Texto de em 02 de Fevereiro de 2015 . Nenhum comentário.

postado pela Carol

De rapaz impulsivo a homem prudente, meu pai sempre atravessou vidas demarcando riachos em sua passagem. Sem esforço, seus pés pisam em terrenos largando vestígios que jamais desaparecem. É o cliente de supermercado que transforma a vida da atendente com alguns segundos de prosa; o amigo justo, que compreende os tempos de vacas magras e estende a mão aos amigos sem avareza; o irmão que acolhe em casa a dor de quem sucumbiu aos desvios e precisa se reerguer. Jamais ostensivo e sempre humilde, algum patrimônio lhe permite o conforto merecido à idade em que está. O supérfluo da vida, porém, dispensa em seu Santana Quantum ano 2000, que há anos o carrega entre estradas e afazeres.

Meu pai gosta de assistir a um filme e sentir o gosto da sopa que dois personagens, viajantes e famintos, provam num abrigo. É capaz de sentir fome junto a eles e saliva-se na vontade de ensopado de coelho que a pequena fugitiva devorava em interpretação quase concreta de tão bonita. Atrai-se pelas cenas fortes de alma, pela poesia de quando a arte se põe soberana, a expressar nossos mistérios. Faz loucas a religião, a ciência ou qualquer dose da fria racionalidade. Meu pai é sempre um artista das reflexões; tão dedicado a elas que chega a ir longe demais.

Cultiva o hábito de memorizar frases de livros, que diz e repete à minha irmã, quando ela lhe reclama os dissabores da vida: “só uma vaga pena inconsequente / para um momento à porta da minha alma / e após fitar-me um pouco / passa, a sorrir de nada”. O convívio nos permitiu compreender suas palavras, ora diretas, ora metafóricas, e bastavam alguns versos convenientes para abrir-se um sorriso de entendimento no rosto moreno de minha irmã.

De tão prudente, viu seu olhar tornar-se rígido, inflexível com a mínima possibilidade de um descaminho. Um corretor implacável. Sua transformação de rumos (nasceu-lhe a terceira filha, viu o álcool levar embora um amigo, emancipou-se aos quinze anos, o tiro de revólver no rosto como um mistério que permaneceu no passado) fez dele um homem temeroso, cujo amor pelos filhos se transformara num permanente receio de vê-los cair. Em tanto medo, ele percebia nas casualidades da nossa vida erros incalculáveis. Havia dias em que, a seus olhos, estávamos errados, perdidos e confusos em absoluto. Qualquer passo divergente nos poderia, para ele, custar o brilhante destino que sonhava para nós.

Cuidou dos afetos com a sinceridade de quem se preocupa, mas exigia o que pensava ser a eles a coisa certa. Quis sempre que me afastasse das distrações, rumando num percurso linear ao futuro que sempre sonhou para mim. Quando jovem, impunha que eu cortasse bem curtos os cabelos de modo a não chamar atenção. Festas e encontros com amigos eram-me militarmente regulados. Mas eu, talvez por fraqueza e sobretudo por muito amar a vida, cedia aos prazeres numa medida em que ele certamente julgaria condenatória. Cada vontade cerceada era uma profunda contradição à minha essência. Quanto mais eu crescia, mais me encantava viver. Ainda que estudiosa, minha literatura nada seria sem o aspecto palpável das experiências. De que adiantará escrever sobre a vida se me recusasse a provar do seu mel?

Então, crescida e sempre independente, eu passei a lhe mentir. Conhecendo-o e por amá-lo sem tamanho eu escondi quem eu era, sabendo que reprimiria com dureza as escolhas que faço. Ele me queria envolver em europeizações enquanto eu ansiava o conhecimento e a plena vivência das latinidades. Ele exibia um impecável planejamento, e eu me arranjava no improviso. Ele era o organizado e eu a bagunceira. Já emancipada, vivendo n’outra casa e dona de meus atos, a vida seguia conforme escolhi que ela fosse.

O que é a mentira, afinal?

A falta de pele, algo como não ter coragem, pôr-se fraco em meio às coisas todas. Como se as possíveis reações do mundo fossem mais fortes do que a pretensão de confessar a verdade. Dia após dia o incômodo das máscaras passou a pesar e entortar-me a alma sob o peso das costas.

Percebi com o passar dos anos que as feridas se tornariam mais profundas se o tempo continuasse a correr sob aquelas condições. A emancipação trazia consigo a livre possibilidade de ser quem quer que eu fosse, e tomei a tardia decisão de dar chance para o meu pai me conhecer.

Penso que até agora ele não gostou do que soube. Contei-lhe do meu companheiro, de meus hábitos, revelei tatuagens e sonhos. Falei da bebida que ele, como alguém que largou dela para sempre, há muitos anos desprezava. Eu bebo, disse a meu pai. Sabia da dor que as palavras lhe causariam. Mas ele amava a imagem que tinha de mim, e já era hora de me soltar das máscaras para que lhe fosse possível amar quem eu era de verdade, se ainda assim quisesse.

Surgiram dias penosos. Árduas semanas. Uma reviravolta incondicional diante um do outro.

 

 

Agora, à procura da calmaria, meu pai vem se empenhando em entender quem eu sou. Senti, durante dias, o fluxo do seu sangue correndo forte como alguém que se esforça para despir-se do ego, do orgulho e das convenções ao avaliar uma situação que outrora não queria ver. Revirou-se tanto em pensamentos que deles enfim salvou-se uma síntese, sensata como a que sempre queremos ouvir de um bom e amado pai.

– Tens vivido mais do que te dedicado à poesia que te compõe, minha filha. Viver é importante, mas não deixas de correr atrás de teus sonhos. De suar sangue por eles. És talentosa, uma mulher viva, e reconheço-te adulta; mas as ambições da alma nada serão sem disciplina. Faz poemas dessa tua vida bailarina. Lê e lê e lê. Apenas quero de ti que chegues ao ápice do que tu és.

Com este recado, eu, livre de máscaras, o peito leve, recomeço nossa vida. Tudo que é feito de amor tem sempre formas de dar certo. Se eu e meu pai temos algo em comum, é esta intensidade ao sentir e este amor sem medidas um pelo outro. E agora vivo o prazer incalculável de lhe ser sincera. Retomo a entrega aos escritos com um texto sobre ti, meu pai, para que esta nova etapa diante um do outro seja um marco de minha própria metamorfose rumo ao que sempre tive vontade de ser.

Prevejo tempos difíceis e contradições imensas, mas a verdade é sempre rota mais certeira do que a mentira.