Questão de honra 0 298

Eu olhei pro céu como quem diz, sinceramente, “puta que pariu, hein, deus?”. Foi como se eu tivesse ofendido mesmo alguma entidade maior, porque poucos minutos depois o céu começou a verter água de um jeito meio diluvial. Pisei numa poça e meu pé esquerdo ficou encharcado. Fiquei um pouco puta. Lembrei que não acredito em deus e entrei numa lanchonete tosca pra pegar uma coxinha. Se era pra esperar a chuva passar, que fosse alimentada.

Foi a partir daquele dia que eu parei de proferir a sentença “coxinha até quando é ruim é bom”. Aquela coxinha tava tão ruim que eu pensei em comprar uma segunda e deixar na porta da casa daquele outro retardado que tá hospedando o Renan. Com um bilhete escrito “Para meu amor”, assinado por euzinha. Só que ele podia achar que tava envenenada, sei lá.

Se aquele idiota não fosse tão idiota, as coisas não estariam assim pra mim. Escroto. Dia desses, se arrependeu. Mandou mensagem no celular dizendo “Tô com saudade do Sr. Luvinhas”, o gato que mora lá em casa. E eu? Eu só respondi com outra mensagem, com todas as letras separadas, que dizia: “F O D A – S E”. Cretino.

Não quero passar por psicopata, só queria que ele comesse essa coxinha nojenta. Idiota e morto de fome que é, ele ia comer até o fim. Eu joguei fora pelo menos metade da minha. Comi a metade com o frango e o “catupiri” – com aspas, que aquilo passava longe de ser catupiri de verdade – e mandei pro lixo o pedaço do bico, da massa.

Porque eu posso até ter o meu ego ferido, mas nunca vou ser mulher de começar a coxinha pelo lado errado.

 
por Rômulo Candal
Fotografia: Alexandre.Nascimento via Compfight cc

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Chegada 0 1275

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 796

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.