Texto de em 14 de setembro de 2015 . Nenhum comentário.

Posso transformar emoções, assim livres, em fisionomia para discerni-las? Quando falo sobre estes assuntos de dentro, encontro barreira logo à entrada do mundo de fora. Quem me dera fosse isso mais fácil! A mente navega entre rios tão profundos que talvez um mar more dentro de mim. Deduzo o pensar como algo sem forma nem figura, e estou certa também de que sequer esta convicção é algo substancial de fato. Imprecisa, postulo o que talvez e o que certamente sejam as coisas todas da vida. A consciência é amorfa tal qual a própria água; isso quer dizer que se configura conforme o contexto onde a colocamos, ou a dimensão da nossa fome, ou se o dia vai bem ou vai mal, e é possível também que tudo isso seja uma enorme perda de tempo e eu deva relaxar e dormir um pouco.

Amar me faz delirante. Conservo a prática absurda de preencher a frente nos cadernos e desconsiderar seu verso, como se não prestasse a qualquer uso. Não que o faça propositalmente; trata-se de costume que sustento há muitos anos. Discorro em frases à frente e viro a página para seguir a história no anverso seguinte. Ali é que escrevo, mas sei que o branco deixado para trás também diz. Há versos no verso que grita o silêncio e talvez seja mais palavra que o texto à sua frente. Ao retomar o trabalho de início, a rever o resultado, também leio os segredos jogados para trás em lacunas sem valor. São trechos de um grande vazio, sutil e discreto em meio à algazarra das palavras, fazendo-se oculto embora se mostre evidente a qualquer olhar sensível; um vácuo que não ousa interromper o papel de prestígio conquistado pelas páginas preenchidas. Mas escrevo em todo o caderno, da fala à mudez. Cada qual a seu modo, são partes do que existe aqui dentro. Voz e silêncio. Rio e choro, digo e me calo, e assim deduzo que amo.

Esta tortuosa incompreensão me conduziu a Sartre na prateleira da nova casa. A náusea de meus próprios dias fez do livro minha pele e houve então coisa sólida na incoerência da vida. Do exemplar, já antigo, transpirava um cheiro de mofo e mudança – algo que ficou e que saiu, com a longa data de uma lembrança saturada de odor e memórias, mas que trouxe comigo entre as caixas. Sou, eu toda, peça guardada que se muda. Então o absurdo da vida sou eu, que faço com que o existir aconteça. Se viver não faz sentido a culpa é minha, que existo. Ninguém me mandou estar viva, afinal.

Há sujeira. Vejo o pó incrustado à superfície e nunca deixo de limpar as estantes. Dias depois surge uma fina camada outra vez; está logo pronta a retornar. Se não limpo com alguma freqüência será capaz de tomar a casa. É preciso estar sempre atento ao pó que retorna espontâneo e livrar-se dele vez ou outra, para que não nos faça sucumbir a seu reinado numa muralha de poeira mal-resolvida. Sou assim, atenta aos detalhes, e cuido das coisas que foram feitas com carinho. Só com porta-copos e toalhinhas de algodão me permito jantar sobre a mesa da sala. É parte da mobília que viverá comigo a partir de agora, feita por sábios artesãos – gosto de observá-la enquanto imagino o capricho de quem a talhou entre os dedos. O proprietário disse que comprou aquela mesa há muitos anos e me permito pensar que foi concebida no feudalismo. Enquanto isso meu guarda-roupa das Casas Bahia sequer sobreviveu ao transporte pela escada e a porta despencou pelos degraus num baque irreparável. É frágil por não carregar amor nem zelo nem cuidado, foi feita para estragar logo porque é assim que as coisas funcionam aqui neste comensalismo.

A emoção me agrada, mesmo se estou triste. O importante é sentir algo. Penso que os dias se assemelham àquele monitor hospitalar que se acopla ao paciente entre vales e cumes, dores e júbilos, amores e amargos, indicando que a vitalidade se mantém acesa. Se reto, frio, inerte, sem dor nem prazer, sem alto nem baixo, já não há vida ali. Seria o es-fig-mo-ma-nô-me-tro? Preciso perguntar a Iris. No fundo sei que meus irmãos são sempre a resposta e tudo pergunto a eles. Ontem percebi mais bonito o sorriso dela e ainda mais doce sua sempre alegria. Menina rosa, menina verde, menina índigo blue, carrega nos olhos toda a cor do mundo. Se algum escritor procura a personagem para uma obra-prima sugiro uma história sobre ela, e que, se possível, tornem-na capaz de voar. Uma menina-pássaro de todas as cores. Hoje não quis cantar Caetano comigo; declarou não gostar de Caetano. Nem mesmo ela é perfeita e é nisso que o mundo me encanta.

Se não há significado na vida, percebo então evidências daquilo que chamaram de amor e faz com que as coisas sejam sentidas sob a forma de emoções. Comprovo em Iris esta constatação. Não é a queratina que constitui seu corpo nem são músculos o que sustenta seu coração. É toda amor. O que corre nas veias, produz energia, conecta as articulações e abre seu sorriso são amor numa admirável fortaleza. É isso, talvez, o que importa. A irmã que aprecia músicas de qualidade questionável e as canta num sorriso que não me atrevo a contrariar. O irmão que mostrou ser possível e deliciosa a vida sem carne. O pai que não compreendo e não me compreende também. Ao menos existem irmãos, Sartre, a mesa.

Penso em Sávio e em Clara, grande amiga, que não desistiu frente às calamidades e hoje busca sentir de novo qual gosto têm os dias. O amor deles impregnou-se do pó acumulado ao longo de toda uma vida. Acho que jamais ou poucas vezes arriscaram limpar as superfícies que se sujavam no dia a dia em finas camadas cotidianas; passavam por elas como se nada houvesse ali. Quando muito tempo já havia se passado é que se deram conta da muralha de poeira que passara a reinar em sua vida, e nenhum espanador, conversa ou dose de compreensão deu conta de expurgá-la.

Há dias em que sinto raiva. Reconhecer que se sente raiva e desejar não senti-la a torna mais branda? Faz de mim pessoa menos cruel? A vida passa por aqui sem que eu a compreenda e tenho ganas de sabê-la, tocá-la, entender tudo que é. Mas penso no amor e a raiva logo passa; não há tempo a perder com o que não compreendo porque observo ali na estante uma nova camada de poeira, e antes de seguir com a vida é preciso tirar o pó.

texto por Carolina Goetten

ilustração por Caroline Rehbein