Pai 0 75

Uma vez fiquei devendo para o seu Zé, do açougue. Não consegui dormir por 2 semanas, apertado com a situação. Quando o seguro desemprego chegou, corri até ele com os vinte reais e cinquenta desculpas. Ele nem lembrava mais, mas eu não conseguia esquecer. O homem também tem que dar de comer pros filhos, imagina se falta por minha culpa?

E agora o Nandico me vem com essa. Com certeza é culpa do Cristiano, que eu sempre soube não ser coisa boa, e se confirmou quando peguei os dois fumando escondidos. Sempre tem um amigo que não presta, um cupim no meio do mogno que você tá trabalhando há tanto tempo. E o pior é que o outro se safou. Vamos ver se assim o tongo do Nandico aprende que tipo de amigo que o Cristiano é.

Ainda bem que o Ademir deixou eu sair um pouco antes da oficina. No final do ano todo mundo resolve reformar a casa, e a marcenaria tá cheia de trabalho, mas o patrão sempre foi muito bom pra mim. Quando falei que o Dico tava com problema, nem esperou eu falar o que era. Foi logo mandando eu ir ajudar o moleque, e que se precisasse de alguma coisa, podia ligar pra ele. Mesmo que fosse à cobrar. Que homem bom, meu Pai.

Nessas horas a gente sempre fica procurando o nosso próprio erro. Talvez tenha sido falta de cinta, mas eu ainda lembro de cada uma das surras que o bêbado deu em mim e na minha mãe. Não poderia bater no meu filho. A única vez que levantei a mão pra dar uma palmada, vi meu desespero refletido em seus olhos que tremiam sem saber o que esperar. Não consegui bater, e levei uma surra da minha consciência. Fiquei exausto. E a safada da mãe dele nem deve lembrar do garoto. A psicóloga da escola diz que não tem problema, que muitas crianças lá também não têm a mãe ou o pai, mas ninguém cresce certo sabendo que foi abandonado pela mãe antes de pegar no peito. O coitado já chegou no mundo sofrendo.

Tô fazendo as contas aqui. O delegado falou que ele deve pegar uns 3 anos. Quando ele sair, ainda dá pra entrar numa faculdade, como eu falava pra ele. Onde foi que eu errei, meu Pai? No fundo eu sabia que isso ia acabar acontecendo, e sempre tive medo. Garoto da periferia andando à noite, se encontra um policial meio torto, cai num flagrante forçado e vai preso sem ninguém pra falar nada. Nem consigo imaginar meu menino preso. Parece que ontem ele tava ali no campinho jogando bola com os moleques da vila, e agora vai em cana. Por mil reais. O que ele quer com mil reais dos outros?

Pelo que me falaram na delegacia, eu tenho que pegar aqui o Fazendinha e ir até o centro. A farmácia deve ser logo ali perto. Espero que ainda não tenha fechado, porque não quero pedir pro Ademir me liberar amanhã de novo, e quero resolver essa dívida logo. Não dá pra pagar tudo de uma vez, mas em dez vezes eu acho que consigo. Aperta, mas dá. O homem não pode ficar sem o dinheiro dele porque meu filho queria fumar droga. Imagina se falta comida pros moleques dele, por minha culpa?

André Petrini
Foto: Neil. Moralee

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”