Enganos, etc. 0 73

– Alô!

– Alô! Helder?

– Não, amigo. Foi engano.

– É?

– É!

 

– Alô!

– Helder?

– Não, cara. Errado de novo!

– Porra!

– Pois é!

 

– Opa!

– E aí Helder.

– Porra cara, chega. Exclui esse número da tua agenda, não tem nenhum Helder aqui.

– Foi mal aí irmãozinho, poxa!

– Cara, chega de me ligar. Não tem Helder nesse número.

 

– Alô

– Alô, Helder?

– Fala irmão, como você tá?

– Caralho mano, nem acredito que consegui falar com você, porra!

– Pois é mano, tempão que a gente não se falava.

– E aí, como tá o Marcelo? Ele tá aí?

– Não tá, sabe como ele é, né?

– Vixe, tá no bar então!

– Adivinhou.

– E como tá a vida aí fora?

– Aqui fora? É…

– Ué, vai dizer que caiu numa fita também?

– É, não. Bom…cara, desculpa você ligou no número errado mais uma vez. Não é o Helder.

– Que merda! Pô cara, foi mal. Tô zoando tua vida, né? Mal mesmo!

– De boa. Desculpa aí não ser o teu brother.

– É! Foda! É o único número que eu lembro de cabeça. Quer dizer, nem lembro.

– Imagino!

– Então, me conta como tá esse mundão aí!

– É, bom. Faz quanto tempo que você tá…sem saber das coisas?

– Tô preso já fazem novecentos e quarenta e três dias.

– Quase três anos.

– Isso aí!

– Bom, sei lá. o Beto Richa se reelegeu.

– Disso a cadeia inteira sabe!

– Do pedido de Impeachment, tá sabendo?

– Do golpe que você tá falando, né?

– É! E futebol, você curte?

– Se desse, jogava até aqui na cela.

– Bom, saiu uma convocação da seleção esses dias.

– Alguma novidade?
– Não, os mesmos de sempre. Até o David Luiz.

– Que bosta! Mas pô, e o que mais tá rolando, em geral?

– Ah, tão fazendo um lance pra limitar a internet da galera.

– Vixe, só zica. Cara, fala aí da tua vida então.

– Minha vida? Ah, sei lá, fui mandado embora esses dias. Minha mulher tá grávida e ainda não consegui vender meu carro.

– Caralho, e eu achava que tava ruim aqui dentro.

– É, não tá fácil.

– Eu posso te ajudar de alguma forma?

– Como assim?

– Ah, deixa pra lá. Tua mulher tá grávida, melhor não se envolver com fita errada.

– É, acho que não.

– Cara, vou precisar desligar, firmeza?

– Tranquillo.

– Posso te ligar qualquer dia desses?

– Bom, não sei. Pode.

– Massa, mas pô, separa umas novidades melhores da próxima vez.

– Pode deixar!

– Falou, irmãozinho. Se cuida aí! Saúde e paz! As coisas vão melhorar.

– Você também. Valeu! Amém!

 

Escrito pelo Gabriel Protski

Ilustrado pelo Waone

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai