De que adiantam sonhos bons? 1 1034

 
As manifestações mais frequentes são parecidas com as de outras doenças mais vulgares, como a gripe e a dengue. Começa com a febre, a dor de cabeça, dor no corpo – especialmente nas batatas-da-perna. Podem também ocorrer vômitos, diarreia e tosse. Nas formas mais graves, a pessoa pode ficar com a pele e os olhos amarelos, o que é tecnicamente chamado de icterícia, e há a necessidade de cuidados especiais como internamento hospitalar. O enfermo pode apresentar também hemorragias, meningite, insuficiência renal, hepática e respiratória. O último e infalível sintoma é a vontade de morrer.

Muitos têm essa vontade atendida. Quarenta porcento, apontam estudos. Jorge, tendo negada essa última aspiração, foi amaldiçoado com uma sobrevida indesejada e sofrida. Seus rins nunca mais foram os mesmos – a fadiga o consome, ele toma um sem número de vitaminas, sente frio até nos climas mais agradáveis e seu hálito de amônia afasta qualquer possível desavisada que se pretenda sua companheira. Logo ele, homem de muitos amores, agora repele pessoas como fossem ímãs de pólos iguais.

Contraiu a leptospirose de um jeito inusitado, mesmo seguindo o conselho “evite entrar em contato com água de enchente” que as redes de televisão veiculam todo ano na época de chuvas. Jorge voltava bêbado de uma festa e caiu de bicicleta num esgoto a céu aberto. Em esgotos moram ratos, ratos mijam, em mijo de rato vive a leptospira, e pronto, pegou. Como achou ser uma gripe, encheu a cara de chá de limão com mel antes de ir a um médico, o que comprometeu sua recuperação. Foi por uma margem de um ou dois dias de atraso no diagnóstico que o funcionamento dos rins foi prejudicado, então no começo ele fazia questão de divulgar a todos que, em caso de sintomas de gripe que viessem acompanhados de fortes dores nas panturrilhas, procurassem um médico. Mas só no começo, porque depois até isso perdeu o sentido na vida de Jorge. A indiferença dele para com o próximo tomou conta.

De uns anos pra cá, passou a se dedicar mais às artes. Por sorte, vem de uma família rica, o que lhe garante uma existência independente de um trabalho formal que lhe tome pelo menos seis horas do dia. Pinta, compõe canções e escreve poesias, mas poesias meio ruins. Jorge desenvolve conceitos interessantes, mas tem sérias dificuldades em traduzi-los em palavras. Dia desses, chegou à conclusão de que o amor é como uma doença psicossomática, pois é algo que não existe em lugar algum que não nas cabeças das pessoas. O poema ficou assim:

 

Que será de mim
sempre sozin
sem amor, enfim.

Se bem que o amor,
é fogo que arde,
é fogo que arte,
mas nem existe de fato.

É psicossomático,
como vivêssemos no ático
de uma única razão.

 

Ruim, muito ruim. Dois amigos mais chegados pensaram em alertar Jorge para o fato de que a sonoridade da palavra “psicossomático” talvez não fosse lá muito adequada em termos poéticos. Mas desistiram, que Jorge já andava deprê demais por aqueles dias, e preferiram massagear o ego do colega. É um pouco triste um escritor desprovido de qualidade textual, mas são esses os dias em que vivemos, não é mesmo? Cada um de nós traz em si um pouco de todas as coisas e um muito de quase nada, nesses tempos de internet e conhecimento on-demand. Mas, voltando – os amigos desistiram de criticar, até porque ele é muito interessante em outras áreas das artes, especialmente nas artes plásticas. Sua obra-prima, “Dois Pianos Queimam Ao Som De Um Terceiro Piano”, uma perturbadora tela em tinta óleo, de 1,5m x 2m, está sendo negociada para uma exposição na Europa. A família torce, na esperança de que isso traga algum alento àquela pobre alma, enquanto Jorge dá a mínima. No fundo, o maior e único plano dele para o futuro é a morte.

Mas o fator mais significativo que se alterou na vida pós-leptospirose de Jorge foi o teor onírico de seu sono. Constantemente o rapaz é visitado por sonhos horríveis, uns delírios surrealistas que já passaram por incestos, chuvas de sangue, ratos gigantes que mijavam nele enquanto gargalhavam, e até dois pianos que queimavam enquanto um outro piano tocava. Esse é o único “sintoma” de que Jorge aprendeu a gostar. Algumas pessoas preferem esquecer pesadelos, mas ele não. Dos pesadelos ele acorda agradecido, por ter fugido da inquietação e do desespero que causam, e principalmente por levarem alguma emoção a uma vida já tão desnecessária. Os sonhos bons, entretanto, estes servem apenas para iludir. Os sonhos tecnicamente agradáveis, aqueles em que Jorge voa, em que joga bola, ou aqueles em que transa e acorda saciado, quando se vão, jogam Jorge de volta à vida de esgoto em que ele vive. Os sonhos bons não têm dó daqueles que sofrem acordados.

 

*

por Rômulo Candal

fotografia de Racheal Watson

publicado originalmente no Jornal RelevO

Previous ArticleNext Article

1 Comment

  1. Rominho, orgulho do padrinho, muito 10.

    A nossa experiência de vida é tão insubstancial quanto o tecido do sonho durante a noite ensina Buda. Medite!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Escala de Baumé 0 1911

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3200

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai