Pablo 4 1

Esses dias a Tânia disse que se não acho meus vizinhos chatos, o vizinho chato sou eu.

Devia ser sacanagem dela, porque a gente estava brigando, mas guardei a bronca. Taninha acha que entro demais na bobajada do meu prédio. Mas não tem escapatória: sou conselheiro do Rubinho, nosso síndico.

Além disso, aguardo paciente pelo dia de nascimento de alguém que me curve ou altere a vontade. Peito aberto, braços para trás das costas. Inspiro ; exalo.

Sou candidato à próxima gestão. A eleição é daqui duas semanas, só concorro contra uma pessoa e minha campanha é melhor.

Eu versus Simone. Quem diria?

Ela é mulher do meu amigo Nelson, parceiro de truco, de bebedeira e de torcida pelo Paraná Clube.

Ele é um anjo. Sou dos que fala ao motorista somente o indispensável, então não vou me estender nessa seara. Ela, porém, e também para resumir, é uma idiota – para minha vantagem.

Pode até ser bobagem, mas acho mesmo que tudo está conectado de formas misteriosas. Tudo, de bom e de ruim. É estranho admitir, já que tenho preguiça de explicar as coisas direito. E tenho mais o que fazer que gastar tempo com crendices e com gente burra. Até capto bem os sinais do universo, apesar dos ruídos. Ninguém se interessa de verdade pelos problemas dos outros, mas ainda assim vou contar duas coisinhas ou três, sobretudo para aliviar a cabeça.

O primeiro caso é que meu sobrinho veio em casa encher minha paciência esses dias. Normal. Acontece três vezes por semana, quando minha irmã vai malhar e deixa o menino aqui. Semana passada ele trouxe lição de artes para fazer. Era colar recortes de revista e colorir um papel azul, grosso tipo cartolina. Ele sujou tudo, claro, porque é um moleque sem vergonha, não só quando vem.

Minha mesa virou uma zona tão grande que me fez ter saudade das festas de firma, lá atrás, quando eu trabalhava fora. Era sempre um povinho maluco, mas pelo menos depois sempre vinha alguém limpar as coisas por nós na conta da firma. Aí é fácil. Homens e mulheres aptos, todos com preguiça de resolver a própria sujeira. Na minha época de exército não era assim. Ainda bem que me aposentei e estou tranquilo, com tempo para pensar.

O segundo caso aconteceu com minha rival Simone. Ela pediu a palavra na reunião de condôminos da semana passada e começou a se queimar sozinha. Falou uma bobajada sem tamanho, desesperada por alguns votos. Gritou, se exaltou e sem querer me ajudou, porque aí nem preciso falar para o pessoal que ela é maluca e possivelmente perigosa. Eu fico na minha. São eles que me procuram para comentar o tema receosos, de forma que agora sinto que ganharei com vantagem maior que a que tinha previsto antes.

O mais difícil é saber o que a gente quer. Quando sabe, é bom aprimorar o que sabe fazer e aproveitar as potencialidades dos que nos cercam. Meu sobrinho e Simone me deram uma nova arma. Se ela já gritou em público sem nenhuma pauta urgente em voga, imagino o que ela fará quando tiver motivo de verdade para ficar nervosa.

Eu já disse que tudo está ligado, e digo agora que quem presta atenção nisso está sempre em vantagem. Há de ser pelas leis secretas que determinam o funcionamento de tudo, mas o fato é que situações desagradáveis podem sim gerar outras positivas. Por exemplo, imagine os carros-bomba que os cartéis de droga mandavam explodir nos anos 80 e 90. Acho que explodiram uns 70, somente em 1991, e somente em Medellín. Mortos para um lado, feridos para o outro. Mas este pesadelo acabou. Hoje em dia eles até se dispõem a organizar uma maratona internacional de rua na mesma cidade. É um grande evento, com gente do mundo todo. A violência do passado deve ter alimentado essa mentalidade menos beligerante. Os vendedores de droga de lá tomaram para si métodos menos brutais, para evitar publicidade negativa. E aí dá até para gastar tempo e orçamento com corridas de rua, já que o SUS deles está menos sobrecarregado com as consequências do terrorismo e da guerrilha urbana com a qual sofriam. Os carros-bomba irritaram muita gente, então o pessoal se mobilizou para limpar o espaço e sua imagem. Há disciplinas que explicam como estão tirando o Departamento de Antioquia dessa situação, como a economia e a história, mas não consigo entendê-las direito. Vai ficar para a próxima vida. Talvez nem para a próxima, porque a realidade costuma ser mais intrincada do que aparenta. Pelo menos foi isso que apreendi de um livro que terminei de ler sobre a Colômbia do século XIX.

Sabe aqueles filmes em que os sequestradores mandam cartas anônimas para a família da vítima? Aquelas cartas com letras recortadas de vários tipos de revista, formando mensagens ameaçadoras? Então. Juntei a bagunça do meu sobrinho com o desequilíbrio da minha adversária e estou concluindo uma mensagem meio brava, meio engraçada para ela. Só tem letras recortadas da Caras e de uma revista de design que vi na banca. Tipografia é mesmo algo fascinante. Vou concluir o trabalho e entregar na surdina debaixo da porta dela, e já estou me divertindo antecipadamente com a próxima reunião de condomínio, amanhã à noite.

