Pai 0 97

Uma vez fiquei devendo para o seu Zé, do açougue. Não consegui dormir por 2 semanas, apertado com a situação. Quando o seguro desemprego chegou, corri até ele com os vinte reais e cinquenta desculpas. Ele nem lembrava mais, mas eu não conseguia esquecer. O homem também tem que dar de comer pros filhos, imagina se falta por minha culpa?

E agora o Nandico me vem com essa. Com certeza é culpa do Cristiano, que eu sempre soube não ser coisa boa, e se confirmou quando peguei os dois fumando escondidos. Sempre tem um amigo que não presta, um cupim no meio do mogno que você tá trabalhando há tanto tempo. E o pior é que o outro se safou. Vamos ver se assim o tongo do Nandico aprende que tipo de amigo que o Cristiano é.

Ainda bem que o Ademir deixou eu sair um pouco antes da oficina. No final do ano todo mundo resolve reformar a casa, e a marcenaria tá cheia de trabalho, mas o patrão sempre foi muito bom pra mim. Quando falei que o Dico tava com problema, nem esperou eu falar o que era. Foi logo mandando eu ir ajudar o moleque, e que se precisasse de alguma coisa, podia ligar pra ele. Mesmo que fosse à cobrar. Que homem bom, meu Pai.

Nessas horas a gente sempre fica procurando o nosso próprio erro. Talvez tenha sido falta de cinta, mas eu ainda lembro de cada uma das surras que o bêbado deu em mim e na minha mãe. Não poderia bater no meu filho. A única vez que levantei a mão pra dar uma palmada, vi meu desespero refletido em seus olhos que tremiam sem saber o que esperar. Não consegui bater, e levei uma surra da minha consciência. Fiquei exausto. E a safada da mãe dele nem deve lembrar do garoto. A psicóloga da escola diz que não tem problema, que muitas crianças lá também não têm a mãe ou o pai, mas ninguém cresce certo sabendo que foi abandonado pela mãe antes de pegar no peito. O coitado já chegou no mundo sofrendo.

Tô fazendo as contas aqui. O delegado falou que ele deve pegar uns 3 anos. Quando ele sair, ainda dá pra entrar numa faculdade, como eu falava pra ele. Onde foi que eu errei, meu Pai? No fundo eu sabia que isso ia acabar acontecendo, e sempre tive medo. Garoto da periferia andando à noite, se encontra um policial meio torto, cai num flagrante forçado e vai preso sem ninguém pra falar nada. Nem consigo imaginar meu menino preso. Parece que ontem ele tava ali no campinho jogando bola com os moleques da vila, e agora vai em cana. Por mil reais. O que ele quer com mil reais dos outros?

Pelo que me falaram na delegacia, eu tenho que pegar aqui o Fazendinha e ir até o centro. A farmácia deve ser logo ali perto. Espero que ainda não tenha fechado, porque não quero pedir pro Ademir me liberar amanhã de novo, e quero resolver essa dívida logo. Não dá pra pagar tudo de uma vez, mas em dez vezes eu acho que consigo. Aperta, mas dá. O homem não pode ficar sem o dinheiro dele porque meu filho queria fumar droga. Imagina se falta comida pros moleques dele, por minha culpa?

André Petrini
Foto: Neil. Moralee

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Dai-me Amor 0 176

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 321

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.