Gengis Khan em Pequim 9 108

O mercadinho era tradicional, perto da Linha Verde, instalado em um ponto alto a cinco quadras do shopping Cidade. O setor de hortifruti era nota 10. Padaria 9, açougue 8, preços em geral 7. Vinte funcionários, três caixas e três máquinas de cartão, ninguém desassistido.

Os bancos de praça da região eram ocupados nos dias de sol por mendigos tradicionais da vizinhança. Eles tomavam mais sol que o povo dos escritórios, e tinham marcas de expressão visíveis, bronzeadas, queimadas. Fechavam a testa para proteger os olhos, e sofriam ainda mais de outros processos embrutecedores. Dormiam tortos, à tarde, em público. Tomavam pouca água. Não cortavam os cabelos, comiam mal, tinham dentes sujos e saúde frágil. Suas roupas não lhes cabiam, porque não exigiam muito das doações que recebiam. Um sofria de problema de coração, outro de fígado, outro de varizes.

O final de semana havia corrido sem sobressaltos para André, que havia dedicado-se a lavar a própria moto e auxiliar a mulher, Janete, a limpar a casa. Ariou quatro panelas no começo da manhã de sábado enquanto esperava a água para café ferver, em fogo alto. Duas esponjas Bombril de marca genérica, mais barata. Lavou roupas: primeiro as claras, de molho desde a noite anterior, embebidas em alvejante e sabão em pó. Precisou esfregar meias e cuecas. Aos poucos trocou cada peça seca por alguma outra mais recentemente lavada, enquanto acompanhava o movimento do sol ao longo das horas. Também consertou o guarda-roupa do filho Danilo. Uma porta estava quebrada e a tábua de trás, a que segurava toda a estrutura, precisava e recebeu mais vinte pregos, para aguentar mais um semestre. No final do ano seu décimo-terceiro deveria permitir que trocasse alguns móveis. Massageou os pés da mulher depois do banho conjunto que tomaram no sábado à noite. Bebeu dez latas de cerveja entre as oito da noite de sexta e as onze da noite de domingo, mas não sentiu nenhum prazer especial em fazê-lo.

Já começou a segunda-feira querendo amassar a cara de Willy, colega de trabalho. Envelheceram mal e viam-se frequentemente juntos, embora nunca tenham sido amigos.

André filmou o cara roubando carga na sexta, com o celular, escondido. Conseguiu evidência que justificasse para os chefes sua posição de vantagem nessa batalha velada contra o outro, em uma operação serpenteante pelos corredores. Aproveitou a vantagem de observar de cima das grandes prateleiras de estoque, meio olhando para as caixas que tinha que olhar, meio flagrando o inimigo.

O método de Willy era trocar caixas de posição aos poucos, para deixá-las cada vez mais perto do grande portão duplo de ferro;  a saída. No fim do dia conseguiu retirar seis delas sem contratempos, e guardá-las discretamente numa Kombi escura que havia vindo buscá-lo ineditamente naquela oportunidade.

As pessoas inteligentes sabem de muita coisa, mas o mundo é dos espertos. Os primeiros costumam trabalhar para os outros, de tanto que entendem dos próprios interesses, e já que a introspecção não é bem aceita em ambientes agitados. Já os últimos costumeiramente não entendem nada sobre nada. Não precisam de grande intelecto para fazer mais, porque aplicam melhor suas forças limitadas. Fazem mais por si próprios ou, mais raro, pelos outros. Eles estão nos locais corretos enquanto dissimulam, convivem, antecipam, preveem e criam as horas certas para seus atos – o que é uma qualidade mágica. Como o exército mongol, que passou três anos cercando Pequim de cima de seus cavalinhos antes de invadir e dominar a cidade.

Tambores acelerados de guerra. Antes de ajudar a despedir Willy, André queria humilhá-lo. Achava que às vezes parecia bom fazer mal. Era por causa de pessoas daquele jeito que a equipe levava mijada atrás de mijada. Não queria defender a empresa, mas lutava pela própria dignidade. Pelo seu legado. Não gostava do jeito solar e histriônico do homem. Apesar dos anos de convivência, não haviam passado por episódios significativos ou edificantes juntos.

O dono do negócio chegou às 6h40 e começou a discursar para motivar a equipe, que o aguardava. Seu consumo de duas carteiras e meia de cigarros por dia tornava sua voz oscilante, áspera, suja. Limpava a garganta enquanto falava. Ninguém prestou atenção. Disse que o café da manhã estava especial. Tinha até pão de queijo e sonho. Ele sempre dizia que o café da manhã seria especial, mas os pássaros daquela gaiola dourada nunca entraram em comoção coletiva por causa desse discurso. O patrão falou de metas, das férias chegando para quatro funcionários, e perguntou se alguém tinha algum comentário para iniciar bem o novo período. Em geral era nessa hora que Maria, uma repositora evangélica, desejava boa semana a todos e ilustrava o comentário com passagens da Bíblia. Até o chefe, ateu, achava simpático. Dessa vez Maria não tinha nada para dizer. Willy pediu a palavra e engrenou duas piadas: uma de futebol e outra sobre acordar cedo. Ele parecia animado.

André sorriu para dentro e também levantou a mão direita, com os dedos bem espaçados, para energizar o braço inteiro. Sentiu força. A dor de pescoço com que estava sofrendo tinha ido embora. Esperou sua vez de falar com os olhos fechados e voltados para cima, em estado meditativo. Para ele não bastava matar os homens, estuprar as mulheres, roubar as aldeias e atear fogo aos povoados. Também era fundamental ver medo nos olhos do inimigo.

 

Marco Antonio Santos

 

A série continua com:

Pablo23h59Cidade do alémYorkshireBatata fritaJogos vorazes, Primavera

 

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maculada 0 199

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”