Cidade do além 6 190

Um japonês velho resolveu fingir que precisava do mictório no banheiro do cursinho. Tinha os cabelos finos penteados para trás, travados de gel. Vestia calça azul-cor-de-balão, como entregadores de água e gás; e uma camiseta branca e suada, de poliéster e algodão.

Entrou no banheiro para sondar território. Queria cagar, mas não tinha coragem de partir para esse lado antes de se certificar de que não seria pego. Flagrou-se traindo a própria farsa sozinho, olhando para baixo, em silêncio, de zíper aberto.

O azulejo estava amarelado e os rejuntes escurecidos, por causa dos germes e bactérias. O lugar cheirava a quiboa, naftalina, detergente barato, merda e álcool-gel, e a este porque o H1N1 havia voltado à pauta de tevês, rádios, jornais, redes sociais e ruas. A gripe a matou poucos e feriu alguns em seu primeiro ataque. Gerou medo desproporcional e assuntos de dia a dia para quem prestava atenção nos jornais de tevê. Os rumores de doença haviam voltado, dessa vez gigantes – todos com cara de incômodo, como quando a anestesia não pega direito na tirada dos sisos, ou como quando os chinelos cantam por uma semana depois de um banho com eles, pela infiltração de água na borracha.

Um aluno entrou e disse oi, passando direto para um dos sanitários com portinha excludente:

-Fala, Niltão. Bão, doido?

-Fala, paiaço. De boa.

-E o pintinho, japonês? Foda mijar no frio?

Nilton fechou a calça e ajeitou o cinto, sem responder. Ao sair do banheiro peidou alto, por acidente. Falou um “opa” constrangido, para si. Foi pedir um copo de água na cantina, ainda em fuga do crime que não teve a chance de cometer.

Bebeu em um gole e pegou três guardanapos em uma das mesas, para secar a nuca e a testa. Chegou perto do balcão, se inclinou para frente e sussurrou para Carlos, do caixa, indicando com a cabeça do que falava:

-Empresta tua chavinha?

-Cagar, japonês?

-Aham.

-Susse. Dá descarga. Não joga papel que tá entupindo.

-Tá – E foi.

Carlos deu uma risada nasal. Flagrou-se traindo a própria indiferença sozinho, olhando para cima, em silêncio.

Lavou as mãos na pia e sacou o celular para ver as mensagens. Só tinha uma da ex, cobrando R$600 da pensão de Andreia, nove anos. Fingiu que não leu o conteúdo na pré-visualização e desabilitou a opção de “último horário visto” no whatsapp, para postergar e sentir o gosto de uma colherada pequena de liberdade. Gostou da cor ouro do pão de queijo que estava para sair. Estava até com casquinha. E era com parmesão de verdade, para ajudar visual e sabor. O cheiro chamou a atenção de um aluninho qualquer, um nervosinho, de comportamento tão passivo-agressivo quanto o de um motorista de biarticulado às seis e meia da tarde. Um lobinho com fominha.

A noite seria importante. Sua banda, Murilo & as consequências, tocaria em uma formatura de odontologia. Ele ainda precisava aprender o baixo de “Vem, meu amor” e “Gangnam Style”. Sairia do trabalho às seis da tarde, cortaria o trânsito na CG 150, chegaria em casa umas seis e quarenta e precisava encontrar o time, já de banho tomado, às nove. Em último caso imitaria o guitarra-base o melhor que pudesse, abaixaria o volume do Jazz Bazz e apresentaria sua melhor cara de paisagem.

Nilton voltou do banheiro e agradeceu o amigo:

-Qualquer coisa, pede, Carlos. Valeu mesmo.

O cantineiro resolveu cobrar o favor ao japonês na hora, para não alimentar dívidas e rancores:

-Japa, fica pra mim uns 40 minutos hoje, fim do dia?

-Que hora?

-Cinco e vinte; preciso ir pra casa fazer um negócio.

-Festa?

-Formatura de odonto. Um monte de gatinha, tomara que de branco.

-Fico, fico. Posso jantar?

-Pode. Fecho o caixa antes de sair e aí você só anota o que entrar, que amanhã vejo direito. Come o que quiser, pega um refri lata ou dois.

-Claro. Depois volto, então.

-E sem palhacice que aqui não é escola de circo. Tem câmera e ninguém mais me rouba.

-Cê ainda tá puto com sua mulher?

-Ex.

-Te falei que estudei com uma irmã dela no Estadual, né?, Simone.

-Tinha esquecido. E aí?

-Aí nada. Sei lá. Vi ela na rua esses dias. Essa cidade é um ovo.

-O mundo é uma quitinete, Japonês. Abre o olho.

-Tá aberto, louco.

-É, bicho. Tô falando que tá tudo meio estranho e você não acredita em mim.

 

Ilustração: Nina Zambiassi

Texto: Marco Antonio Santos

 

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Dai-me Amor 0 323

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 441

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.