Cruzeiro até o fim da Terra 0 90

Eu pilotava uma scooter alugada pela Rua Eilat, a poucas quadras da Telavivian Gallery e olhava as vitrines das lojas que estavam, em sua maioria, fechadas. Não usava capacete e sentia o vento seco no rosto. A alameda estava livre, sem tráfego. Parecia ser domingo de manhã. A última vez que havia olhado para o calendário, ainda era quinta-feira. Sem transeuntes ou vendedores, a rua parecia um deserto. Talvez fosse porque estávamos no deserto. Aquela aglomeração de concreto e vidro, com algumas árvores esparsas e uns poucos carros estacionados eram apenas maquiagem. O clima árido e solitário me atacava, mas a ideia de que logo chegaria às praias de Jaffa me trazia alívio.

Pilotei por mais alguns metros e, quando cheguei aos quarteirões mais próximos do mar, tive a impressão de que aquela não era a Rua Eilat, aquela não era Tel Aviv. Era a Rua Mena Barreto (ou a Paulino Fernandes, ou a Nelson Mandela, não lembro muito bem), em pleno bairro Botafogo, sendo bombardeada pelo sol de mais de quarenta graus da capital carioca. Quando cheguei à esquina, entrei na Rua Voluntários da Pátria. Pilotei rumo ao mar. As lojas também estavam todas fechadas, com vitrines exibindo seus manequins nus. Segui até o fim. Achei que estava enganado e que quando a rua acabasse eu chegaria às areias de Jaffa. Parecia só uma pequena falha de perspectiva.

Mas, quando enfim enxerguei o mar e me aproximei da areia, era o Pão de Açúcar que estava no meio da baía, pairando sob as águas do Atlântico. Não era o horizonte sem fim da costa do Mediterrâneo. Abandonei a scooter perto de uma árvore e corri até a areia, deixando os sapatos para trás. Cai no mar e nadei por alguns metros, sentindo a água salgada arder. No terceiro mergulho, abri os olhos enquanto estava submerso e eles queimaram, mesmo assim, pude enxergar as luzes no fundo. Mergulhadores trabalhavam no centro da baía, vários deles nadavam em volta de equipamentos conectados por cabos a um grande barco na superfície. Voltei, respirei fundo e submergi em direção a eles, mas não consegui nadar muito e logo perdi o fôlego. Voltei para sugar mais ar e mergulhei de novo, desta vez determinado em ir um pouco mais fundo, mas os mergulhadores haviam desaparecido. Imagino que haviam terminado o trabalho naquele ponto e migraram para outro, um pouco mais adiante. A profundidade e a escuridão impediam meus olhos de alcançá-los. Nadei de volta para a areia.

Enquanto me secava, percebi que o cenário estava confuso de novo. O Pão de Açúcar, o teleférico, a Avenida das Nações Unidas haviam se transfigurado. Ao fim da areia estava a Casa do Mar, ladeada pelo Jardim de HaMidron e o Museu de Jaffa, a uns poucos quilômetros da fronteira de Gaza. Minha scooter permanecia parada ao lado de uma árvore. Montei novamente e pilotei pela Avenida Yerushalayim, que exibia suas palmeiras verdejantes e, dando a volta pelo belo Parque Midron Yaffo, segui por mais algum tempo até chegar ao Porto de Jaffa, de onde partia um pequeno barco que me levaria de volta ao navio em alto mar. Parei a motocicleta a poucos metros do cais e depois de entregar as chaves a um rapaz de uniforme azul, caminhei em direção ao barco. Um dos membros da tripulação me parou e entregou um cartão, seguido de uma toalha. Depois que sequei o rosto, ele me ofereceu água. Caminhei pelo pequeno convés até a popa, de onde observava o mar e o Sol que descia até ser engolido pelas águas do Mediterrâneo.

Ao chegar ao navio e subir até a torre, um garçom se aproximou com um copo cheio e me disse: “aproveite a vista Capitão. O senhor a tem como poucos”. Depois de fazer outra reverência, olhou com seus olhos fugidios e completou: “Mas lembre-se, esse lugar não é para sempre”. Educadamente fez a terceira reverência e me deixou sozinho. Após tomar a bebida, olhei com tristeza para mais uma noite que estava prestes a chegar. Somente ao fim do crepúsculo é que os demais viajantes começaram a aparecer. Eu voltaria a conduzir o navio em poucos minutos. Depois de tantas voltas ao mundo, os lugares perdem a singularidade. Sinto falta de casa, mas não lembro mais onde fica. Uma circunavegação completa a cada vinte e oito dias. Voltas e mais voltas, como a Lua. O Sol e o sal ardem na praia em um dia quente. A viagem é sempre até o fim da noite. Só os arquétipos resistem, os nomes próprios se vão e o barco segue cortando indiscriminadamente as águas de qualquer oceano que se oponha. O cruzeiro até o fim da Terra não existe, é um circulo vicioso.

 

 

Texto: Jadson André

Ilustração: Caroline Rehbein

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra