O nome que nos dão 0 78

O anonimato é vedado pela Constituição brasileira. Pode parecer uma coisa simples, Juba, mas na prática quer dizer que todo mundo tem a obrigação de ser alguém, e eu já não sei mais o que sou. Me desculpe, mas o velório mexeu um pouco com a minha cabeça. Mesmo você, antes de ser a árvore que fez sombra para os melhores dias de minha vida com a Cida, precisou ser registrado como Salix babylonica. Um salgueiro chorão com nome e sobrenome. Juba, na intimidade do nosso lar. Lembro que foi você quem nos fez comprar essa casa, que parecia ter sido pensada para uma vida de finais de semana.

Quando eu chegava em casa e podia sentar na varanda, tragando o meu charuto e observando seus arbustos balançando com o vento enquanto esperava pelo beijo da minha Cida a anunciar o jantar, despia-me dos dias úteis e tinha a impressão que a vida era uma experiência que valia a pena. Todo mundo deveria viver ao menos uma vez. Com as pessoas certas, pode ser incrível.

Desde os tempos da escola eu sempre fui meio abaixo da média, e isso parecia estar estampado em minha face, porque onde quer que eu fosse todos pareciam reconhecer o fato sem demora, de maneira que me acostumei com a ideia. Foi estranho quando conheci a Cida, e na sua terceira frase me disse que passaria a me chamar de Joaquim, como o médico que a trouxe à vida depois de uma gravidez de risco de sua mãe e, segundo consta, um homem de uma simplicidade tão profunda que seria capaz de dispersar uma multidão raivosa com apenas um sorriso. Dezenove anos e ninguém tinha sido generoso comigo até então, mas a Cida só precisou de uma frase. Ela nunca pretendeu ser uma boa pessoa, mas enxergava o melhor em cada um. Não lhe passava pela cabeça a ideia de fazer algo que ajudasse alguém, que pudesse a vir ser reconhecido mais tarde, ou ainda fazer com que eu me apaixonasse por ela com uma simples frase de sete palavras. Sem que percebesse, ao ver o pobre caminhando começava a repartir o pão que tinha em mãos e dava-lhe o maior pedaço. Um instinto incontrolável de mudar o mundo.

Foi assim que nos conhecemos, e foi assim que ela salvou nossos muitos anos juntos. Sem se preocupar em sermos especiais, tínhamos tempo para sermos nós mesmos. Podíamos sentar aqui, olhando para você, e passar uma tarde inteira conversando sobre besteiras cotidianas, porque no fundo são as amenidades que nos aproximam daqueles que amamos. E assim continuamos juntos até o final.

A essa altura você já deve ter percebido que eu só vim até aqui pra me despedir, né Juba? Aproveitei que a família ainda está no velório e passei pra ter dar um último abraço antes que alguma força metafísica me leve para onde eu deva ficar. Mas eu vou tranquilo, porque sei que a cada vez que ela sentar ao seu lado, vai lembrar que aqui pudemos ser anônimos. Que aqui, nossa vida foi feita de finais de semana.

Texto de André Petrini.

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”