Esse papo de yoga… 0 97

postado pela Carol

Há quanto tempo não se levantava assim tão cedo! Às sete da manhã, um instrutor com lenço amarrado à cabeça e calças que Josué não vestiria nem como pijama lhe dizia para se acomodar. Cheiro de incenso, quadros de velhos homens da Índia e atenção à respiração. Lembrou-se da cama abandonada ao amanhecer do sol e já se arrependia da repentina coragem.

A Josué sempre faltara o equilíbrio. Excedia-se no café para manter a produtividade no emprego que detestava; bebia álcool para se distrair quando vivia mais um desamor; cigarro era uma porção pontual de medicação contra as tantas doses de amargura que se toma num só dia. Uma vida de expectativas que decorreram em frustrações lhe fez homem desiludido, entregue aos excessos. Era verdadeiro desperdício que um sorriso como aquele, cheio de dentes e bocas, já não se abrisse sincero. O riso de Josué era um barco solitário no oceano do mundo, que acolheu sua condição de logo afundar. A falta de vida era ali um navegar sem rumo nem esperança, pronto a morrer sem jamais ter vivido.

Em seu aniversário, numa manhã de enorme indisposição, Josué se percebe em falta. Ao ver o relógio que marcava dez horas e quarenta minutos já transcorridos de seus 57 anos, sentiu vontade de estar vivo no presente. Sem preocupar-se. Sem recorrer ao que podia segurar nas mãos para que tivesse ligação com o mundo. Queria navegar sob o rumo do peito, desfazer planos que não lhe interessavam, pular do barco e mergulhar na vida.

Num telefonema da irmã recebeu outra vez o convite para uma prática experimental de yoga. “Yoga, mais uma vez esse papo de yoga“, pensou com desdém, “qual pessoa séria acredita nessa bobagem?”,  e por motivos como este limitava os assuntos que se dispunha a conversar com ela – verduras e cachaça ao topo da lista. O aniversário chegava ao fim e nada de novo acontecia. Josué passara o tempo à espera de uma vida que foi embora e perdera último trem de volta. Mais uma vez se entregou ao sono acompanhado da garrafa esvaziada à metade e aniversariou na própria companhia.

Inspirem, expirem, soltem tensões, inspirem, expirem. “Há tanto pra pensar e eu aqui respirando”, bufava a cada novo comando do instrutor. “Isso eu já faço o tempo todo e não preciso pagar mensalidade”.

Calar a mente. Calar-se. Josué percebeu há quanto tempo não se movimentava quando, num simples alongamento em direção aos pés, sua mão mal chegava às canelas; desconhecia seu corpo. Imerso em excessos, não se prestava a ser rei de si.

A vida lhe retornou ao cérebro quando uma estranha posição combinada entre tronco sobre o piso e pernas erguidas contra a parede inverteu Josué de cabeça para baixo. Tudo que caminhara com os pés durante a vida realocava-se no pensamento e os calcanhares se encontravam onde sempre habitou sua cabeça: ao topo do corpo. O caminho dos pés tornou-se o comandante de todo o organismo e Josué se deu conta de que tudo, fora e dentro, acima e abaixo, de um lado para outro, era uma coisa só.

Na escolta da respiração a vida transcorre no presente. Entre inspirar e expirar, Josué se voltava a si mesmo e olhou com carinho à irmã, em bela postura sob os calcanhares. Ela tinha muito mais destreza com seu corpo. Talvez fossem as verduras.

Entrar em savasana. Josué pensou que o professor de pijama debochava da turma dizendo palavrões em sânscrito e delegou-se a tarefa de pesquisar seu significado. Ninguém tira onda com Josué, nem com sua irmã.

Os colegas se deitavam ao chão numa postura de repouso que não parecia exigir esforço físico. O corpo exausto pelo inesperado alongamento logo se acomodou à folga. Josué inspira e expira. Concentrar-se na respiração já não parecia tão difícil e um incenso perfumava o silêncio. Seu corpo aderiu ao relaxamento enquanto a consciência fluía ao ritmo de um doce respirar. Tudo estava tão leve que Josué gostou de existir. Entregue ao instante, bastou-lhe alguns segundos para decidir saltar do barco. Enquanto houver respiração há vida e nenhuma utopia estará banida.

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A herança de tesouros incalculáveis 0 93

Meu pai foi um professor de sonhos.

Minha mãe, sol a pino entre os temporais.

