O mundo é um grande útero 0 62

Fui me encontrar com a garota que estava fazendo um curta sobre bebês saindo da vagina. O curta ia se chamar A origem do mundo, por causa do quadro do Courbet. Uma buceta peluda aberta direto na cara do observador, apreciador, público, crítico; uma buceta replicada de modo obssessivo até que Zuckerberg impedisse e bloqueasse os usuários. Mas ainda não havia por ali Zuckerberg nem a sua máquina alucinante replicadora de imagens.

Cheguei umas cinco da tarde no bar; abria cedo, para os que gostavam de beber desde cedo. Era um bar ruim excelente. Com quatro mesas de sinuca, um balcão enorme, e mesinhas de metro quadrado espalhadas no espaço, separadas somente por uns pilotis que impediam a visão entre algumas mesas. Na fila do banheiro todo mundo acabava se encontrando. Mas ainda era cedo.

O casal dono bar parecia não ter dormido bem. Ela andava feito um zumbi entre as mesas, executando ações programadas. Servir as bebidas e os aperitivos e esvaziar os cinzeiros cheios, garantindo que a conversa continuasse fluindo. Enquanto o velho ficava atrás do caixa com meio farol de olhos abertos, ouvindo parcamente os pedidos de passar a régua ou pegar mais bebida e fichas de sinuca e anotava tudo com aquela letra de quem já havia trabalhado em escritório de contabilidade.

Talvez os dois tenham ido longe na noite anterior; estavam com uma ressaca que ia se curando à medida que a noite avançava. Aquele tipo de temperamento dos legítimos notívagos que ganham energia com o crescer das sombras e vão ficando mais acesos, mais divertidos e abertos à comunicação – com ou sem cigarro. Eles tinham uma boa conexão e realizaram o sonho de abrir um bar legal que fizesse a diferença. E fizeram isso por um ideal e não com o objetivo de lucrar, como era o caso dos novos bares que, por mais que simulassem uma atmosfera retrô e despojada, tinham por trás um grande projeto de fazer dinheiro servindo bebidas caras e explorando os melhores dj´s e dispondo todo o tipo de interação psicotrópica ao alcance dos frequentadores; embora os donos estivessem sempre sóbrios e atentos a qualquer um que excedesse no modo de se comportar adequadamente dentro de um “estabelecimento comercial”. Aquele não. Aquele era realmente um ótimo bar ruim. Cobrava-se um preço justo pela bebida e a música que tocava era de primeira, um repertório de quem tinha consumido o melhor da maestria musical dos anos 70 e se arrastasse para a legião dos músicos que aprenderam bem a lição com os mestres. Uma única tevê centralizada entre a parede de bebidas deixava rolar Lou Reed, Nick Cave, Joan Baez, Pixies e afins por todo o ambiente. E tinha sempre o garoto negro que aparecia por lá, com uma mochila da nike; uns gestos cuidadosos e fala em meio tom. Quando ele chegava no bar, ia fazendo um rodízio de mesa em mesa distribuindo suas benesses a quem tivesse interesse. O cúmulo da vida do bar foi quando se soube que o garoto tinha levado um tiro fatal da polícia. Todo mundo que andava por ali sentiu um pouco de medo ao saber do ocorrido.

Quando a menina chegou passamos a falar sobre o curta. Ela queria fazer uma montagem de vídeos que ia colecionando: a ultrassonografia do bebê que sua mãe estava esperando, aquele bebê mal definido boiando num mar de pixel. Alguma coisa do espaço sideral. O portal-útero para outras galáxias. Eu sempre imaginei que a saída e a entrada de todo mistério não desvendado tem que ser por uma buceta. E os bebês me parecem extraterrestres. Depois é que vão se definindo com essa forma humana. O movimento do bebê no útero tem a mesma velocidade de um astronauta no espaço, e o cordão umbilical é aquele ducto gigante que liga o viajante do espaço a sua nave-útero. Básico.

Aí acendi um cigarro. A moça do bar trouxe cinzeiro e abriu mais uma cerveja.

Acho que as pessoas fumam porque essa porra do cigarro constrói uma sinceridade maior no ato da comunicação. É raro construir essa redoma ideal. Quando duas pessoas estão juntas, cada uma delas está pensando em milhares de outras coisas e pessoas. No momento em que se acende o cigarro, muda tudo. É uma espécie de aviso: Ok, agora eu estou aqui pra você. Fale-me o que pensa.

Com exceção do zen budismo, ninguém inventou nada melhor pra construir uma atmosfera real de sinceridade do que o cigarro. Como a meditação exige disciplina e comportamento íntegro e destinado à prática de atingir a iluminação, torna-se mais fácil ir até uma banquinha e comprar um maço de cigarros.

É que virou cafona: fumar ou morrer. Todo mundo se quer eterno e saudável. É proibido envelhecer. É proibido fumar. É terminantemente proibido jogar fumaça para os pulmões. As crianças sofrem com a fumaça do cigarro. Seres que sabem respirar do jeito que tem de ser, não precisam criar uma atmosfera artificial de comunicação pois já atingiram isso da forma mais natural. Uma criança está sempre se comunicando. Então, as crianças que tenham um pouco de piedade e deixem os fumantes se matarem em sua santa paz.

Posso fumar perto de ti? E ela respondeu: Ok!, sem problemas – só por educação, pois eu vi que ela se esquivou um pouco quando eu dei a primeira tragada (o que eu ignorei completamente, pois eu já estava me comunicando) – mas logo depois que eu acendi o cigarro ela se danou a falar sobre o curta e sobre essa coisa de A origem do mundo.

Aos poucos, a noite foi caindo e eu já estava com a cabeça povoada de bebês boiando leves e suaves dentro do útero de minha embriaguez. Mas foi só isso, porque ela não estava a fim de interagir fisicamente. Quando as mesas, inclusive a nossa, ficou cheia de outras pessoas que não estavam ali antes, ela pôs a touca de lã na cabeça e se mandou. É óbvio que eu fiquei tomada por uma nostalgia filha da puta e pela sensação de que, por mais que eu tenha me esforçado para avançar nessa coisa do roteiro que ela estava montando na cabeça, por mais que eu tenha me esforçado para “colaborar”, eu estava mesmo era interessada em saber se alguma coisa ia evoluir daquela conversa, alguma outra coisa que não fosse só conversa. E com isso me senti tão idiota quanto um imbecil comandado por um pau no meio das pernas que sai de casa com o fim exclusivo de caçar bucetas. Tratei de me corrigir quando notei que era como se eu também tivesse um pau incômodo entre as pernas que não me deixava interagir com nenhuma garota sem pensar que eu queria, que eu poderia, que eu desejaria ardentemente fodê-la. Mas por quê-la? Afinal eu podia, como eu bem sabia fazer, ficar bem em conversar com alguém. Pensar com o pau é algo tenso, ansioso, não dá uma folga pra que a conversa aconteça.

Portanto, estando melancólica e sabedora dessa condição, a sequência era me afundar mais no buraco negro daquela noite. A garota havia ido embora e eu tinha uma lacuna dentro do coração, tipo aqueles espaços nas células para entrada e saída de nutrientes – cada célula minha era um coração cheio de espaços em branco precisando de alimento. Um alimento que acendesse tudo por dentro e esvaísse para os olhos e para boca e se recuperasse sempre a cada respiração. Mas como isso, se eu estava totalmente  entupida de fumaça de cigarro e cada vez mais embriagada?

