Texto de em 18 de Maio de 2015 . Nenhum comentário.

postado pela Carol

Há quanto tempo não se levantava assim tão cedo! Às sete da manhã, um instrutor com lenço amarrado à cabeça e calças que Josué não vestiria nem como pijama lhe dizia para se acomodar. Cheiro de incenso, quadros de velhos homens da Índia e atenção à respiração. Lembrou-se da cama abandonada ao amanhecer do sol e já se arrependia da repentina coragem.

A Josué sempre faltara o equilíbrio. Excedia-se no café para manter a produtividade no emprego que detestava; bebia álcool para se distrair quando vivia mais um desamor; cigarro era uma porção pontual de medicação contra as tantas doses de amargura que se toma num só dia. Uma vida de expectativas que decorreram em frustrações lhe fez homem desiludido, entregue aos excessos. Era verdadeiro desperdício que um sorriso como aquele, cheio de dentes e bocas, já não se abrisse sincero. O riso de Josué era um barco solitário no oceano do mundo, que acolheu sua condição de logo afundar. A falta de vida era ali um navegar sem rumo nem esperança, pronto a morrer sem jamais ter vivido.

Em seu aniversário, numa manhã de enorme indisposição, Josué se percebe em falta. Ao ver o relógio que marcava dez horas e quarenta minutos já transcorridos de seus 57 anos, sentiu vontade de estar vivo no presente. Sem preocupar-se. Sem recorrer ao que podia segurar nas mãos para que tivesse ligação com o mundo. Queria navegar com propósito, fazer planos, pular do barco e mergulhar.

Num telefonema da irmã recebeu outra vez o convite para uma prática experimental de yoga. “Yoga, mais uma vez esse papo de yoga“, pensou com desdém, “qual pessoa séria acredita nessa bobagem?”,  e por motivos como este limitava os assuntos que se dispunha a conversar com ela – brócolis, meditação e Pirassununga 51 eram alguns dos temas que evitava. O aniversário chegava ao fim e nada de novo acontecia. Josué passara o tempo à espera de uma vida que foi embora e perdera último trem de volta. Mais uma vez se entregou ao sono acompanhado da garrafa esvaziada à metade e aniversariou na própria companhia.

Inspirem, expirem, soltem tensões, inspirem, expirem. “Há tanto pra pensar e eu aqui respirando. Isso eu já faço o tempo todo e não preciso pagar mensalidade”, ainda bufou para si. Josué percebeu há quanto tempo não movimentava seu corpo quando, num simples alongamento em direção aos pés, sua mão mal chegava às canelas; desconhecia seu corpo. Imerso em excessos, não se prestava a ser rei de si.

A vida lhe invadiu o cérebro quando uma estranha posição combinada entre tronco sobre o piso e pernas erguidas contra a parede inverteu Josué de cabeça para baixo. Tudo que caminhara com os pés durante a vida realocava-se no pensamento e os calcanhares se encontravam onde sempre habitou sua cabeça: ao topo do corpo. O caminho dos pés tornou-se o pensar e Josué se deu conta de que tudo, fora e dentro, acima e abaixo, de um lado para outro, era uma coisa só.

Na escolta da respiração a vida transcorre no presente. Entre inspirar e expirar, Josué se voltava a si mesmo e olhou com carinho à irmã, em bela postura sob os calcanhares. Ela tinha muito mais destreza com seu corpo. Talvez fosse o brócolis.

Entrar em savasana. Josué pensou que o professor de pijama debochava da turma dizendo palavrões em sânscrito e delegou-se a tarefa de pesquisar seu significado. Ninguém tira onda com Josué, nem com sua irmã.

Os colegas se deitavam ao chão numa postura de repouso que não parecia exigir esforço físico. O corpo exausto pelo inesperado alongamento logo se acomodou à folga. Josué inspira e expira. Concentrar-se na respiração já não parecia tão difícil e o cheiro de incenso regia o silêncio. Seu corpo relaxava profundamente enquanto a consciência fluía ao ritmo de um doce respirar. Tudo estava tão leve que Josué gostou de existir. Entregue ao instante, pulou do barco. Enquanto houver respiração há vida e nenhuma utopia estará banida.