Enquanto ele nos ensinava que havia sempre novos caminhos e formas inexploradas entre as paisagens regulares, ela deixava aflorar suas profundezas. Havia muitas ali dentro. Acho que ela nunca soube dizer quantas eram.

Com ele, aprendemos a enxergar as amarras, a vislumbrar trechos em que seria possível caminhar com mais folga, para ser um pouco mais de quem a gente é e um pouco menos de um número aprisionado a somar nos indicadores da vida na Terra. Era sempre um trajeto de muitos livros sobre a mesa, de humildade no trato com os outros, de educação e ponderação enrijecido em rebeldia sempre que se impunha uma premissa questionável.

Com ela, aprendemos a noção de libertar-nos de tudo o que nos acorrenta, e que isso leva um tempo enorme: demora mais que a vida inteira. Mas vem de minha mãe a certeza de que a voz pode falar mais firme a cada novo passo, o que não torna nada mais fácil, mas nos fortalece pra encarar os cadeados e encontrar a chave para abri-los um por um. Enquanto eu respirar e a vida for assim, condicionada, lucratória, servirei à desestrutura. Quem sabe até o fim já terei superado fechaduras o bastante para abrir as portas de uma existência um pouquinho mais livre, a mim e a tantos irmãos quanto possível.

Foram felizes como são as pessoas que tentam viver de verdade, e tristes como tais.

Levo deles um amor que tem o maior dos tamanhos dentre as alturas que já conheci. Não sei de muitas, menos ainda de todas. Mas já vi o Pão de Açúcar de pertinho e a Floresta Amazônica da janela do avião. Foi quando meu pai apontou para o chão e disse: “Ali tem bichos e plantas que a humanidade ainda nem sabe que existem”. Eu me impressionei com a possibilidade de haver um livro inteiro de biologia só com imagens de espécies desconhecidas. Vi a natureza de uma forma outra, que se abriu como um aposento escondido no meu raciocínio. Ela é impecável em seus processos.

Eu sigo os passos que aprendi a trilhar, agora ao lado dos meus filhos. Tento ser-lhes professora de sonhos sem dominá-los, a manter-se em equilíbrio sem calar.

Meu pai e minha mãe não me deixaram grandes propriedades, não engrandeciam o que era dispensável. Nunca me levaram ao Mc Donalds para voltar pra casa com a barriga cheia de batatas fritas e um brinquedinho de montar. Em compensação, já fomos a quase todos os bons-e-baratos restaurantes da cidade, quando sempre aproveitávamos para mergulhar em digressões. Comer, fosse o que fosse, era uma celebração muito respeitosa, que comemorávamos entoando filosofias.

Eu ganhei deles uma existência que começou sólida e lúdica; que foi sensível desde o primeiro choro e fez pergunta da palavra inicial. Também de mãe e pai herdei a dedicação ao ofício dos versos, que levo comigo como uma marca de nascença. Eu manipulo palavras. É o que hoje se chama de “profissão”. Penso que é o que tenho de verdade e que não me pode ser tirado. Eu sou as ideias e histórias que eu já li, todas as pessoas com quem conversei, as viagens que eu fiz e o que ainda posso fazer com meu corpo e meu sorriso enquanto viver na Terra. Tudo o mais é frágil como a própria vida.

Pequena que sou, fui, junto a meus irmãos, a maior herança dos meus pais.

Tão grandiosos, tão presentes nessa vida, marcando cada canto da passagem com novas tentativas, restou na essência apenas nós. Mais um motivo para acusar a vida de muito-injusta.

Em gratidão por ser, pelo amor que jamais me faltou, tento ser ainda mais. Pra que eles se orgulhem da passagem sem bens e do carinho com que executaram uma de suas milhares de tarefas, todas sempre duras, mas cheias de grandes belezas: a de mostrar um caminho diferente, que se trilha pensando. Os poros estão continuamente abertos na festa das sensações. Sentir é obrigatório, é involuntário; mas o pensamento se constrói, e divide com o peito a tarefa de iluminar os nossos passos.

Assim eu vejo um adendo à herança, como uma joia rara bem protegida no cofre da família: a nossa harmonia. Conduzidos pelo tentar entender, a gente se entende. Eu acho que de tanto amar os meus irmãos eu aprendi a amar os outros. E tento olhar por dentro dos seus olhos, mesmo quando me olham de volta sem me enxergar.

Eu não sei, papai, mamãe, se eu estou fazendo render os seus investimentos.

