Texto de em 30 de novembro de 2015 . 2 Comentários.

Adriana reencontrou Benedito, pelo Facebook. Procurou através de conhecidos em comum e, pelo teor de alguma postagem, deduziu onde ele trabalhava. Montou guarda em frente à oficina mecânica por quatro dias seguidos, até confirmar sua suspeita. Reconheceu-o imediatamente, enquanto sua respiração acelerava, fora de controle.

Pensou em esfaqueá-lo ali mesmo, na hora, mas não teve coragem. Tempo não era problema. Ele parecia despreocupado. Talvez vivesse assim, largado, como ela sempre imaginou.

Ele de moto. Ela seguiu-o, de carro, até um boteco da área. Vidros fechados, luzes apagadas, veículo desligado. Atendeu um telefonema da mãe e tranquilizou-a. Passaria a noite fora, mas estava tudo bem. Griteiro. Sinuca. Brigas. Bêbados. Guardas de moto.

Seu suprimento de comida de loja de conveniência enchia uma sacola, no banco do passageiro. As horas são amigas de quem sabe o que faz. Esperou pela saída do homem. Alegrou-se em constatar que ele era agora um velho, cada vez mais manco da perna esquerda. Debaixo daquela luz e daquele poste ele não parecia mais ameaçador, e nem mais o gigante das ideias antigas. Pouco poderia fazer para se defender de pagar o que devia. Ele ficou lá quando o bar fechou. Até deixou a moto na rua. Talvez morasse ali, nos fundos.

Pareceu apropriado. Bebia demais no passado. Devia continuar do mesmo jeito. Enchia a cara e mexia com quem estava quieto.

Inclinou o banco do motorista para trás e acomodou-se como pôde. Dormiu mal até a manhã seguinte. Seis e meia. A rua ainda vazia. Vento e garoa. Pensou que precisava passar em alguma farmácia na hora de ir embora, porque seu nariz estava escorrendo. As mangas de sua blusa azul sujas, de assoar. Já aproveitaria para comprar também shampoo e uma escova de dentes nova, para deixar no trabalho. Mas antes havia um problema para resolver. Ensaiou o início do diálogo. E aí, palhaço. Lembra de mim?

Torcia para que lembrasse, mas não se importava muito. Lembrou de outras pessoas frouxas que conheceu, além daquele morto-vivo que ainda não tinha saído da toca. Anotou os compromissos que tinha para concluir antes de ser presa, caso a polícia conseguisse pegá-la.

 

Marco Antonio Santos

Parte 3 de Histórias da fronteira

1: Gengis Khan em Pequim

2: Pablo, que sua morte seja uma semente de paz