Março 0 799

Parecia que o novo quarto seria um lar, mas ainda há fantasmas e sombras que me acompanham a cada ida. Esses fantasmas não deixam nem mesmo uma colmeia se transformar em lar. São caligrafias em endereços, bilhetes mínimos de textos que não são meus, arrependo-me de encontra-los, pedaços de lembranças espalhados pelo chão ao qual não pertenço, como cacos de vidro que ao perfurar meus pés, demoram a ser descobertos e infiltram meu sangue com memórias. Memórias de algo que nunca vi, mas imagino vozes e risadas e choros. Risadas de um tempo em que eu não havia ainda nascido para este lugar.

As luzes que entram pela janela fazem malabarismos irreais nesse solo, faíscas novas de esperanças velhas. Estou presa em escritos alheios que inevitavelmente me consomem mesmo fingindo que eles não existem mais. Ou eu desconheço novas criações. Colocarei carpetes novos e coloridos, ou cobrirei o quarto todo com tapetes variados. Quem sabe daqui um tempo.

O texto sempre jogado no chão do seu quarto, eu o li e reli tantas vezes, contei letra por letra, palavra por palavra, sabia exatamente cada espaço, cada vírgula. Coloquei-o embaixo do braço, carreguei-o como se fosse minha própria lei, minha bíblia, meu livro sagrado. Quando meus olhos finalmente devoraram os resquícios de vida, eu o queimei, mas suas linhas continuaram em meu olhar vazio, as palavras ecoaram em meus ouvidos, marcaram minha pele como tatuagens. Sempre me vem esse devaneio quando repenso a ideia desse quarto como um lar. Essas palavras cravadas em mim se juntam com as lembranças espalhadas nesse chão, nesse vazio gelado onde pisamos hoje. Quem sabe um aquecedor não resolveria? Quem sabe daqui um tempo esse campo seja mais propício a pés descalços.

Como fugir? Para onde fugir? Onde encontrar novos tacos para substituir? A história carregada no barco das memórias se juntou com a história desse novo lugar, que mal conhecemos, mas que já está repleto de tudo que trouxemos. Em partes, o que trouxemos pertence a outra pessoa, o que tenho de meu é mínimo, talvez seja por isso que minhas entranhas ficam cheias do fantasma do que restou. Preciso trazer mais bagagem, tirar da rua o que tenho e abrigar aqui.

É cansativo viver em meio às sombras, é frio e solitário. É cansativo procurar sempre por um lar, pelo calor do sol, pelo calor de lembranças frescas criadas e recriadas. O sol amanhã vem, com ele a vaga vontade de que as sombras se dissipem em pontos de luz, caligrafias mais bonitas, textos mais meus. Quem sabe daqui um tempo. Eu acredito e prometo: quem sabe? Eu sei.

 


 

Fernanda Wojcik (lê-se “voicic”) é designer, apaixonada por literatura, por conhecimento e por plantas. Para ela, escrever é uma forma de organizar os pensamentos e retirar um peso nas costas. Escreve diários líricos desde 2008 e alguns de seus textos podem ser lidos em: http://a-laudidae.tumblr.com/

 

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Escala de Baumé 0 2072

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3340

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai