Texto de em 17 de dezembro de 2015 . Nenhum comentário.

Fui me encontrar com a garota que estava fazendo um curta sobre bebês saindo da vagina. O curta ia se chamar A origem do mundo, por causa do quadro do Courbet. Uma buceta peluda aberta direto na cara do observador, apreciador, público, crítico; uma buceta replicada de modo obssessivo até que Zuckerberg impedisse e bloqueasse os usuários. Mas ainda não havia por ali Zuckerberg nem a sua máquina alucinante replicadora de imagens.

Cheguei umas cinco da tarde no bar; abria cedo, para os que gostavam de beber desde cedo. Era um bar ruim excelente. Com quatro mesas de sinuca, um balcão enorme, e mesinhas de metro quadrado espalhadas no espaço, separadas somente por uns pilotis que impediam a visão entre algumas mesas. Na fila do banheiro todo mundo acabava se encontrando. Mas ainda era cedo.

O casal dono bar parecia não ter dormido bem. Ela andava feito um zumbi entre as mesas, executando ações programadas. Servir as bebidas e os aperitivos e esvaziar os cinzeiros cheios, garantindo que a conversa continuasse fluindo. Enquanto o velho ficava atrás do caixa com meio farol de olhos abertos, ouvindo parcamente os pedidos de passar a régua ou pegar mais bebida e fichas de sinuca e anotava tudo com aquela letra de quem já havia trabalhado em escritório de contabilidade.

Talvez os dois tenham ido longe na noite anterior; estavam com uma ressaca que ia se curando à medida que a noite avançava. Aquele tipo de temperamento dos legítimos notívagos que ganham energia com o crescer das sombras e vão ficando mais acesos, mais divertidos e abertos à comunicação – com ou sem cigarro. Eles tinham uma boa conexão e realizaram o sonho de abrir um bar legal que fizesse a diferença. E fizeram isso por um ideal e não com o objetivo de lucrar, como era o caso dos novos bares que, por mais que simulassem uma atmosfera retrô e despojada, tinham por trás um grande projeto de fazer dinheiro servindo bebidas caras e explorando os melhores dj´s e dispondo todo o tipo de interação psicotrópica ao alcance dos frequentadores; embora os donos estivessem sempre sóbrios e atentos a qualquer um que excedesse no modo de se comportar adequadamente dentro de um “estabelecimento comercial”. Aquele não. Aquele era realmente um ótimo bar ruim. Cobrava-se um preço justo pela bebida e a música que tocava era de primeira, um repertório de quem tinha consumido o melhor da maestria musical dos anos 70 e se arrastasse para a legião dos músicos que aprenderam bem a lição com os mestres. Uma única tevê centralizada entre a parede de bebidas deixava rolar Lou Reed, Nick Cave, Joan Baez, Pixies e afins por todo o ambiente. E tinha sempre o garoto negro que aparecia por lá, com uma mochila da nike; uns gestos cuidadosos e fala em meio tom. Quando ele chegava no bar, ia fazendo um rodízio de mesa em mesa distribuindo suas benesses a quem tivesse interesse. O cúmulo da vida do bar foi quando se soube que o garoto tinha levado um tiro fatal da polícia. Todo mundo que andava por ali sentiu um pouco de medo ao saber do ocorrido.

Quando a menina chegou passamos a falar sobre o curta. Ela queria fazer uma montagem de vídeos que ia colecionando: a ultrassonografia do bebê que sua mãe estava esperando, aquele bebê mal definido boiando num mar de pixel. Alguma coisa do espaço sideral. O portal-útero para outras galáxias. Eu sempre imaginei que a saída e a entrada de todo mistério não desvendado tem que ser por uma buceta. E os bebês me parecem extraterrestres. Depois é que vão se definindo com essa forma humana. O movimento do bebê no útero tem a mesma velocidade de um astronauta no espaço, e o cordão umbilical é aquele ducto gigante que liga o viajante do espaço a sua nave-útero. Básico.

Aí acendi um cigarro. A moça do bar trouxe cinzeiro e abriu mais uma cerveja.

Acho que as pessoas fumam porque essa porra do cigarro constrói uma sinceridade maior no ato da comunicação. É raro construir essa redoma ideal. Quando duas pessoas estão juntas, cada uma delas está pensando em milhares de outras coisas e pessoas. No momento em que se acende o cigarro, muda tudo. É uma espécie de aviso: Ok, agora eu estou aqui pra você. Fale-me o que pensa.

Com exceção do zen budismo, ninguém inventou nada melhor pra construir uma atmosfera real de sinceridade do que o cigarro. Como a meditação exige disciplina e comportamento íntegro e destinado à prática de atingir a iluminação, torna-se mais fácil ir até uma banquinha e comprar um maço de cigarros.

É que virou cafona: fumar ou morrer. Todo mundo se quer eterno e saudável. É proibido envelhecer. É proibido fumar. É terminantemente proibido jogar fumaça para os pulmões. As crianças sofrem com a fumaça do cigarro. Seres que sabem respirar do jeito que tem de ser, não precisam criar uma atmosfera artificial de comunicação pois já atingiram isso da forma mais natural. Uma criança está sempre se comunicando. Então, as crianças que tenham um pouco de piedade e deixem os fumantes se matarem em sua santa paz.