Em completa paz, vamos à disputa. Que a vitória seja limpa e justa.

Ilustração: Carol Rehbein
Texto: Marco Antonio Santos

 

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a mente enquanto objeto quebradiço 0 14

I

 

a noite aqui fora tá um pouco opressiva, graças ao bafo úmido que levanta do asfalto depois dessas chuvas de verão. passa pouco das oito da noite e eu mando um zap pra Cíntia, ver se ela precisa de algo em casa. “Traz um pão de azeite de oliva pra mim”, ela pede num áudio. quase envio uma mensagem perguntando onde encontrar um negócio tão específico, mas assim que olho pra frente me deparo com um local metido a besta, o típico estabelecimento que venderia pão de azeite de oliva. nunca vi esse prédio. entro, o lugar é descolado, projetado pra ricos moderninhos. uma espécie de galpão abandonado, de pé direito alto e arquitetura estranha, com várias lojas e restaurantes que ficam nas paredes, pelas quais o cliente passeia usando rampas. roupas, massas, eletrônicos, brinquedos artesanais. tipo um shopping pra quem quer se sentir integrado à região mas sem correr riscos.

um conjunto formado por vozes masculinas e femininas, flautas e percussões está distribuida ao longo do térreo e toca uma música em tom menor, bem bonita, lindíssima. é emocionante. choro um pouquinho e sinto uma vontade inexplicável de comprar romãs. peço por romãs, não as encontro, mas de rolê pelo galpão sou abordado por uma senhora, sentada num café afetado. “Psiu. Você quer romãs? Eu sei onde tem”, ela fala, feito gato, e me estica um cartão pessoal com nome que nem leio. “Lá perto de casa as romãzeiras estão carregadíssimas”, mia. sorri.

 

II

 

quando noto, estou descendo de um carro. percurso curto, que rua é essa? a velha me convence a entrar na casa porque precisa avisar qualquer coisa pra filha antes de me mostrar onde acho romãs. ela tem um desenho excêntrico, me deixa confuso, como se um sorrisinho malicioso estivesse grudado pra sempre em um rosto antigo e marcado por muitas mudanças. o cabelo platinado, quase branco. ela começa a falar estranho comigo, “Nossa, você é muito lindinho”, pergunta meu nome, respondo “Paulo. Paulo Braga”. meu nome não é Paulo e meu sobrenome não é Braga e eu não entendo mais o que estou fazendo. a senhora me pede licença e sai do cômodo e nisso a filha entra. igual, mas o cabelo é preto e o rosto é jovem. começa a fazer perguntas inúteis, ela também fala miando. “De onde você é?”, questiona, respondo “Minas”, mas eu não sou de Minas. “Ai, que fofo! Que bom que você vai vir pra cá, passar sotaque pra minha mãe”.

vir pra cá? passar sotaque? do que essa moça tá falando? explico que na verdade sou gaúcho, de Pelotas, e nada muda na dinâmica da conversa. tento me distrair pensando em quando vou finalmente comer as romãs, mas o cômodo tem um ar estranho, um perfume me sufoca e confunde. enquanto a jovem mia bobagens e amenidades, tiro o celular do bolso e jogo no Google o nome da coroa, que copiei do cartão. nome diferente, nunca li nada assim. “Que línguas você fala?”, ela, “Inglês e espanhol”, eu, “Ótimo, mamãe fala muitas outras, já podem viajar bastante”. o clima não tá legal, eu não quero viajar com ninguém, eu fico tenso, o 4G não funciona direito. “Mamãe teve vários homens mas nenhum nunca deu certo. Acho que nenhum estava realmente pronto, sabe? E sempre acabam sumindo, hehe”.

 

III

 

fito a tela. a busca está completa. leio os resultados.

 

travo.

congelo.

 

IV

 

reúno forças e levanto e percebo a velha de volta ao quarto. sorrisinho, vestido e véu vermelho-sangue, quase flutua. penso em correr, mas um miado calmo soa como se viesse por toda parte, formando palavras que mais soam como portas que se fecham.

 

“Aonde é que você pensa que vai? Você fica. Você não vai a lugar nenhum”.

 

 

 

 

 

texto do Rômulo Candal

visual do Marco Antonio

Alvoradas 0 13

desentristecer
é iluminar a alma
como renascer

algo que insiste
que conduz
do triste
ao tecer

é persistir
na felici

No instante em que o sol se depositava feito moeda no dourado do mar, Pérsio estancou seus versos. Sabia que letras teriam força alguma para lhe conduzir para além do esquecimento.

Talhara em si um emaranhado de signos para forjar a própria memória. Diluiu-se em palavras-dispersas e estava só. Era agora um infinito de páginas inacabadas, abrigadas num todo que era nada. Uma luz vista por ninguém.

Mergulhado na escuridão, baixou o olhar até doer. Via ausência em si. Mesmo diante do mais límpido espelho encontraria cumplicidade alguma. Tudo era noite.

Sem seus versos, Pérsio era lágrima que escorre só, que seca com vestígio algum. Feito nunca existido.

Feito esperança, buscou lembranças de luz. Como as registradas por relógios de sol, que ignoram momentos menores. Tinha para si que, para a felicidade, palavra alguma seria necessária. Que é na plenitude do silêncio que as verdades se eternizam em nossas almas e nos conduzem às alvoradas de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi