Pai

Texto de em 11 de junho de 2015 . Nenhum comentário.

Uma vez fiquei devendo para o seu Zé, do açougue. Não consegui dormir por 2 semanas, apertado com a situação. Quando o seguro desemprego chegou, corri até ele com os vinte reais e cinquenta desculpas. Ele nem lembrava mais, mas eu não conseguia esquecer. O homem também tem que dar de comer pros filhos, imagina se falta por minha culpa?

E agora o Nandico me vem com essa. Com certeza é culpa do Cristiano, que eu sempre soube não ser coisa boa, e se confirmou quando peguei os dois fumando escondidos. Sempre tem um amigo que não presta, um cupim no meio do mogno que você tá trabalhando há tanto tempo. E o pior é que o outro se safou. Vamos ver se assim o tongo do Nandico aprende que tipo de amigo que o Cristiano é.

Ainda bem que o Ademir deixou eu sair um pouco antes da oficina. No final do ano todo mundo resolve reformar a casa, e a marcenaria tá cheia de trabalho, mas o patrão sempre foi muito bom pra mim. Quando falei que o Dico tava com problema, nem esperou eu falar o que era. Foi logo mandando eu ir ajudar o moleque, e que se precisasse de alguma coisa, podia ligar pra ele. Mesmo que fosse à cobrar. Que homem bom, meu Pai.

Nessas horas a gente sempre fica procurando o nosso próprio erro. Talvez tenha sido falta de cinta, mas eu ainda lembro de cada uma das surras que o bêbado deu em mim e na minha mãe. Não poderia bater no meu filho. A única vez que levantei a mão pra dar uma palmada, vi meu desespero refletido em seus olhos que tremiam sem saber o que esperar. Não consegui bater, e levei uma surra da minha consciência. Fiquei exausto. E a safada da mãe dele nem deve lembrar do garoto. A psicóloga da escola diz que não tem problema, que muitas crianças lá também não têm a mãe ou o pai, mas ninguém cresce certo sabendo que foi abandonado pela mãe antes de pegar no peito. O coitado já chegou no mundo sofrendo.

Tô fazendo as contas aqui. O delegado falou que ele deve pegar uns 3 anos. Quando ele sair, ainda dá pra entrar numa faculdade, como eu falava pra ele. Onde foi que eu errei, meu Pai? No fundo eu sabia que isso ia acabar acontecendo, e sempre tive medo. Garoto da periferia andando à noite, se encontra um policial meio torto, cai num flagrante forçado e vai preso sem ninguém pra falar nada. Nem consigo imaginar meu menino preso. Parece que ontem ele tava ali no campinho jogando bola com os moleques da vila, e agora vai em cana. Por mil reais. O que ele quer com mil reais dos outros?

Pelo que me falaram na delegacia, eu tenho que pegar aqui o Fazendinha e ir até o centro. A farmácia deve ser logo ali perto. Espero que ainda não tenha fechado, porque não quero pedir pro Ademir me liberar amanhã de novo, e quero resolver essa dívida logo. Não dá pra pagar tudo de uma vez, mas em dez vezes eu acho que consigo. Aperta, mas dá. O homem não pode ficar sem o dinheiro dele porque meu filho queria fumar droga. Imagina se falta comida pros moleques dele, por minha culpa?

André Petrini
Foto: Neil. Moralee