Posso fumar perto de ti? E ela respondeu: Ok!, sem problemas – só por educação, pois eu vi que ela se esquivou um pouco quando eu dei a primeira tragada (o que eu ignorei completamente, pois eu já estava me comunicando) – mas logo depois que eu acendi o cigarro ela se danou a falar sobre o curta e sobre essa coisa de A origem do mundo.

Aos poucos, a noite foi caindo e eu já estava com a cabeça povoada de bebês boiando leves e suaves dentro do útero de minha embriaguez. Mas foi só isso, porque ela não estava a fim de interagir fisicamente. Quando as mesas, inclusive a nossa, ficou cheia de outras pessoas que não estavam ali antes, ela pôs a touca de lã na cabeça e se mandou. É óbvio que eu fiquei tomada por uma nostalgia filha da puta e pela sensação de que, por mais que eu tenha me esforçado para avançar nessa coisa do roteiro que ela estava montando na cabeça, por mais que eu tenha me esforçado para “colaborar”, eu estava mesmo era interessada em saber se alguma coisa ia evoluir daquela conversa, alguma outra coisa que não fosse só conversa. E com isso me senti tão idiota quanto um imbecil comandado por um pau no meio das pernas que sai de casa com o fim exclusivo de caçar bucetas. Tratei de me corrigir quando notei que era como se eu também tivesse um pau incômodo entre as pernas que não me deixava interagir com nenhuma garota sem pensar que eu queria, que eu poderia, que eu desejaria ardentemente fodê-la. Mas por quê-la? Afinal eu podia, como eu bem sabia fazer, ficar bem em conversar com alguém. Pensar com o pau é algo tenso, ansioso, não dá uma folga pra que a conversa aconteça.

Portanto, estando melancólica e sabedora dessa condição, a sequência era me afundar mais no buraco negro daquela noite. A garota havia ido embora e eu tinha uma lacuna dentro do coração, tipo aqueles espaços nas células para entrada e saída de nutrientes – cada célula minha era um coração cheio de espaços em branco precisando de alimento. Um alimento que acendesse tudo por dentro e esvaísse para os olhos e para boca e se recuperasse sempre a cada respiração. Mas como isso, se eu estava totalmente  entupida de fumaça de cigarro e cada vez mais embriagada?

Até que minha melancolia suicida foi percebida por um garoto meio com cara de Morrissey que chegou em mim e falou: E aí? Tá a fim de ir pra um outro bar? Ok! Podemos. E saímos dali engolindo o ar frio da noite em passadas largas e entusiasmadas. Eu falei pra ele que estava pensando em comprar um celular. Ele me falou o quanto detestava quando colocavam o telefone naquele modo de ligação não identificada. E a gente ficou pensando que quando atendesse por distração e fosse uma pessoa disgusting por trás da linha podíamos imitar uma voz metálica dizendo: “Houve engano em sua ligação, por favor, consulte a lista telefônica”. E click. Hahahaha! Como era tranquilo caminhar de madrugada. Mas tranquilo pra quem? Depois que soubemos da morte a balaço do garoto negro que distribuía as nossas emoções garantidas no bar mais legal da cidade nada nunca mais foi tão tranquilo assim.

O meu novo amigo usava um daqueles coturnos pretos com cadarços longos. Era meio moda usar isso. Eu nunca entendi muito bem. Mas nele ficava cool. As pernas magras numa calça vermelha apertada e uma jaqueta jeans com bolsos na frente em que ele enfiava as mãos e andava assim, como um bicho-cotovelos, rindo e falando o tempo todo com um sorriso enorme no rosto e uns olhos vivos a cada vez que inventava uma ideia nova. É. Aquilo era bom. Estávamos interagindo. E sem cigarro.

Chegamos no outro bar. Um bem maior, cheio de escadas que levavam para um porão com outras tantas mesas de sinuca. E umas saídas que davam pra um jardinzinho tipo quintal, com bancos de praça e grama, era lá que se podia fumar os beques sem se preocupar. Era só chegar e tragar. Pegamos uma cerveja, umas fichas de sinuca e fomos pra lá. A música vinha até nós Venus as a boy…

O melhor de tudo é que quando não estávamos prestando atenção em ninguém todos começaram a prestar atenção em nós. Estava tudo bem ali, nós dois. O nome dele era Wagner. Como? Wagner, como o pianista. E o seu? Eu sou a Sylvia. Como a Sylvia Plath.

Escuta, Wagner, por acaso você não sabe de algum lugar pra alugar? Tou querendo vir morar aqui pelo centro.

Agora começava a tocar Hey…

 

 

Assionara Souza é escritora radicada em Curitiba. Autora dos livros Cecilia não é um cachimbo; Os hábitos e os monges, Na rua: a caminho do circo; e sua obra Amanhã. Com sorvete! foi traduzida no México pela tradutora e poeta Brenda Ríos.

 

Foto de Bárbara Tanaka.