Texto de em 09 de julho de 2015 . Nenhum comentário.

escrito pela Carol, ilustrado pela Eti

Foi embora em pleno inverno – bem desconfiei de sua frieza.

Escolho um conhaque pra matar a fome que não sinto, mesmo com o estômago em indesejado jejum. Vejo os discos ao canto da sala, namoro a vitrola e percorro os dedos pelas capas e vinis, mas me volto ao computador e seu cabo que o conecta à televisão. Hoje quero algo diferente, quase moderno, que me roube das memórias e faça esquecer-me do passado que me faz triste. Escolho Karol Conká. Beyoncé. Sandy. Apanhador Só e seus ensinamentos sobre o rei. Led Zeppelin. Nona Sinfonia de Beethoven embalando o jorro de conhaque à segunda dose. Danço e cantarolo uma cúmbia. Até Nando Reis ganha um cantinho na playlist sem critérios nem juízo.

Junto à corrente de ar, que escapa da janela entreaberta, flui a fumaça de um cigarro mais acolhedor que qualquer outro elemento da noite, qualquer lua, passageiro ou falsa sombra de um abraço. O ato de fumar me ilude porque sugere que estou ocupada, fazendo algo, e que ao menos alguma coisa segue nos conformes da rotina.

À terceira dose de conhaque o controle remoto se torna meu microfone e os cantos gritam minha aflição. Mas me despreocupo porque não há vizinhos e não há ninguém mais no mundo, a não ser eu e um vazio sem tamanho. E por isso, talvez, nada haja.

A quarta dose não existiu porque a garrafa acabou, mas resgatei a Balalaika que não tomaria em nenhuma circunstância que não se mostrasse absolutamente emergencial. A ambulância chegou, com gelo e misturada a suco artificial de limão. A essa altura eu era cantora e dançarina pronta a decolar na nave do sucesso, já maquiada com uma cor de sombra diferente para cada olho, boca vermelha, a saia de véus que usei no casamento, camisa do pijama e uma meia-calça arrastão. Minha coreografia expressava as condições da alma: caos absoluto, perdida e desequilibrada.

Fossa é a cavidade mais profunda do que resta de nós. Respirar entre termômetros quase abaixo do zero faz o ar frio percorrer o corpo e abandoná-lo, oco, congelando o coração. Dele, nada. De mim, pouco. Ou tudo. Sinto tanto que me sinto imensa, e cansada de ter saudade.

Bebo e canto e danço e fumo até que a atividade me entedia e já não sei o que fazer para distrair os pensamentos. Até ali resistira a checar meu telefone, mas poucas regras funcionam comigo. Senti falta de uma época que nunca vivi, em que as pessoas se amavam por cartas e a demora era um processo natural. A facilidade instantânea para responder uma mensagem nos fez ora impacientes ora cruéis, e transforma as relações num jogo amargo. N’outros tempos se podia culpar o carteiro, os navios, os feriados, os cavalos, e tudo isso de fato atrasava o trâmite da mensagem. E de tanto esperar pela resposta, na loucura da saudade, na excitação do bilhete que enfim chegou, ninguém se atrevia a não responder imediatamente ou a fazer-nos de palhaços.

A fossa é mais leve no verão, quando há chopes gelados e samba pras dores todas do peito?

A noite é fria, tudo dói e a ausência de Otto me rouba das vontades. Sou copo cheio, completo comigo mesma, sei disso; nunca fomos metade um do outro como se prega por aí ao pleno amor, mas me acostumara a transbordar com sua presença. Agora me encaro no desafio de derramar-me sozinha, ser-me suficiente outra vez.

Fecho os olhos para adormecer no sofá. A vida já não pesa. Minha fossa é oceânica em dilúvio de sombras, zona necrófaga de detritos e cadáveres, hermética como o afogamento, gelada, triste; mas habitada também por anêmonas e peixinhos fluorescentes num pedaço vital da sobrevivência do mundo. Aqui, há fonte de calor apenas a quem é capaz de viver nestas zonas abissais. Amar a mim mesma é o limite do infinito e só os peixes mais profundos residem neste oceano.

Me fez bem ser capaz de sentir, e por hoje basta. Amanhã eu vejo o que faço.