Mais um poema cometido 0 48

há quem arrisque
um verso ou outro
exerça um lirismo
versão beta

e já se proclame poeta

ai, moléstia inveterada!
quem leu sobre leis
mas é cego, iletrado
em leitura do mundo
já diz: sou doutor
pleno e graduado
do saber absoluto
(e não me conteste!)

presunçosa alcunha
se precipitada;
cada passo
não passa de um teste.

poeta foi Neruda,
foi Drummond
Cecília
que se entregaram
à trova
com a força da vida

eu, agora, sei apenas
de sabor e sentimento
e choro a cântaros
e molho os versos
e tento e tento e tento;

a letra na alma é alento.

faço da dor três palavras
do riso uma página
dos olhos, rima
da baderna um soneto
de amor

da regra
faço verso libertário
e transgressor

na poesia
sou caloura
e a graduação
vai longe ainda

poeta ainda não sou;

eu só cometo poemas
tal qual orbita um cometa
corpo menor do sistema solar
pequeno e ínfimo
na glória de um universo
já veterano em ser – este, sim -,
o mais magnânimo dos trovadores.

cometido pela Carol

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Sua 0 97

como fosse poema,
você me talha

me transforma
em versos
belos pra você

feito rima
sigo torta

nesse mundo
que tem tudo,
belez’alguma
é pra mim

ao redor,
só a dor
do que fui
até o fim.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Poemanarco 0 68

quis poupar palavra
quando meia poesia
já sozinha caminhava.
– Como ousa? – ruge o verso –
pôr-me em síntese, assim?
fazer tão pouquinho de mim
que transcendo o dicionário,
que falo em francês e latim?

larga dessa, poetisa.
Deixa o verso se gastar
que ele não é teu pra fazeres economias:
trova sopra ventania,
rima voa em boa brisa.
Solta a palavra que ele te pede
mata nele toda sede
até que o novo do novo
um dia, quem sabe,
corrompa o decreto
de encaixar esse ímpeto
tão lascivo e tão sem teto
na rotina de um soneto.

Carolina Goetten