Texto de em 18 de junho de 2015 . Nenhum comentário.

Na semana passada tive a ideia de publicar um artigo no qual apontasse algumas dicas para se esquivar de um assalto. Tenho 37 anos e já fui roubada sete vezes; com isso agreguei farta experiência no assunto e sei, melhor que ninguém, pressentir o perigo se aproximando. O editor gostou do tema e incentivou que eu escrevesse algo divertido, quase cômico, que aliviasse a violência de um ataque súbito e criminoso.

Durante alguns dias revivi mentalmente meu histórico: aos 12, criança sempre miúda, fui vítima do primeiro assalto. Um soco na cara, nariz sangrando por toda a calçada e cada moeda que integrava o valor da passagem de ônibus passando a engordar o bolso de uma garota mais alta, mais velha e mais feroz do que eu.

Aos 17 marcou-me o terceiro. Três caras tirando onda, mão na bunda e um desconhecido me chamando de gostosa. Levaram minha bolsa inteira, mas eu fiquei, e chorei sozinha num corpo invadido do qual provaram sem meu consentimento.

Dias antes da formatura, aos 25, um casal se enfiou na minha frente enquanto eu pedalava de volta para casa. Perdi a bicicleta e pela primeira vez vi a cor real de um revólver.

Presumia saber, de cor, a sensação que precede um assalto. Ao longo dos anos pensei em estratégias e busquei controlar o medo de andar sozinha pelas ruas. E se eu treinasse habilidades na corrida para me tornar uma atleta inalcançável, capaz de dispersar até mesmo o pior dos bandidos? Ou se começasse a chorar quando sentisse de antemão a proximidade um sujeito intencionado a me roubar, pedindo-lhe desesperada ajuda ao me cruzar com ele, já adiantando a falsa informação de um assalto que me ocorrera minutos antes? “Levaram tudo, moço, não tenho nada! Ouviu? Nada!”

Pensei muito nisso tudo e durante anos mantive o hábito de portar-me cautelosa, para não ser assaltada mais uma vez. Foi assim até ontem.

Ao entardecer, desci do carro sempre atenta para abrir o portão, mas antes de chegar ao cadeado fui imobilizada por mãos frias. No reflexo do vidro via outra vez a cor do revólver, e pelo espelho retrovisor encarei minha filha que dormia no banco de trás. A sensação de letargia, de torpor, de ser vítima sem qualquer chance de reação, invadiu meu corpo como a um velho conhecido.

Perdi meu carro, coisa temporal e sem importância, mas Malu está bem. Isso pra mim é um universo.

Talvez eu tenha dado azar nesta vida e conheço quem jamais tenha sido abordado pelas ruas, sofrido um assalto ou familiar à cor de uma arma de fogo. E após anos trabalhando a consciência de que devemos evitar a brutalidade, ontem reconheci que vivo numa sociedade doente. Aprendi a me concentrar nos caminhos, estar atenta aos movimentos ou evitar ruas ermas, percorrendo uma rota alternativa. Mas isso nunca bastou diante do risco iminente de perder a vida por bobagens materiais.

Livrar-se de um assalto não requer estratégias porque as ruas, todas elas, exalam o cheiro podre de um mundo insalubre. Penso que educamos mal as pessoas e há muito trabalho a fazer. A ganância perpassa os corpos e se atribui aos bens um valor atroz. Um carro vale mais que a Malu e esta constatação é tão lunática que me dói na alma. Vivemos para ter coisas, em busca de conquistar mais e mais frivolidades, e distribuímos muito mal tudo que há de importante por aí. Então nos tornamos adversários um do outro na concorrência por propriedadades-celulares-diamantes. E não damos a mínima para o fato de que hoje em dia só se come porcaria ou que falte comida a tanta gente.

Para escapar de um assalto é preciso reformular nossa forma de vida e repensar a sociedade. Refazê-la. É assim que eu penso, mas também podemos mandar pessoas à cadeia; o que, até agora, não pareceu funcionar.

Julieta Melo
Opinião
Jornal Hora da Notícia

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por Carolina Goetten