Imunidade 1 242

Odeio esse ônibus. O motorista sempre passa reto pelo meu ponto, apesar de eu apertar o botão pra descer assim que ele sai da parada anterior. Já não sei mais se é só burrice ou má-vontade, mesmo. Retaliação porque eu gritei na primeira vez que ele fez isso. Não grito mais.

O cobrador é desses que preferem bater com a moeda na caixa pra avisar que o motorista já pode arrancar. Detesto o som de metal batendo no metal, vai penetrando nos meus ouvidos e lá pelo terceiro ponto eu já tenho vontade de enfiar moedas no cu e sair gritando, pra ver se passa.

Impressionante como é lento o trajeto dessa linha. Parece que para em todos os postes do caminho. Sempre cheio, também. Puta merda, como eu odeio esse ônibus.

Ontem um cara me encoxou, esses nunca faltam. Mas eu já desenvolvi uma técnica de soco na altura do pinto, que é pra machucar e afastar de uma vez. Funciona assim: eu finjo que vou mexer na minha bolsa pra pegar alguma coisa e faço um movimento bem brusco, de punho fechado. Tem dado certo.

Aí hoje tá chovendo. Todas as janelas tão fechadas, os vidros embaçados, o cheiro horrível. Tem um gordinho aqui que tá com um bafo de quem tá há uns dois ou três dias sem escovar os dentes e, pra ficar pior, ele respira com a boca. O sobrepeso deve foder com a respiração dele. Calor demais aqui dentro e nenhum filho-da-puta é capaz de colaborar com uma janela aberta. Tentei abrir uma vez, levei esporro.

Agora eu quero é que se foda. Peguem gripe suína todos vocês, seus porcos, que eu já tomei vacina.

por Rômulo Candal
fotografia: alberthpalhares via Compfight cc

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hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai

Vida comum parte 1 0 796

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.