Fossa 0 104

escrito pela Carol, ilustrado pela Eti

Foi embora em pleno inverno – bem desconfiei de sua frieza.

Escolho um conhaque pra matar a fome que não sinto, mesmo com o estômago em indesejado jejum. Vejo os discos ao canto da sala, namoro a vitrola e percorro os dedos pelas capas e vinis, mas me volto ao computador e seu cabo que o conecta à televisão. Hoje quero algo diferente, quase moderno, que me roube das memórias e faça esquecer-me do passado que me faz triste. Escolho Karol Conká. Beyoncé. Sandy. Apanhador Só e seus ensinamentos sobre o rei. Led Zeppelin. Nona Sinfonia de Beethoven embalando o jorro de conhaque à segunda dose. Danço e cantarolo uma cúmbia. Até Nando Reis ganha um cantinho na playlist sem critérios nem juízo.

Junto à corrente de ar, que escapa da janela entreaberta, flui a fumaça de um cigarro mais acolhedor que qualquer outro elemento da noite, qualquer lua, passageiro ou falsa sombra de um abraço. O ato de fumar me ilude porque sugere que estou ocupada, fazendo algo, e que ao menos alguma coisa segue nos conformes da rotina.

À terceira dose de conhaque o controle remoto se torna meu microfone e os cantos gritam minha aflição. Mas me despreocupo porque não há vizinhos e não há ninguém mais no mundo, a não ser eu e um vazio sem tamanho. E por isso, talvez, nada haja.

A quarta dose não existiu porque a garrafa acabou, mas resgatei a Balalaika que não tomaria em nenhuma circunstância que não se mostrasse absolutamente emergencial. A ambulância chegou, com gelo e misturada a suco artificial de limão. A essa altura eu era cantora e dançarina pronta a decolar na nave do sucesso, já maquiada com uma cor de sombra diferente para cada olho, boca vermelha, a saia de véus que usei no casamento, camisa do pijama e uma meia-calça arrastão. Minha coreografia expressava as condições da alma: caos absoluto, perdida e desequilibrada.

Fossa é a cavidade mais profunda do que resta de nós. Respirar entre termômetros quase abaixo do zero faz o ar frio percorrer o corpo e abandoná-lo, oco, congelando o coração. Dele, nada. De mim, pouco. Ou tudo. Sinto tanto que me sinto imensa, e cansada de ter saudade.

Bebo e canto e danço e fumo até que a atividade me entedia e já não sei o que fazer para distrair os pensamentos. Até ali resistira a checar meu telefone, mas poucas regras funcionam comigo. Senti falta de uma época que nunca vivi, em que as pessoas se amavam por cartas e a demora era um processo natural. A facilidade instantânea para responder uma mensagem nos fez ora impacientes ora cruéis, e transforma as relações num jogo amargo. N’outros tempos se podia culpar o carteiro, os navios, os feriados, os cavalos, e tudo isso de fato atrasava o trâmite da mensagem. E de tanto esperar pela resposta, na loucura da saudade, na excitação do bilhete que enfim chegou, ninguém se atrevia a não responder imediatamente ou a fazer-nos de palhaços.

A fossa é mais leve no verão, quando há chopes gelados e samba pras dores todas do peito?

A noite é fria, tudo dói e a ausência de Otto me rouba das vontades. Sou copo cheio, completo comigo mesma, sei disso; nunca fomos metade um do outro como se prega por aí ao pleno amor, mas me acostumara a transbordar com sua presença. Agora me encaro no desafio de derramar-me sozinha, ser-me suficiente outra vez.

Fecho os olhos para adormecer no sofá. A vida já não pesa. Minha fossa é oceânica em dilúvio de sombras, zona necrófaga de detritos e cadáveres, hermética como o afogamento, gelada, triste; mas habitada também por anêmonas e peixinhos fluorescentes num pedaço vital da sobrevivência do mundo. Aqui, há fonte de calor apenas a quem é capaz de viver nestas zonas abissais. Amar a mim mesma é o limite do infinito e só os peixes mais profundos residem neste oceano.

Me fez bem ser capaz de sentir, e por hoje basta. Amanhã eu vejo o que faço.

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A herança de tesouros incalculáveis 0 93

Meu pai foi um professor de sonhos.

Minha mãe, sol a pino entre os temporais.

Enquanto ele nos ensinava que havia sempre novos caminhos e formas inexploradas entre as paisagens regulares, ela deixava aflorar suas profundezas. Havia muitas ali dentro. Acho que ela nunca soube dizer quantas eram.

