Gengis Khan em Pequim 9 153

O mercadinho era tradicional, perto da Linha Verde, instalado em um ponto alto a cinco quadras do shopping Cidade. O setor de hortifruti era nota 10. Padaria 9, açougue 8, preços em geral 7. Vinte funcionários, três caixas e três máquinas de cartão, ninguém desassistido.

Os bancos de praça da região eram ocupados nos dias de sol por mendigos tradicionais da vizinhança. Eles tomavam mais sol que o povo dos escritórios, e tinham marcas de expressão visíveis, bronzeadas, queimadas. Fechavam a testa para proteger os olhos, e sofriam ainda mais de outros processos embrutecedores. Dormiam tortos, à tarde, em público. Tomavam pouca água. Não cortavam os cabelos, comiam mal, tinham dentes sujos e saúde frágil. Suas roupas não lhes cabiam, porque não exigiam muito das doações que recebiam. Um sofria de problema de coração, outro de fígado, outro de varizes.

O final de semana havia corrido sem sobressaltos para André, que havia dedicado-se a lavar a própria moto e auxiliar a mulher, Janete, a limpar a casa. Ariou quatro panelas no começo da manhã de sábado enquanto esperava a água para café ferver, em fogo alto. Duas esponjas Bombril de marca genérica, mais barata. Lavou roupas: primeiro as claras, de molho desde a noite anterior, embebidas em alvejante e sabão em pó. Precisou esfregar meias e cuecas. Aos poucos trocou cada peça seca por alguma outra mais recentemente lavada, enquanto acompanhava o movimento do sol ao longo das horas. Também consertou o guarda-roupa do filho Danilo. Uma porta estava quebrada e a tábua de trás, a que segurava toda a estrutura, precisava e recebeu mais vinte pregos, para aguentar mais um semestre. No final do ano seu décimo-terceiro deveria permitir que trocasse alguns móveis. Massageou os pés da mulher depois do banho conjunto que tomaram no sábado à noite. Bebeu dez latas de cerveja entre as oito da noite de sexta e as onze da noite de domingo, mas não sentiu nenhum prazer especial em fazê-lo.

Já começou a segunda-feira querendo amassar a cara de Willy, colega de trabalho. Envelheceram mal e viam-se frequentemente juntos, embora nunca tenham sido amigos.

André filmou o cara roubando carga na sexta, com o celular, escondido. Conseguiu evidência que justificasse para os chefes sua posição de vantagem nessa batalha velada contra o outro, em uma operação serpenteante pelos corredores. Aproveitou a vantagem de observar de cima das grandes prateleiras de estoque, meio olhando para as caixas que tinha que olhar, meio flagrando o inimigo.

O método de Willy era trocar caixas de posição aos poucos, para deixá-las cada vez mais perto do grande portão duplo de ferro;  a saída. No fim do dia conseguiu retirar seis delas sem contratempos, e guardá-las discretamente numa Kombi escura que havia vindo buscá-lo ineditamente naquela oportunidade.

As pessoas inteligentes sabem de muita coisa, mas o mundo é dos espertos. Os primeiros costumam trabalhar para os outros, de tanto que entendem dos próprios interesses, e já que a introspecção não é bem aceita em ambientes agitados. Já os últimos costumeiramente não entendem nada sobre nada. Não precisam de grande intelecto para fazer mais, porque aplicam melhor suas forças limitadas. Fazem mais por si próprios ou, mais raro, pelos outros. Eles estão nos locais corretos enquanto dissimulam, convivem, antecipam, preveem e criam as horas certas para seus atos – o que é uma qualidade mágica. Como o exército mongol, que passou três anos cercando Pequim de cima de seus cavalinhos antes de invadir e dominar a cidade.

Tambores acelerados de guerra. Antes de ajudar a despedir Willy, André queria humilhá-lo. Achava que às vezes parecia bom fazer mal. Era por causa de pessoas daquele jeito que a equipe levava mijada atrás de mijada. Não queria defender a empresa, mas lutava pela própria dignidade. Pelo seu legado. Não gostava do jeito solar e histriônico do homem. Apesar dos anos de convivência, não haviam passado por episódios significativos ou edificantes juntos.

O dono do negócio chegou às 6h40 e começou a discursar para motivar a equipe, que o aguardava. Seu consumo de duas carteiras e meia de cigarros por dia tornava sua voz oscilante, áspera, suja. Limpava a garganta enquanto falava. Ninguém prestou atenção. Disse que o café da manhã estava especial. Tinha até pão de queijo e sonho. Ele sempre dizia que o café da manhã seria especial, mas os pássaros daquela gaiola dourada nunca entraram em comoção coletiva por causa desse discurso. O patrão falou de metas, das férias chegando para quatro funcionários, e perguntou se alguém tinha algum comentário para iniciar bem o novo período. Em geral era nessa hora que Maria, uma repositora evangélica, desejava boa semana a todos e ilustrava o comentário com passagens da Bíblia. Até o chefe, ateu, achava simpático. Dessa vez Maria não tinha nada para dizer. Willy pediu a palavra e engrenou duas piadas: uma de futebol e outra sobre acordar cedo. Ele parecia animado.

André sorriu para dentro e também levantou a mão direita, com os dedos bem espaçados, para energizar o braço inteiro. Sentiu força. A dor de pescoço com que estava sofrendo tinha ido embora. Esperou sua vez de falar com os olhos fechados e voltados para cima, em estado meditativo. Para ele não bastava matar os homens, estuprar as mulheres, roubar as aldeias e atear fogo aos povoados. Também era fundamental ver medo nos olhos do inimigo.

 

Marco Antonio Santos

 

A série continua com:

Pablo23h59Cidade do alémYorkshireBatata fritaJogos vorazes, Primavera

 

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Dai-me Amor 0 176

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 321

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.