Pablo 4 86

Esses dias a Tânia disse que se não acho meus vizinhos chatos, o vizinho chato sou eu.

Devia ser sacanagem dela, porque a gente estava brigando, mas guardei a bronca. Taninha acha que entro demais na bobajada do meu prédio. Mas não tem escapatória: sou conselheiro do Rubinho, nosso síndico.

Além disso, aguardo paciente pelo dia de nascimento de alguém que me curve ou altere a vontade. Peito aberto, braços para trás das costas. Inspiro ; exalo.

Sou candidato à próxima gestão. A eleição é daqui duas semanas, só concorro contra uma pessoa e minha campanha é melhor.

Eu versus Simone. Quem diria?

Ela é mulher do meu amigo Nelson, parceiro de truco, de bebedeira e de torcida pelo Paraná Clube.

Ele é um anjo. Sou dos que fala ao motorista somente o indispensável, então não vou me estender nessa seara. Ela, porém, e também para resumir, é uma idiota – para minha vantagem.

Pode até ser bobagem, mas acho mesmo que tudo está conectado de formas misteriosas. Tudo, de bom e de ruim. É estranho admitir, já que tenho preguiça de explicar as coisas direito. E tenho mais o que fazer que gastar tempo com crendices e com gente burra. Até capto bem os sinais do universo, apesar dos ruídos. Ninguém se interessa de verdade pelos problemas dos outros, mas ainda assim vou contar duas coisinhas ou três, sobretudo para aliviar a cabeça.

O primeiro caso é que meu sobrinho veio em casa encher minha paciência esses dias. Normal. Acontece três vezes por semana, quando minha irmã vai malhar e deixa o menino aqui. Semana passada ele trouxe lição de artes para fazer. Era colar recortes de revista e colorir um papel azul, grosso tipo cartolina. Ele sujou tudo, claro, porque é um moleque sem vergonha, não só quando vem.

Minha mesa virou uma zona tão grande que me fez ter saudade das festas de firma, lá atrás, quando eu trabalhava fora. Era sempre um povinho maluco, mas pelo menos depois sempre vinha alguém limpar as coisas por nós na conta da firma. Aí é fácil. Homens e mulheres aptos, todos com preguiça de resolver a própria sujeira. Na minha época de exército não era assim. Ainda bem que me aposentei e estou tranquilo, com tempo para pensar.

O segundo caso aconteceu com minha rival Simone. Ela pediu a palavra na reunião de condôminos da semana passada e começou a se queimar sozinha. Falou uma bobajada sem tamanho, desesperada por alguns votos. Gritou, se exaltou e sem querer me ajudou, porque aí nem preciso falar para o pessoal que ela é maluca e possivelmente perigosa. Eu fico na minha. São eles que me procuram para comentar o tema receosos, de forma que agora sinto que ganharei com vantagem maior que a que tinha previsto antes.

O mais difícil é saber o que a gente quer. Quando sabe, é bom aprimorar o que sabe fazer e aproveitar as potencialidades dos que nos cercam. Meu sobrinho e Simone me deram uma nova arma. Se ela já gritou em público sem nenhuma pauta urgente em voga, imagino o que ela fará quando tiver motivo de verdade para ficar nervosa.

Eu já disse que tudo está ligado, e digo agora que quem presta atenção nisso está sempre em vantagem. Há de ser pelas leis secretas que determinam o funcionamento de tudo, mas o fato é que situações desagradáveis podem sim gerar outras positivas. Por exemplo, imagine os carros-bomba que os cartéis de droga mandavam explodir nos anos 80 e 90. Acho que explodiram uns 70, somente em 1991, e somente em Medellín. Mortos para um lado, feridos para o outro. Mas este pesadelo acabou. Hoje em dia eles até se dispõem a organizar uma maratona internacional de rua na mesma cidade. É um grande evento, com gente do mundo todo. A violência do passado deve ter alimentado essa mentalidade menos beligerante. Os vendedores de droga de lá tomaram para si métodos menos brutais, para evitar publicidade negativa. E aí dá até para gastar tempo e orçamento com corridas de rua, já que o SUS deles está menos sobrecarregado com as consequências do terrorismo e da guerrilha urbana com a qual sofriam. Os carros-bomba irritaram muita gente, então o pessoal se mobilizou para limpar o espaço e sua imagem. Há disciplinas que explicam como estão tirando o Departamento de Antioquia dessa situação, como a economia e a história, mas não consigo entendê-las direito. Vai ficar para a próxima vida. Talvez nem para a próxima, porque a realidade costuma ser mais intrincada do que aparenta. Pelo menos foi isso que apreendi de um livro que terminei de ler sobre a Colômbia do século XIX.

Sabe aqueles filmes em que os sequestradores mandam cartas anônimas para a família da vítima? Aquelas cartas com letras recortadas de vários tipos de revista, formando mensagens ameaçadoras? Então. Juntei a bagunça do meu sobrinho com o desequilíbrio da minha adversária e estou concluindo uma mensagem meio brava, meio engraçada para ela. Só tem letras recortadas da Caras e de uma revista de design que vi na banca. Tipografia é mesmo algo fascinante. Vou concluir o trabalho e entregar na surdina debaixo da porta dela, e já estou me divertindo antecipadamente com a próxima reunião de condomínio, amanhã à noite.

Em completa paz, vamos à disputa. Que a vitória seja limpa e justa.

Ilustração: Carol Rehbein
Texto: Marco Antonio Santos

 

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Dai-me Amor 0 113

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 221

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.