Com ele, aprendemos a enxergar as amarras, a vislumbrar trechos em que seria possível caminhar com mais folga, para ser um pouco mais de quem a gente é e um pouco menos de um número aprisionado a somar nos indicadores da vida na Terra. Era sempre um trajeto de muitos livros sobre a mesa, de humildade no trato com os outros, de educação e ponderação enrijecido em rebeldia sempre que se impunha uma premissa questionável.

Com ela, aprendemos a noção de libertar-nos de tudo o que nos acorrenta, e que isso leva um tempo enorme: demora mais que a vida inteira. Mas vem de minha mãe a certeza de que a voz pode falar mais firme a cada novo passo, o que não torna nada mais fácil, mas nos fortalece pra encarar os cadeados e encontrar a chave para abri-los um por um. Enquanto eu respirar e a vida for assim, condicionada, lucratória, servirei à desestrutura. Quem sabe até o fim já terei superado fechaduras o bastante para abrir as portas de uma existência um pouquinho mais livre, a mim e a tantos irmãos quanto possível.

Foram felizes como são as pessoas que tentam viver de verdade, e tristes como tais.

Levo deles um amor que tem o maior dos tamanhos dentre as alturas que já conheci. Não sei de muitas, menos ainda de todas. Mas já vi o Pão de Açúcar de pertinho e a Floresta Amazônica da janela do avião. Foi quando meu pai apontou para o chão e disse: “Ali tem bichos e plantas que a humanidade ainda nem sabe que existem”. Eu me impressionei com a possibilidade de haver um livro inteiro de biologia só com imagens de espécies desconhecidas. Vi a natureza de uma forma outra, que se abriu como um aposento escondido no meu raciocínio. Ela é impecável em seus processos.

Eu sigo os passos que aprendi a trilhar, agora ao lado dos meus filhos. Tento ser-lhes professora de sonhos sem dominá-los, a manter-se em equilíbrio sem calar.

Meu pai e minha mãe não me deixaram grandes propriedades, não engrandeciam o que era dispensável. Nunca me levaram ao Mc Donalds para voltar pra casa com a barriga cheia de batatas fritas e um brinquedinho de montar. Em compensação, já fomos a quase todos os bons-e-baratos restaurantes da cidade, quando sempre aproveitávamos para mergulhar em digressões. Comer, fosse o que fosse, era uma celebração muito respeitosa, que comemorávamos entoando filosofias.

Eu ganhei deles uma existência que começou sólida e lúdica; que foi sensível desde o primeiro choro e fez pergunta da palavra inicial. Também de mãe e pai herdei a dedicação ao ofício dos versos, que levo comigo como uma marca de nascença. Eu manipulo palavras. É o que hoje se chama de “profissão”. Penso que é o que tenho de verdade e que não me pode ser tirado. Eu sou as ideias e histórias que eu já li, todas as pessoas com quem conversei, as viagens que eu fiz e o que ainda posso fazer com meu corpo e meu sorriso enquanto viver na Terra. Tudo o mais é frágil como a própria vida.

Pequena que sou, fui, junto a meus irmãos, a maior herança dos meus pais.

Tão grandiosos, tão presentes nessa vida, marcando cada canto da passagem com novas tentativas, restou na essência apenas nós. Mais um motivo para acusar a vida de muito-injusta.

Em gratidão por ser, pelo amor que jamais me faltou, tento ser ainda mais. Pra que eles se orgulhem da passagem sem bens e do carinho com que executaram uma de suas milhares de tarefas, todas sempre duras, mas cheias de grandes belezas: a de mostrar um caminho diferente, que se trilha pensando. Os poros estão continuamente abertos na festa das sensações. Sentir é obrigatório, é involuntário; mas o pensamento se constrói, e divide com o peito a tarefa de iluminar os nossos passos.

Assim eu vejo um adendo à herança, como uma joia rara bem protegida no cofre da família: a nossa harmonia. Conduzidos pelo tentar entender, a gente se entende. Eu acho que de tanto amar os meus irmãos eu aprendi a amar os outros. E tento olhar por dentro dos seus olhos, mesmo quando me olham de volta sem me enxergar.

Eu não sei, papai, mamãe, se eu estou fazendo render os seus investimentos.

