Texto de em 11 de Abril de 2016 . 6 Comentários.

Um japonês velho resolveu fingir que precisava do mictório no banheiro do cursinho. Tinha os cabelos finos penteados para trás, travados de gel. Vestia calça azul-cor-de-balão, como entregadores de água e gás; e uma camiseta branca e suada, de poliéster e algodão.

Entrou no banheiro para sondar território. Queria cagar, mas não tinha coragem de partir para esse lado antes de se certificar de que não seria pego. Flagrou-se traindo a própria farsa sozinho, olhando para baixo, em silêncio, de zíper aberto.

O azulejo estava amarelado e os rejuntes escurecidos, por causa dos germes e bactérias. O lugar cheirava a quiboa, naftalina, detergente barato, merda e álcool-gel, e a este porque o H1N1 havia voltado à pauta de tevês, rádios, jornais, redes sociais e ruas. A gripe a matou poucos e feriu alguns em seu primeiro ataque. Gerou medo desproporcional e assuntos de dia a dia para quem prestava atenção nos jornais de tevê. Os rumores de doença haviam voltado, dessa vez gigantes – todos com cara de incômodo, como quando a anestesia não pega direito na tirada dos sisos, ou como quando os chinelos cantam por uma semana depois de um banho com eles, pela infiltração de água na borracha.

Um aluno entrou e disse oi, passando direto para um dos sanitários com portinha excludente:

-Fala, Niltão. Bão, doido?

-Fala, paiaço. De boa.

-E o pintinho, japonês? Foda mijar no frio?

Nilton fechou a calça e ajeitou o cinto, sem responder. Ao sair do banheiro peidou alto, por acidente. Falou um “opa” constrangido, para si. Foi pedir um copo de água na cantina, ainda em fuga do crime que não teve a chance de cometer.

Bebeu em um gole e pegou três guardanapos em uma das mesas, para secar a nuca e a testa. Chegou perto do balcão, se inclinou para frente e sussurrou para Carlos, do caixa, indicando com a cabeça do que falava:

-Empresta tua chavinha?

-Cagar, japonês?

-Aham.

-Susse. Dá descarga. Não joga papel que tá entupindo.

-Tá – E foi.

Carlos deu uma risada nasal. Flagrou-se traindo a própria indiferença sozinho, olhando para cima, em silêncio.

Lavou as mãos na pia e sacou o celular para ver as mensagens. Só tinha uma da ex, cobrando R$600 da pensão de Andreia, nove anos. Fingiu que não leu o conteúdo na pré-visualização e desabilitou a opção de “último horário visto” no whatsapp, para postergar e sentir o gosto de uma colherada pequena de liberdade. Gostou da cor ouro do pão de queijo que estava para sair. Estava até com casquinha. E era com parmesão de verdade, para ajudar visual e sabor. O cheiro chamou a atenção de um aluninho qualquer, um nervosinho, de comportamento tão passivo-agressivo quanto o de um motorista de biarticulado às seis e meia da tarde. Um lobinho com fominha.

A noite seria importante. Sua banda, Murilo & as consequências, tocaria em uma formatura de odontologia. Ele ainda precisava aprender o baixo de “Vem, meu amor” e “Gangnam Style”. Sairia do trabalho às seis da tarde, cortaria o trânsito na CG 150, chegaria em casa umas seis e quarenta e precisava encontrar o time, já de banho tomado, às nove. Em último caso imitaria o guitarra-base o melhor que pudesse, abaixaria o volume do Jazz Bazz e apresentaria sua melhor cara de paisagem.

Nilton voltou do banheiro e agradeceu o amigo:

-Qualquer coisa, pede, Carlos. Valeu mesmo.

O cantineiro resolveu cobrar o favor ao japonês na hora, para não alimentar dívidas e rancores:

-Japa, fica pra mim uns 40 minutos hoje, fim do dia?

-Que hora?

-Cinco e vinte; preciso ir pra casa fazer um negócio.

-Festa?

-Formatura de odonto. Um monte de gatinha, tomara que de branco.

-Fico, fico. Posso jantar?

-Pode. Fecho o caixa antes de sair e aí você só anota o que entrar, que amanhã vejo direito. Come o que quiser, pega um refri lata ou dois.

-Claro. Depois volto, então.

-E sem palhacice que aqui não é escola de circo. Tem câmera e ninguém mais me rouba.

-Cê ainda tá puto com sua mulher?

-Ex.

-Te falei que estudei com uma irmã dela no Estadual, né?, Simone.

-Tinha esquecido. E aí?

-Aí nada. Sei lá. Vi ela na rua esses dias. Essa cidade é um ovo.

-O mundo é uma quitinete, Japonês. Abre o olho.

-Tá aberto, louco.

-É, bicho. Tô falando que tá tudo meio estranho e você não acredita em mim.

 

Ilustração: Nina Zambiassi

Texto: Marco Antonio Santos

 

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