Texto de em 24 de agosto de 2015 . 3 Comentários.

Quero alguém para viajar em minhas mãos assim como viaja essa caneta sobre o caderno. Assim como ela corre, tortuosa, garranchuda, por caminhos incertos e destinos desconhecidos. Quero meu amor caneta em mãos suadas, porém não trêmulas, jamais. Confiantes a cada palavra, escrita com a mesma urgência com que se espalha a paixão pelos capilares do corpo; coração frenético, frio no bucho, ereção. Quero um amor caneta para criar as coisas mais bonitas do mundo e me apaixonar a cada dia ao reparar no que se tornou. Quero um amor caneta capaz de me traduzir, enxergar o que há de melhor e pior. Que se ajeite entre meus dedos, mas seja capaz de escrever sem mim. Pode falhar que eu a aqueço, a forço sobre o papel até que encontre de novo as desalinhadas linhas do caderno. Um amor caneta que escreva mistérios e bobagens; que às vezes me leve e às vezes, leve, se deixe levar. Que comece respeitando parágrafos, pontos, pausas, linhas; mas aos poucos se torne uma coisa só, uma massa de letras, um risco, um rabisco. Quero um amor pra ser meu rabisco; e que, ao fim, eu não saiba onde começa e onde termina, e se ele está sobre o papel ou sobre mim.

por Murilo.

Ilustra: Caroline Rehbein

  • Andreia Porto

    Bonito.
    Me lembrou um texto da minha irmã. Se quiser te mando.

  • Izabella Bellenda

    Que lindo. Quando te olhava escrevendo do meu lado, te via escrevendo suave. 🙂

  • Mariana Porto

    ❤!