Novelas não ensinam a amar 0 669

Aos 5 anos, quando eu torcia para acabar a escola e poder casar com a menina que eu amasse, não poderia imaginar que chegaria à vida tardia com seis ex-esposas, largado em um asilo com uma quenga escondida no armário e a polícia revirando os quartos em busca da minha marijuana.

Eu costumava ouvir novelas o dia inteiro, e como um voraz autodidata, aprendi a arte de amar como um latino-brasileiro. Passava semanas sentado sozinho no recreio analisando os movimentos das meninas, suas brincadeiras, as tranças em seus cabelos, e ganhava o dia quando um vestido subia mais do que deveria. Foi assim que me apaixonei por Amélia, com suas tranças longas e o vestido azul ensolarado que a irmã mais velha usara no ano anterior. Ainda lembro de seu cheiro, que eu podia sentir de qualquer parte da escola, mas que agarrou minha alma no dia em que pisquei para ela no corredor. Nosso primeiro beijo foi no ingênuo banheiro misto, após muito planejamento para que conseguíssemos estar juntos sem que ninguém desconfiasse. Nunca mais tivemos outra oportunidade, mas meus dias se resumiram a criar planos para ficarmos lá por mais tempo, e meu sonho era não precisar devolvê-la para o mundo.

Amélia não voltou para a escola no ano seguinte, e tampouco tive notícias suas, mas aquele amor despedido era a minha motivação para continuar a busca definitiva. Antes da metade do ano já agradecia ao destino por não ter fugido com Amélia para a praia, como tantas vezes vislumbrei. Com o abandono, as rádionovelas passaram a não ser suficientes, e foi então que conheci a poesia. Tudo era tão lindo e sofisticado, que eu não resistia à tentação de recitar os versos em voz alta mesmo sem entender a importância de cada palavra, até que certo dia um dos rapazes ouviu e ficou fazendo graça junto com a turma. Antonia, a menina mais charmosa da escola, também ouviu, e gostou.

Passei três semanas treinando caligrafia por várias horas, até que minha letra pudesse representar todo o meu desejo, e escrevi a primeira carta para Antonia. Ela respondeu no dia seguinte, em um papel de carta rebuscado, mas sem escrever o próprio nome. Assinou com um beijo de batom, e eu achei aquilo de uma sensualidade fantástica porque na época nenhuma menina usava batom. Era como se ela tivesse se vestido de mulher para me escrever.

O estranho é pensar que hoje é justamente uma marca de batom que fez a Loraine se esconder no armário, enquanto eu tento fumar rapidamente o que sobrou da erva que ela trouxe. O quarto já está com o incriminante cheiro da fumaça misturado ao perfume barato da moça, e a polícia acabou de chegar ao meu corredor, batendo de porta em porta.

Sem pensar muito, passo o batom dela em minha própria boca e visto seu vestido apertado por cima da roupa. Quando os canas entrarem terão a imagem de um velho transviado à sua frente e vão me falar algumas besteiras que não vou nem lembrar, o que é melhor do que ser expulso de um asilo por safadeza. Não sei quanto tempo falta para acabar isso tudo, mas eu não vejo a hora de poder sair deste lugar para casar com uma mulher que eu ame.

André Petrini

Foto: prettyinprint

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Escala de Baumé 0 1915

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3207

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai