscoitos amanteigados todas as segundas. Não pareciam frescos, resolveu comer mesmo assim. Não teve dúvida, já era terça-feira, o biscoito estava amanhecido. Deu um gole generoso no líquido morno que enchia sua caneca. Quase vomitou. Nada pior que um café passado há mais de sete horas. Pensou no chuveiro novamente, precisava dar um jeito nisso. Mas não hoje. Estava cansado. Talvez por isso, até a cadeira dura que encontrou, lhe pareceu confortável.

Em algum momento começou a ouvir vozes, vindas sabe-se lá donde. Na maioria das vezes, ordenando. Sempre obedecia. Mesmo quando não fazia sentido. Fazer sentido, já nem sabia mais o que era isso. As vezes a voz autoritária cessava, pouco tempo depois outras vozes eram ouvidas. Essas, em tom de lamúria. Algumas em tom de descontração, poucas delas. Seu Alfredo sempre fazia piadas preconceituosas, nunca achou graça. Ria por preguiça de discutir. Ria porque não tinha pra onde correr. Só não queria encontrar o seu Alfredo na hora de pegar mais um copo de café. Na verdade, não queria encontrar ninguém, estava farto de conversas de elevador. Não, não queria saber se iria chover. Se não iria chover. Se tal celebridade foi internada numa clinica de recuperação pela sétima vez. Ou se o Vasco tinha perdido mais uma partida. Queria mesmo alguém pra arrumar seu chuveiro. Já era quinta-feira, quem denunciou isso foi a Grande Família. Que agora passava na televisão, onde se abria uma pequena fresta de luz em meio ao nevoeiro.

A agitação no refeitório era descomunal. Não entendia como as pessoas ficavam tão felizes em comer uma feijoada feita de restos de toda a semana. Não entendia muitas coisas, muito porque não se preocupava em tentar entender. Mas nisso ele realmente pensava, mesmo assim não entendia. A tarde se arrastava como nunca. A névoa o limitava como sempre. Ao alcance dos seus olhos, só as planilhas. Os dedos sabiam todos os atalhos. Se dominava alguma coisa na vida, era o metódico Excel. Nesse mês ele vai bater as metas com folga. Mesmo isso não significando muita coisa, como de costume. Os dedos cansados pararam de teclar. Repousou as costas na cadeira, deixou o silêncio tomar conta. Viu um feixe de luz, distante, difuso. O coração bateu mais forte. Aos poucos a luz se aproximava, vinha de um farol. A boca secou. Os olhos atentos mal piscavam. A esperança enfim passou a ganhar força. Ao chegar bem próximo do farol, sabia que era hora de descer do ônibus. Apesar da noite já ter chego e da precariedade dos postes de luz, via tudo claramente ao seu redor. Estava a poucas quadras de casa e não via a hora de chegar. Queria aproveitar cada momento como se fosse o último. Suspeitava que o nevoeiro não iria aparecer. Pelo menos nos próximos dois dias.

 

Gabriel Protski

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Escala de Baumé 0 2072

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3340

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai