De que adiantam sonhos bons? 1 106

 
As manifestações mais frequentes são parecidas com as de outras doenças mais vulgares, como a gripe e a dengue. Começa com a febre, a dor de cabeça, dor no corpo – especialmente nas batatas-da-perna. Podem também ocorrer vômitos, diarreia e tosse. Nas formas mais graves, a pessoa pode ficar com a pele e os olhos amarelos, o que é tecnicamente chamado de icterícia, e há a necessidade de cuidados especiais como internamento hospitalar. O enfermo pode apresentar também hemorragias, meningite, insuficiência renal, hepática e respiratória. O último e infalível sintoma é a vontade de morrer.

Muitos têm essa vontade atendida. Quarenta porcento, apontam estudos. Jorge, tendo negada essa última aspiração, foi amaldiçoado com uma sobrevida indesejada e sofrida. Seus rins nunca mais foram os mesmos – a fadiga o consome, ele toma um sem número de vitaminas, sente frio até nos climas mais agradáveis e seu hálito de amônia afasta qualquer possível desavisada que se pretenda sua companheira. Logo ele, homem de muitos amores, agora repele pessoas como fossem ímãs de pólos iguais.

Contraiu a leptospirose de um jeito inusitado, mesmo seguindo o conselho “evite entrar em contato com água de enchente” que as redes de televisão veiculam todo ano na época de chuvas. Jorge voltava bêbado de uma festa e caiu de bicicleta num esgoto a céu aberto. Em esgotos moram ratos, ratos mijam, em mijo de rato vive a leptospira, e pronto, pegou. Como achou ser uma gripe, encheu a cara de chá de limão com mel antes de ir a um médico, o que comprometeu sua recuperação. Foi por uma margem de um ou dois dias de atraso no diagnóstico que o funcionamento dos rins foi prejudicado, então no começo ele fazia questão de divulgar a todos que, em caso de sintomas de gripe que viessem acompanhados de fortes dores nas panturrilhas, procurassem um médico. Mas só no começo, porque depois até isso perdeu o sentido na vida de Jorge. A indiferença dele para com o próximo tomou conta.

De uns anos pra cá, passou a se dedicar mais às artes. Por sorte, vem de uma família rica, o que lhe garante uma existência independente de um trabalho formal que lhe tome pelo menos seis horas do dia. Pinta, compõe canções e escreve poesias, mas poesias meio ruins. Jorge desenvolve conceitos interessantes, mas tem sérias dificuldades em traduzi-los em palavras. Dia desses, chegou à conclusão de que o amor é como uma doença psicossomática, pois é algo que não existe em lugar algum que não nas cabeças das pessoas. O poema ficou assim:

 

Que será de mim
sempre sozin
sem amor, enfim.

Se bem que o amor,
é fogo que arde,
é fogo que arte,
mas nem existe de fato.

É psicossomático,
como vivêssemos no ático
de uma única razão.

 

Ruim, muito ruim. Dois amigos mais chegados pensaram em alertar Jorge para o fato de que a sonoridade da palavra “psicossomático” talvez não fosse lá muito adequada em termos poéticos. Mas desistiram, que Jorge já andava deprê demais por aqueles dias, e preferiram massagear o ego do colega. É um pouco triste um escritor desprovido de qualidade textual, mas são esses os dias em que vivemos, não é mesmo? Cada um de nós traz em si um pouco de todas as coisas e um muito de quase nada, nesses tempos de internet e conhecimento on-demand. Mas, voltando – os amigos desistiram de criticar, até porque ele é muito interessante em outras áreas das artes, especialmente nas artes plásticas. Sua obra-prima, “Dois Pianos Queimam Ao Som De Um Terceiro Piano”, uma perturbadora tela em tinta óleo, de 1,5m x 2m, está sendo negociada para uma exposição na Europa. A família torce, na esperança de que isso traga algum alento àquela pobre alma, enquanto Jorge dá a mínima. No fundo, o maior e único plano dele para o futuro é a morte.

Mas o fator mais significativo que se alterou na vida pós-leptospirose de Jorge foi o teor onírico de seu sono. Constantemente o rapaz é visitado por sonhos horríveis, uns delírios surrealistas que já passaram por incestos, chuvas de sangue, ratos gigantes que mijavam nele enquanto gargalhavam, e até dois pianos que queimavam enquanto um outro piano tocava. Esse é o único “sintoma” de que Jorge aprendeu a gostar. Algumas pessoas preferem esquecer pesadelos, mas ele não. Dos pesadelos ele acorda agradecido, por ter fugido da inquietação e do desespero que causam, e principalmente por levarem alguma emoção a uma vida já tão desnecessária. Os sonhos bons, entretanto, estes servem apenas para iludir. Os sonhos tecnicamente agradáveis, aqueles em que Jorge voa, em que joga bola, ou aqueles em que transa e acorda saciado, quando se vão, jogam Jorge de volta à vida de esgoto em que ele vive. Os sonhos bons não têm dó daqueles que sofrem acordados.

 

*

por Rômulo Candal

fotografia de Racheal Watson

publicado originalmente no Jornal RelevO

Previous ArticleNext Article

1 Comment

  1. Rominho, orgulho do padrinho, muito 10.

    A nossa experiência de vida é tão insubstancial quanto o tecido do sonho durante a noite ensina Buda. Medite!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Geração Alpha 0 118

O comboio chega à estação. O homem a segurar a mão da sua filhinha, 3 ou 4 anos, para embarcarem.

Eis que a porta do vagão não abre sozinha. Não é automática como as portas do Metro, mas ele não sabe; é turista. Deve estar avariada, ele pensa, emperrou. Resolve forçar a porta. Usa toda a sua força mas não consegue. O comboio prestes a partir.

Na altura dos olhos da filha está o botão. Ela mete ali o dedinho e – tchanam! – a porta se abre.

O pai, misto de constrangimento e orgulho, solta um sorriso bobo. Leva a filha para dentro pela mão. Próxima paragem: Belém.

 

Murilo

 

Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.