Até que minha melancolia suicida foi percebida por um garoto meio com cara de Morrissey que chegou em mim e falou: E aí? Tá a fim de ir pra um outro bar? Ok! Podemos. E saímos dali engolindo o ar frio da noite em passadas largas e entusiasmadas. Eu falei pra ele que estava pensando em comprar um celular. Ele me falou o quanto detestava quando colocavam o telefone naquele modo de ligação não identificada. E a gente ficou pensando que quando atendesse por distração e fosse uma pessoa disgusting por trás da linha podíamos imitar uma voz metálica dizendo: “Houve engano em sua ligação, por favor, consulte a lista telefônica”. E click. Hahahaha! Como era tranquilo caminhar de madrugada. Mas tranquilo pra quem? Depois que soubemos da morte a balaço do garoto negro que distribuía as nossas emoções garantidas no bar mais legal da cidade nada nunca mais foi tão tranquilo assim.

O meu novo amigo usava um daqueles coturnos pretos com cadarços longos. Era meio moda usar isso. Eu nunca entendi muito bem. Mas nele ficava cool. As pernas magras numa calça vermelha apertada e uma jaqueta jeans com bolsos na frente em que ele enfiava as mãos e andava assim, como um bicho-cotovelos, rindo e falando o tempo todo com um sorriso enorme no rosto e uns olhos vivos a cada vez que inventava uma ideia nova. É. Aquilo era bom. Estávamos interagindo. E sem cigarro.

Chegamos no outro bar. Um bem maior, cheio de escadas que levavam para um porão com outras tantas mesas de sinuca. E umas saídas que davam pra um jardinzinho tipo quintal, com bancos de praça e grama, era lá que se podia fumar os beques sem se preocupar. Era só chegar e tragar. Pegamos uma cerveja, umas fichas de sinuca e fomos pra lá. A música vinha até nós Venus as a boy…

O melhor de tudo é que quando não estávamos prestando atenção em ninguém todos começaram a prestar atenção em nós. Estava tudo bem ali, nós dois. O nome dele era Wagner. Como? Wagner, como o pianista. E o seu? Eu sou a Sylvia. Como a Sylvia Plath.

Escuta, Wagner, por acaso você não sabe de algum lugar pra alugar? Tou querendo vir morar aqui pelo centro.

Agora começava a tocar Hey…

 

 

Assionara Souza é escritora radicada em Curitiba. Autora dos livros Cecilia não é um cachimbo; Os hábitos e os monges, Na rua: a caminho do circo; e sua obra Amanhã. Com sorvete! foi traduzida no México pela tradutora e poeta Brenda Ríos.

 

Foto de Bárbara Tanaka.

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Cruzeiro do Sul 0 106

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.

Demônio de Fausto 0 91

De todas as histórias que me propus  a contar, nenhuma terá tanto a dizer quanto aquele relato trapaceiro embaixo da ponte do Canal. Foi a história mais absurda que poderia ter descrito. Quando olhei pela janela hoje cedo e vi o céu, tive ainda mais certeza: era tudo verdade.

Meu interlocutor? Pergunta fácil. Audiente muito ilustre, vindo de um canto escondido do cosmos somente para aquela sessão rápida e informal. Talvez, por esse motivo, estava alvoroçado e um tanto irritado. Podia ser só arrelia da viagem também. Minha assimilação foi afetada primeiro pela surpresa da visita (eu estava caminhando perto da ponte do Canal sem a intenção de encontrar quem quer que fosse e por vezes tinha fugido da vista de um ou outro conhecido); depois, pela soberba daqueles olhos lancinantes, cravados em um rosto comprido, bochechas vincadas e testa escondida pela franja. Cabelo oleoso, sufocado por um pork pie hat preto. Ao contrário do que fez em sua última visita, desta vez não veio acompanhado da gangue de pequenos demônios orientados tão somente pelo espetáculo e pela inveja. O coro era solo.

“Alguma coisa precisa mudar meu jovem. Alguma coisa nessa sua vida de merda precisa ser movimentada com urgência!”

“Você deveria me dar conselhos ruins, via de regra, não?!”

“Cala a boca pirralho. Você acha que brilha!”

“Desculpa.”