Mas eu fiz uma poupança de muitas ideias, que engordo um pouquinho todos os dias. Deposito dentro dela meus novos livros, palavras abundantes, um pouco de choro quando a vaca está magra (acho que prefiro dizer: quando o caqui está marrento. Pode ser assim?), muito riso e danças festas travessuras quando o caqui está maduro e até algum dinheiro de vez em quando. Mas isso é só quando o mundo à minha volta decide que eu lhe tenho algum valor.

Acho que até o fim da minha vida vai dar pra comprar alguma coisa. Se não um terreno à beira do mar, pelo menos a coleção inteira dos irmãos Grimm para a Miranda e o Augusto. Mas se não der, tudo bem. Acho que me bastará a delicadeza de saber, como vocês souberam, mostrar a direção do outro caminho, para que os carros e as roupas caras não façam a menor diferença quando há tantos livros e pessoas especiais. Se eu puder fazer isso, minha herança será a mais rica dentre todos os inventários de reis e rainhas que já desgovernaram a nossa civilização.

por Carolina Goetten

Para abrir as cortinas 0 188

Eu me vejo em todas as mulheres que encontro.

Em muitas percebo a presença de alguém que já fui. Meu passado está vivo em um ou outro de seus gestos, minhas cicatrizes em seus pesares e um novo modo de pensar tem na insegurança de cada uma delas a semente que, daquele mesmo solo tão árduo, fez-se flor em mim. Há nesse passado um medo oculto a mascarar-se no automatismo da rotina. Às vezes, revejo aquela resignação estagnada, sem gosto nem cheiro, quase sem vida. Há uma dor que de funda não sabemos o que ela é, nem por que machuca tanto.

N’outras tantas, aos milhares, contemplo quem lutei para deixar de ser. Vejo condutas superadas e rememoro a dor que vivi para desorganizar a teia de ideias que se entrelaçavam no meu cérebro, no meu peito, nas decisões, nos conceitos e por tudo à minha volta; um tecido que se fiava sob uma receita pronta, enquanto eu só seguia o traçado que aprendi, sem pensar, sem refletir, sem saber que cada nova linha engrossava a jaula ao meu redor e me mantinha cada vez mais presa fora de mim. Em encontros como este a memória do caminho percorrido tem um cheiro mais latente do que as recordações da mulher que fui. Já ouvi dizerem que a ignorância é uma bênção, mas eu a considero o segundo pior nos abismos dos vivos, porque mata por dentro e nos amarra os pés, sem que possamos distingui-los como uma força que nos pode tirar dali. Não há, porém, nada mais escuro do que um processo de mudança; reconhecer a brutalidade da nossa vida e abrir as portas do peito à dor de modificar todo o traçado e tudo o mais que aprendemos até então. Cada ponto e cada nó deve ser desfeito e depois refeito de modo que a linha nos seja aconchego e calor; não mais algemas.

Em mulheres que se mantém próximas pela harmonia de nossas cadências eu vislumbro muito do que sou, num equilíbrio geral de ideias, num consenso mais ou menos próximo de posturas e opiniões. Mas em nossas diferenças vejo ainda pedaços de tecido não desfeitos e linhas soltas por fiar. Algumas já trocaram toda a cor mas não avançam no desalinho, outras já soltaram quase tudo o que havia e têm diante de si o desafio de reaprender consigo mesma o melhor método de fiá-las outra vez. E há as que avançam passo a passo, num gesto que segue adiante conforme um novo nó se desfaz. Como eu.

No entretanto, é por ver em tão poucas quem quero ser que às vezes me canso, sinto-me exausta, desabo à calçada querendo que o mundo me diga quando essa corrida de linhas e agulhas vai enfim terminar. Tenho sede, tenho ganas de fazer outras coisas da vida, quero andar segura por aí e trilhar logo meus passos por um caminho livre dos maus hábitos que me fazem retroceder ou me ferem de novo. Tenho uma cortina inteira que costuro para se abrir, mas que se fecha à claridade em muitas horas do dia.

E quando o cansaço parece insuperável uma companheira preenche o meu copo com cerveja gelada, meu peito com sorriso quente, as angústias e inquietações com a sombra de uma resposta. Nesse momento a epifania me desfaz mais um nó e põe-me pronta a fiar mais uma parte do caminho: nesse tear a gente se costura umas às outras também. Uma jaula que abre um furo pela primeira vez é ponto de luz e de ar puro, livre de nossos fardos, trazendo os ventos de um outro mundo. Com mãos em soma de forças é possível rasgá-lo mais e mais, ampliando as rupturas até onde for possível, e até que as cortinas se abram para todas.

 

Carolina Goetten