Texto de em 28 de Março de 2016 . Nenhum comentário.

sempre te perdi por um fio

e vi voltar tua dura entrega
tua áspera doçura
tua instável certeza

depois de tecer em afeto
os fios que detive
na correnteza.

logo eu, tão desastrada
tão sem medida sem métrica sem nó
sem vírgula
teci tantos tapetes
fartos, alegres, florais

à orla do abismo
não vi manchetes
nem carnavais

mas eram tantos fios
eram tantas estampas
era um tear de tal modo incessante
que já não havia espaço
na casa
no peito
no tempo
pra recolher as linhas
da tua partida
e tecer o teu regresso

vi você dançar comigo
comer, brindar à vida
lambuzar-se sobre a tapeçaria
e vi você sapateá-la
a gritar e chorar de alegria

mas a vida é frágil
basta um instante
que desaba a travessia

e minhas mãos se cansaram
de tear teu semblante
e nessa promissora profissão
de melhor costureira
de tapetes de regresso
– a mais apaixonada tecelã dos universos –
decidi trocar de ofício:
recolhi-me à solidão
de habitar sobre os versos

e algum moribundo
que esbarrar nos tapetes
à esquina dum canto qualquer
vai saber que alguém,
de tanto partir
fez partir uma mulher.

Carolina Goetten