“Escute aqui, prepara essa cabeça. Nessa sua próxima história pode até ter um amorzinho, mas no fim, a única justificativa para tudo precisa ser a aniquilação. Nada desse papo otimista, dessa merdarada futurista. Você tá me entendendo? O barulho tem que ser tão forte que os cérebros derretam instantâneamente e escorram através dos olhos, ouvidos, nariz e até pela boca. Quero cenas de terror. Violência gratuita. Tá me entendendo, pirralho?!”

“Tá bom cara, porra, não precisa insistir tanto desse jeito. Já saquei qual vai ser dessa vez: vou pintar um quadrão vermelho, cheio de tripas. Se é o que você quer, vamo ai.”

“Isso, isso mesmo. Nada de suspense psicológico, nada de aventura com desfecho ‘mais ou menos’. E chega de misticismo. Nada de enigmas, signos justapostos, pistas para o tesouro, nada de referência sem vergonha, muito menos esse negócio de diarinho lírico do cotidiano. Vai pro pau! EU QUERO PORRADA! Tá entendendo?!”

“Mas na última história já deixamos ouvidos sangrando e cérebros quase explodindo. Essa parada de tripas tá ficando manjada também. Livro sobre jantar canibal, sobre suicídio, tudo isso tá muito modinha, saca? Até aquele plot de personagens abandonados à própria sorte em um vilarejo macabro tá virando filme de Hollywood classificação doze anos. Ainda bem que o politicamente correto começou a morrer depois do mandato do Obama, ninguém aguenta mais essa onda de bom-mocismo. Além de ser hipócrita, pasteuriza TUDO.”

“Beleza cara. Ok, ok e ok! Não precisa ser tão de graça então. Pode ser algo mais sutil, mas mesmo assim, tem que ser algo de virar o estômago.”

“Faz tempo que tô pensando em fazer uma história sobre guerra química. Tá meio oportuno, eu diria. E se a gente fizesse algo com cianeto no meio?”

“Cianeto cara, sério?! Você é muito previsível mesmo. Cianeto é para suicídio gourmet. Coisa pra gente famosa, do calibre de Horácio Quiroga, do Hitler e da horda dele. Cianeto é veneno pra historinha de anarquista sérvio, eu quero mesmo é mostarda nitrogenada, aí sim a coisa fica interessante.”

“Meu caralho! Tu quer bagunçar as personagens nesse nível? Corre o risco de virar um show de bizarrice sem fim.”

“Sim cara, eu falei para você abrir essa sua cabecinha de merda. Falei que a porrada tinha que ser intensa. A primeira cena que me vêm à cabeça é uma imagem com as personagens ardendo após uma explosão daquela gosma amarronzada com cheiro de peixe. Imagina a galera sufocando, com os olhos fumegantes e a pele cheia de bolhas. Quero todo mundo com feições cancerígenas, como se tivessem saído de um filme do Cronenberg. O resto do enredo você constrói aí. Já te dei quase tudo de graça.”

“Certo, entendi.”

“E quero que seja em um lugar menos estigmatizado também, para causar impacto. Pode ser em um contexto abastado e pacífico, foda-se que vai perder um pouco da verossimilhança. Caso você não se esqueça daquela astúcia essencial, tudo vai terminar bem mal, com direito a aplausos. E não se esqueça eim, sem entregar muito a história até que tudo esteja se aniquilando em bolhas de linfa. Destrua uma coisa bonita que eu quero ver.”

Mefistófeles de Fausto e seu chapéu preto desapareceram antes mesmo da minha resposta. Não sei se terei os vinte e quatro anos sem envelhecer concedidos ao mago alemão ou se meus manuscritos nunca irão arder nas chamas, como os do dramaturgo russo. O fato é que coordenei as pontas de meus dedos sobre o teclado e não sei quando irei parar. Certamente será a história mais absurda que já contei. E, no final, vou dizer com insolência atrevida: era tudo verdade.

Texto de Jadson André