Ecossistema 0 695

Não vou me meter em seus assuntos; ela [a consciência] faz, dos homens, covardes. O sujeito não pode roubar, que ela o acusa; o sujeito não pode soltar palavrões, que ela o censura; o sujeito não pode deitar com a mulher do vizinho, que ela fica sabendo. É um espírito que fica vermelho de vergonha, um tímido que se amotina contra o coração de um homem. Deixa o vivente cheio de impedimentos. Uma vez, ela me fez devolver uma bolsa de ouro que encontrei por acaso. Ela faz mendigos dos homens que a acolhem. É tida como perigosa nas cidades, de onde a expulsam. Todo homem que deseja viver bem empenha-se em confiar em si mesmo, dispensando-a de sua vida.”

Shakespeare, Ricardo III.

 

Estava de costas para a porta da rua, debruçado sobre o balcão grudento daquela espelunca que há tempos deveria ter sido fechada pela vigilância sanitária, folheando o jornal, quando sentiu a primeira pancada. Alguém que sabia bater. Um soco no plexo solar, desferido de cima para baixo, incapacitante. A onda de dor aguda espalhou-se por seu crânio como uma gota de leite na xícara de café preto, desnorteando-o. Quando conseguiu virar-se, zonzo, um murro na boca do estômago. O impacto foi transferido para a musculatura do diafragma, e imediatamente o fornecimento de ar para os pulmões cessou. Estava rendido. Dali em diante, tudo o mais era a estupidez de uma demonstração de força desnecessária. O pânico esguichou em seu cérebro, como o sangue de uma artéria que se rompe. Paralisado, sofria de um derrame de medo e atordoamento, um cão sob o bombardeio sonoro de fogos de artifício. O soco fez seu corpo dobrar-se. Ato contínuo do agressor, recebeu uma violenta cotovelada na nuca. Cambaleou. Em seguida, um pontapé tão forte entre as pernas o fez ter a sensação de que seus testículos subiam à altura dos rins. Tentou pensar rapidamente e avaliou que era melhor cair de uma vez. No chão, a cara colérica de Gaúcho avolumou-se acima da sua, o personagem novo que sem mais nem menos irrompe num pesadelo. Passou a sentir o contato dos ossos das mãos dele, os nós de seus dedos, contra sua boca, os lábios sendo estraçalhados contra os dentes. Afinal, não tinha mais certeza se os dentes estavam ali. Os dois pinos de cocaína que enfiara no nariz pouco antes daquela tempestade de violência o alcançar haviam amortecido totalmente seus incisivos. Quando Gaúcho saiu de cima dele, os três homens terminaram a carnificina. A caixa torácica fulminada por chutes, dentro dela as vísceras chacoalhando brutalmente de um lado para outro; um bombardeio na terra já arrasada.

Agora chega – anunciou Gaúcho.

Os homens se afastaram do corpo inerte. Gaúcho se aproximou, fechou o punho em torno do colarinho de sua camisa e ergueu seu tronco a dois palmos do chão. Seu rosto ensaguentado ficou muito próximo do dele. Os olhos estavam fora de foco por conta da pancadaria. O rosto de Gaúcho era indefinido, visto através de uma vidraça bafejada. Um ódio vivo; podia sentir o cheiro do ódio no seu hálito, misturado aos restos de comida que fermentavam ali.

-Semana que vem – disse. – Semana que vem, ou vou crucificar você de cabeça pra baixo. Não me tire pra lóki.

Gostava de ser dramático, o Gaúcho. Mas era razoável não duvidar. Em se tratando de violência, aqueles caras tinham a força moral de um motor a diesel. E na semana passada um sujeito aparecera dependurado num poste numa vila qualquer.

Gaúcho também detestava palavrões. Era um traficante estranho. No fundo, não era uma pessoa de todo ruim. Por isso o pegara pelas costas. Se permitisse que ele abrisse a boca, acabaria sendo convencido. Ele era um filho da puta persuasivo. E ele, o Gaúcho, tinha o coração um pouco mole. De forma alguma era uma pessoa especialmente ruim.

Pelo menos, não era tão mais ruim do que qualquer outra poderia ser, se pressionada da forma correta.

Gaúcho e seus blue caps saíram, deixando no chão o corpo desfalecido e ensaguentado, uma massa humana que precisava ser reanimada.

***

Com as costas apoiadas no balcão nojento – o mesmo balcão –, escrutinava a praça em frente. O sol de um meio-dia de dezembro refletia no concreto da gigantesca estátua de um homem nu sem genitália. Que coisa ridícula, ele pensou. As pessoas circulavam descontraídas, em roupas de verão. Havia uma atmosfera de feriado no ar. As festas começariam em breve, e todos ganhariam algum tempo longe do trabalho e das chateações rotineiras. Era suficiente para deixar a maioria feliz. O que é a felicidade, quando não alegrar-se com coisas idiotas?

Com dificuldade, ele alcançou o maço de Malboro vermelho no bolso do jeans e sentiu dezenas de músculos acusarem as dores da convalescença, o registro da surra no corpo espancado. Ainda não estava totalmente recuperado, mas precisava trabalhar. Fora a dor física, não tinha ressentimentos. Todos precisavam pagar as dívidas, e Gaúcho não estava no topo da cadeia alimentar. Às vezes, alguma brutalidade era necessária para rearrumar as coisas. Não teria acontecido se ele vendesse a mercadoria, em vez de cheirá-la.

Não havia grande dilema ético em machucar a carne de alguém, quando necessário. A conta era simples: a carne se recupera, a dor passa, o homem segue em frente. Tinha mais dúvidas em relação a assassinato. Homicídios eram por natureza incorrigíveis.

Eram todos unidades de uma falange, com alguma liberdade de movimentação, mas não total. O mundo é um emaranhado complexo, um sistema muito confuso de pesos e contra-pesos para que você possa cogitar controlar o que quer que seja. Na maior parte do tempo, reage a estímulos, por reflexo. As pessoas apenas fazem o que precisam fazer. Com frequência, o que elas precisam fazer é bater em alguém.

Para aquilo dar certo, ia precisar ignorar a dor no momento devido. Não era difícil. Conseguia lidar com a dor. Se você sabe de onde ela vai vir, é perfeitamente possível suportar a dor sorrindo.

Se fizesse tudo certo – e tivesse um pouco de sorte –, uma dezena de golpes durante quatro dias em diferentes agências bancárias espalhadas pelo centro, era provável que conseguisse arrecadar boa parte do dinheiro. Com uma boa parte, Gaúcho lhe daria mais uns dias. Ele tinha lábia; Gaúcho, o coração mole.

Por ora, tudo parecia bem. Só uma viatura, num ponto extremo da praça, o mais longe possível da esquina da agência bancária; dois policiais, meio sonolentos na modorra do calor. Sabia que generalizações eram perigosas, mas se sentia razoavelmente seguro para pensar que todo PM era lesado. Alguém que aceita passar a vida toda acatando as ordens de outro sujeito unicamente porque ele é alguns anos mais velho e está um pouco acima na hierarquia não pode passar por esperto. Absolutamente. Entraria e sairia de cena e eles nem perceberiam. Uma ação-relâmpago.

Dezembro era o paraíso dos pequenos golpistas, a terra prometida da malandragem. Muito dinheiro de décimo terceiro circulando. Milhares de velhinhas zanzando pela cidade cheias de dinheiro, agarrando as bolsas contra o peito, tentando disfarçar o fato de estarem apavoradas. O sorriso adequado, o grau certo de reverência pela sua idade, algumas frases educadas e estava feito. O ser humano ainda não havia aprendido a viver num mundo em que precisa desconfiar de todos o tempo inteiro; talvez jamais aprendesse. Era um negócio que ia longe, excelente carreira, se você não fosse muito ambicioso.

Tragou fundo o cigarro e atirou a bituca longe. Ergueu o rosto para o sol de dezembro e abriu os braços. Soltou a fumaça pelas narinas. Tudo daria certo. Ele era o rei do mundo da falcatruagem.

Virou para o balcão.

China, um conhaque. E, pelo amor de Deus, sem gelo, China. Mania idiota de enfiar gelo em tudo.

O chinês miúdo aproximou-se.

Mêo ô chêo? – perguntou, com a voz fina e cantada.

Cheio, claro.

O chinês encheu dois terços de um copo americano com o líquido vagabundo cor de cobre. Bebeu em dois grandes goles rápidos e fez uma careta, só por apego à tradição, quase um tique; gostava do gosto da bebida.

– É bom pra ficar esperto – comentou.

Conhaque. Bom. Plá glipe também, né? Com mel – concordou o china. Era uma caricatura perfeita.

Também era simpático, aquele chinês. Mas se enfurecia rápido. Um ou dois segundos eram o suficiente para fazê-lo ferver, a pressão subir a níveis incontroláveis, a tampa ser arremessada longe. Pequeno e franzino, uma vez o viu surrar dois grandalhões dentro do bar, com um taco de sinuca. No meio do entrevero, o taco quebrara, e o china enfiara uma das pontas de madeira afiada no abdômen de um dos homens. O outro fugira. Tentativa de assalto, a polícia fingiu acreditar. Na verdade, os dois imbecis haviam mexido com a chinesinha de 14 anos que ficava no caixa.

A velhinha estava demorando a sair do banco. Na certa, se enrolara com o caixa eletrônico. Uma velhinha indefesa, despreparada para o mundo em que vive mesmo depois de 60 anos. Não sentia culpa. “Ela faz mendigos dos homens que a acolhem”, lembrou. Dá pra justificar tudo lendo os livros certos. Todos unidades da mesma falange, reagem a estímulos, fazem o seu trabalho. Sem moral ou objetivo, nada de teleologia, só idiotas em meio ao caos. O cão corre atrás do gato, que corre atrás do rato, que tenta furar o saco de cereais do homem que bate no cachorro. Agora imagine isso num imenso ecossistema. As pessoas fazem o que precisam fazer.

Se alguém lhe perguntasse quando começara, não saberia dizer. Sabe alguém identificar o exato momento em que começou a se tornar o que é?

A velhinha apontou na porta do banco. Rapidamente, ele se pôs a atravessar a praça, sob o sol, um calor que era como uma febre. Perfeito. Toda a dor era suportável. Na praça, por toda parte, aquela breguíssima decoração de dezembro, faixas e guirlandas de um verde e de um vermelho desbotados. Alguma loja dos arredores tocava Jingle Bell. Cruzou a rua. Fingindo distração, aproximou-se rapidamente da velhinha. Um esbarrão. Virou-se de pronto, um imenso e gentil sorriso nos lábios.

Mil perdões. A senhora está bem? – perguntou.

De repente, sentiu os pés perderem contato com o chão. Caiu de costas na calçada escaldante, um ferro apontado para cara. Merda. Em algum momento, se distraiu.

Perdeu, vagabundo – gritou o PM, e então afetou um sorriso gentil. – Feliz Natal.

Não conseguiu sentir raiva. Não era pessoal.

Sandoval Matheus

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Escala de Baumé 0 2225

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2857

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.