A aridez de certas almas 0 862

Hoje a cerração veio baixa, mas o sol não rachou. Agradeci a Deus porque já tem tempo que a estiagem preocupa e se viesse sol a gente ia precisar de mais água que o normal. Eu agradeço muito a Deus. Mas o sol não rachou e no fim não era cerração, era um tipo de fumaça que não foi embora. O dia ficou seco e quente, firme e forte, a neblina não ajudava nada e acabamos precisando de muita água mesmo assim.

Tem um cheiro de carniça que nunca sai do prédio onde trabalho. Parece que tá preso nas paredes, parece que misturaram carne podre com concreto pra construir. A explicação mais óbvia, a gente sabe, é que eles jogam todo bicho que morre na valeta que fica bem do lado. Eu tenho uma versão de que gosto mais, que é a do suicídio. Pra mim aquilo lá é um ponto comum pra suicídio, e não de humano, de animal mesmo. Cachorro deprimido, cavalo deprimido. Vão ali e pulam. Enfim, eu penso nessas coisas. Foi um dia desgraçadamente pesado porque com calor fede mais. Aí fica tudo chato, o trabalho fica chato. O nariz fica assado e parece que nada nunca tá limpo, mas tudo bem, que agora esfriou um pouco.

Em tempos de seca o pessoal não devia lavar os vidros. Eu já tentei explicar lá na firma, mas só me mandam calar a boca. Faz o teu trabalho e cala a boca, é o que falam os chefes. Tentei explicar pros meus colegas e eles dizem Rapaz, relaxa, quem tá fazendo errado são eles, você só tá aqui pra pagar as contas, e eu entendo como eles pensam, mas acho que o que se gasta é de todo mundo. Eu não me importo com o certo e errado, me importo com a falta d’água. Desci na minha corda, lavando e economizando o máximo que conseguia.

Lá pelo fim do expediente alguém em uma janela perto de onde eu tava colocou uma música pra tocar bem alto. Eu nunca tinha ouvido uma melodia tão bonita, e eu conheço muitas melodias muito bonitas. Um tempo atrás pensei sobre os tantos temas musicais maravilhosos que existem e sobre como nós só temos duas opções quanto a isso: ou entristecemos e lamentamos o fato de que jamais vamos conhecer nada, pois são tantos; ou agradecemos ao acaso toda vez que essas músicas aparecem na nossa vida. Eu lembrei disso e chorei um pouco, que eu gosto dessa ideia e me emociono bastante com canção. Enquanto eu ia embora fiquei repetindo um trecho que decorei do refrão, pra ver se depois descobria de quem era.

Até que cheguei em casa e me alegrei de volta, finalmente, porque meu pai morreu faz uns dias e agora isso aqui é meu. Não lembro muito disso quando estou no trabalho, mas é só entrar por essa porta que a presença da ausência dele faz meu coração se encher de alegria. O apartamento tava quase fresco e não tinha cerração, e agora tá até caindo uma garoinha lá fora. Bem gostoso.

Quem nasce no pecado não costuma chegar muito perto da vitória, mas aos poucos eu tô chegando, ainda que sem querer. Eu sou só um menino bom tentando sobreviver numa cidade maluca – e com preguiça demais pra desistir.

 

 

por Rômulo Candal

fotografia: Sunset Noir via Compfight cc

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Escala de Baumé 0 1911

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3200

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai