Cidade do além 6 901

Um japonês velho resolveu fingir que precisava do mictório no banheiro do cursinho. Tinha os cabelos finos penteados para trás, travados de gel. Vestia calça azul-cor-de-balão, como entregadores de água e gás; e uma camiseta branca e suada, de poliéster e algodão.

Entrou no banheiro para sondar território. Queria cagar, mas não tinha coragem de partir para esse lado antes de se certificar de que não seria pego. Flagrou-se traindo a própria farsa sozinho, olhando para baixo, em silêncio, de zíper aberto.

O azulejo estava amarelado e os rejuntes escurecidos, por causa dos germes e bactérias. O lugar cheirava a quiboa, naftalina, detergente barato, merda e álcool-gel, e a este porque o H1N1 havia voltado à pauta de tevês, rádios, jornais, redes sociais e ruas. A gripe a matou poucos e feriu alguns em seu primeiro ataque. Gerou medo desproporcional e assuntos de dia a dia para quem prestava atenção nos jornais de tevê. Os rumores de doença haviam voltado, dessa vez gigantes – todos com cara de incômodo, como quando a anestesia não pega direito na tirada dos sisos, ou como quando os chinelos cantam por uma semana depois de um banho com eles, pela infiltração de água na borracha.

Um aluno entrou e disse oi, passando direto para um dos sanitários com portinha excludente:

-Fala, Niltão. Bão, doido?

-Fala, paiaço. De boa.

-E o pintinho, japonês? Foda mijar no frio?

Nilton fechou a calça e ajeitou o cinto, sem responder. Ao sair do banheiro peidou alto, por acidente. Falou um “opa” constrangido, para si. Foi pedir um copo de água na cantina, ainda em fuga do crime que não teve a chance de cometer.

Bebeu em um gole e pegou três guardanapos em uma das mesas, para secar a nuca e a testa. Chegou perto do balcão, se inclinou para frente e sussurrou para Carlos, do caixa, indicando com a cabeça do que falava:

-Empresta tua chavinha?

-Cagar, japonês?

-Aham.

-Susse. Dá descarga. Não joga papel que tá entupindo.

-Tá – E foi.

Carlos deu uma risada nasal. Flagrou-se traindo a própria indiferença sozinho, olhando para cima, em silêncio.

Lavou as mãos na pia e sacou o celular para ver as mensagens. Só tinha uma da ex, cobrando R$600 da pensão de Andreia, nove anos. Fingiu que não leu o conteúdo na pré-visualização e desabilitou a opção de “último horário visto” no whatsapp, para postergar e sentir o gosto de uma colherada pequena de liberdade. Gostou da cor ouro do pão de queijo que estava para sair. Estava até com casquinha. E era com parmesão de verdade, para ajudar visual e sabor. O cheiro chamou a atenção de um aluninho qualquer, um nervosinho, de comportamento tão passivo-agressivo quanto o de um motorista de biarticulado às seis e meia da tarde. Um lobinho com fominha.

A noite seria importante. Sua banda, Murilo & as consequências, tocaria em uma formatura de odontologia. Ele ainda precisava aprender o baixo de “Vem, meu amor” e “Gangnam Style”. Sairia do trabalho às seis da tarde, cortaria o trânsito na CG 150, chegaria em casa umas seis e quarenta e precisava encontrar o time, já de banho tomado, às nove. Em último caso imitaria o guitarra-base o melhor que pudesse, abaixaria o volume do Jazz Bazz e apresentaria sua melhor cara de paisagem.

Nilton voltou do banheiro e agradeceu o amigo:

-Qualquer coisa, pede, Carlos. Valeu mesmo.

O cantineiro resolveu cobrar o favor ao japonês na hora, para não alimentar dívidas e rancores:

-Japa, fica pra mim uns 40 minutos hoje, fim do dia?

-Que hora?

-Cinco e vinte; preciso ir pra casa fazer um negócio.

-Festa?

-Formatura de odonto. Um monte de gatinha, tomara que de branco.

-Fico, fico. Posso jantar?

-Pode. Fecho o caixa antes de sair e aí você só anota o que entrar, que amanhã vejo direito. Come o que quiser, pega um refri lata ou dois.

-Claro. Depois volto, então.

-E sem palhacice que aqui não é escola de circo. Tem câmera e ninguém mais me rouba.

-Cê ainda tá puto com sua mulher?

-Ex.

-Te falei que estudei com uma irmã dela no Estadual, né?, Simone.

-Tinha esquecido. E aí?

-Aí nada. Sei lá. Vi ela na rua esses dias. Essa cidade é um ovo.

-O mundo é uma quitinete, Japonês. Abre o olho.

-Tá aberto, louco.

-É, bicho. Tô falando que tá tudo meio estranho e você não acredita em mim.

 

Ilustração: Nina Zambiassi

Texto: Marco Antonio Santos

 

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Escala de Baumé 0 2219

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Vida comum parte 1 0 2853

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.