Mas eu fiz uma poupança de muitas ideias, que engordo um pouquinho todos os dias. Deposito dentro dela meus novos livros, palavras abundantes, um pouco de choro quando a vaca está magra (acho que prefiro dizer: quando o caqui está marrento. Pode ser assim?), muito riso e danças festas travessuras quando o caqui está maduro e até algum dinheiro de vez em quando. Mas isso é só quando o mundo à minha volta decide que eu lhe tenho algum valor.

Acho que até o fim da minha vida vai dar pra comprar alguma coisa. Se não um terreno à beira do mar, pelo menos a coleção inteira dos irmãos Grimm para a Miranda e o Augusto. Mas se não der, tudo bem. Acho que me bastará a delicadeza de saber, como vocês souberam, mostrar a direção do outro caminho, para que os carros e as roupas caras não façam a menor diferença quando há tantos livros e pessoas especiais. Se eu puder fazer isso, minha herança será a mais rica dentre todos os inventários de reis e rainhas que já desgovernaram a nossa civilização.

por Carolina Goetten

Para abrir as cortinas 0 189

Eu me vejo em todas as mulheres que encontro.

Em muitas percebo a presença de alguém que já fui. Meu passado está vivo em um ou outro de seus gestos, minhas cicatrizes em seus pesares e um novo modo de pensar tem na insegurança de cada uma delas a semente que, daquele mesmo solo tão árduo, fez-se flor em mim. Há nesse passado um medo oculto a mascarar-se no automatismo da rotina. Às vezes, revejo aquela resignação estagnada, sem gosto nem cheiro, quase sem vida. Há uma dor que de funda não sabemos o que ela é, nem por que machuca tanto.

N’outras tantas, aos milhares, contemplo quem lutei para deixar de ser. Vejo condutas superadas e rememoro a dor que vivi para desorganizar a teia de ideias que se entrelaçavam no meu cérebro, no meu peito, nas decisões, nos conceitos e por tudo à minha volta; um tecido que se fiava sob uma receita pronta, enquanto eu só seguia o traçado que aprendi, sem pensar, sem refletir, sem saber que cada nova linha engrossava a jaula ao meu redor e me mantinha cada vez mais presa fora de mim. Em encontros como este a memória do caminho percorrido tem um cheiro mais latente do que as recordações da mulher que fui. Já ouvi dizerem que a ignorância é uma bênção, mas eu a considero o segundo pior nos abismos dos vivos, porque mata por dentro e nos amarra os pés, sem que possamos distingui-los como uma força que nos pode tirar dali. Não há, porém, nada mais escuro do que um processo de mudança; reconhecer a brutalidade da nossa vida e abrir as portas do peito à dor de modificar todo o traçado e tudo o mais que aprendemos até então. Cada ponto e cada nó deve ser desfeito e depois refeito de modo que a linha nos seja aconchego e calor; não mais algemas.

Em mulheres que se mantém próximas pela harmonia de nossas cadências eu vislumbro muito do que sou, num equilíbrio geral de ideias, num consenso mais ou menos próximo de posturas e opiniões. Mas em nossas diferenças vejo ainda pedaços de tecido não desfeitos e linhas soltas por fiar. Algumas já trocaram toda a cor mas não avançam no desalinho, outras já soltaram quase tudo o que havia e têm diante de si o desafio de reaprender consigo mesma o melhor método de fiá-las outra vez. E há as que avançam passo a passo, num gesto que segue adiante conforme um novo nó se desfaz. Como eu.

No entretanto, é por ver em tão poucas quem quero ser que às vezes me canso, sinto-me exausta, desabo à calçada querendo que o mundo me diga quando essa corrida de linhas e agulhas vai enfim terminar. Tenho sede, tenho ganas de fazer outras coisas da vida, quero andar segura por aí e trilhar logo meus passos por um caminho livre dos maus hábitos que me fazem retroceder ou me ferem de novo. Tenho uma cortina inteira que costuro para se abrir, mas que se fecha à claridade em muitas horas do dia.

E quando o cansaço parece insuperável uma companheira preenche o meu copo com cerveja gelada, meu peito com sorriso quente, as angústias e inquietações com a sombra de uma resposta. Nesse momento a epifania me desfaz mais um nó e põe-me pronta a fiar mais uma parte do caminho: nesse tear a gente se costura umas às outras também. Uma jaula que abre um furo pela primeira vez é ponto de luz e de ar puro, livre de nossos fardos, trazendo os ventos de um outro mundo. Com mãos em soma de forças é possível rasgá-lo mais e mais, ampliando as rupturas até onde for possível, e até que as cortinas se abram para todas.

 

Carolina Goetten