Pai 0 658

Uma vez fiquei devendo para o seu Zé, do açougue. Não consegui dormir por 2 semanas, apertado com a situação. Quando o seguro desemprego chegou, corri até ele com os vinte reais e cinquenta desculpas. Ele nem lembrava mais, mas eu não conseguia esquecer. O homem também tem que dar de comer pros filhos, imagina se falta por minha culpa?

E agora o Nandico me vem com essa. Com certeza é culpa do Cristiano, que eu sempre soube não ser coisa boa, e se confirmou quando peguei os dois fumando escondidos. Sempre tem um amigo que não presta, um cupim no meio do mogno que você tá trabalhando há tanto tempo. E o pior é que o outro se safou. Vamos ver se assim o tongo do Nandico aprende que tipo de amigo que o Cristiano é.

Ainda bem que o Ademir deixou eu sair um pouco antes da oficina. No final do ano todo mundo resolve reformar a casa, e a marcenaria tá cheia de trabalho, mas o patrão sempre foi muito bom pra mim. Quando falei que o Dico tava com problema, nem esperou eu falar o que era. Foi logo mandando eu ir ajudar o moleque, e que se precisasse de alguma coisa, podia ligar pra ele. Mesmo que fosse à cobrar. Que homem bom, meu Pai.

Nessas horas a gente sempre fica procurando o nosso próprio erro. Talvez tenha sido falta de cinta, mas eu ainda lembro de cada uma das surras que o bêbado deu em mim e na minha mãe. Não poderia bater no meu filho. A única vez que levantei a mão pra dar uma palmada, vi meu desespero refletido em seus olhos que tremiam sem saber o que esperar. Não consegui bater, e levei uma surra da minha consciência. Fiquei exausto. E a safada da mãe dele nem deve lembrar do garoto. A psicóloga da escola diz que não tem problema, que muitas crianças lá também não têm a mãe ou o pai, mas ninguém cresce certo sabendo que foi abandonado pela mãe antes de pegar no peito. O coitado já chegou no mundo sofrendo.

Tô fazendo as contas aqui. O delegado falou que ele deve pegar uns 3 anos. Quando ele sair, ainda dá pra entrar numa faculdade, como eu falava pra ele. Onde foi que eu errei, meu Pai? No fundo eu sabia que isso ia acabar acontecendo, e sempre tive medo. Garoto da periferia andando à noite, se encontra um policial meio torto, cai num flagrante forçado e vai preso sem ninguém pra falar nada. Nem consigo imaginar meu menino preso. Parece que ontem ele tava ali no campinho jogando bola com os moleques da vila, e agora vai em cana. Por mil reais. O que ele quer com mil reais dos outros?

Pelo que me falaram na delegacia, eu tenho que pegar aqui o Fazendinha e ir até o centro. A farmácia deve ser logo ali perto. Espero que ainda não tenha fechado, porque não quero pedir pro Ademir me liberar amanhã de novo, e quero resolver essa dívida logo. Não dá pra pagar tudo de uma vez, mas em dez vezes eu acho que consigo. Aperta, mas dá. O homem não pode ficar sem o dinheiro dele porque meu filho queria fumar droga. Imagina se falta comida pros moleques dele, por minha culpa?

André Petrini
Foto: Neil. Moralee

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Escala de Baumé 0 1915

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3207

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai