Napoleão 2 77

Adriana reencontrou Benedito, pelo Facebook. Procurou através de conhecidos em comum e, pelo teor de alguma postagem, deduziu onde ele trabalhava. Montou guarda em frente à oficina mecânica por quatro dias seguidos, até confirmar sua suspeita. Reconheceu-o imediatamente, enquanto sua respiração acelerava, fora de controle.

Pensou em esfaqueá-lo ali mesmo, na hora, mas não teve coragem. Tempo não era problema. Ele parecia despreocupado. Talvez vivesse assim, largado, como ela sempre imaginou.

Ele de moto. Ela seguiu-o, de carro, até um boteco da área. Vidros fechados, luzes apagadas, veículo desligado. Atendeu um telefonema da mãe e tranquilizou-a. Passaria a noite fora, mas estava tudo bem. Griteiro. Sinuca. Brigas. Bêbados. Guardas de moto.

Seu suprimento de comida de loja de conveniência enchia uma sacola, no banco do passageiro. As horas são amigas de quem sabe o que faz. Esperou pela saída do homem. Alegrou-se em constatar que ele era agora um velho, cada vez mais manco da perna esquerda. Debaixo daquela luz e daquele poste ele não parecia mais ameaçador, e nem mais o gigante das ideias antigas. Pouco poderia fazer para se defender de pagar o que devia. Ele ficou lá quando o bar fechou. Até deixou a moto na rua. Talvez morasse ali, nos fundos.

Pareceu apropriado. Bebia demais no passado. Devia continuar do mesmo jeito. Enchia a cara e mexia com quem estava quieto.

Inclinou o banco do motorista para trás e acomodou-se como pôde. Dormiu mal até a manhã seguinte. Seis e meia. A rua ainda vazia. Vento e garoa. Pensou que precisava passar em alguma farmácia na hora de ir embora, porque seu nariz estava escorrendo. As mangas de sua blusa azul sujas, de assoar. Já aproveitaria para comprar também shampoo e uma escova de dentes nova, para deixar no trabalho. Mas antes havia um problema para resolver. Ensaiou o início do diálogo. E aí, palhaço. Lembra de mim?

Torcia para que lembrasse, mas não se importava muito. Lembrou de outras pessoas frouxas que conheceu, além daquele morto-vivo que ainda não tinha saído da toca. Anotou os compromissos que tinha para concluir antes de ser presa, caso a polícia conseguisse pegá-la.

 

Marco Antonio Santos

Parte 3 de Histórias da fronteira

1: Gengis Khan em Pequim

2: Pablo, que sua morte seja uma semente de paz

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra