Por vir 0 943

Um dos maiores fardos a se carregar é o do potencial. Quem tem potencial deveria estar fazendo alguma coisa importante, mas provavelmente está perdido entre um post e outro do Facebook. Eu tive potencial por muitos anos da minha juventude. Depois as pessoas pararam de falar isso, mas ainda não sei o porquê. Talvez eu tenha ficado velho, e ninguém vê potencial nos velhos. Talvez eu tenha finalmente atingido o que elas esperavam, ou simplesmente perceberam que na verdade eu era só mais um, e que elas erraram em acreditar que eu poderia ter feito algo que mudasse o mundo. O problema foi eu também ter acreditado, e hoje vivo em busca de um sentido para a vida. Um grande propósito onde eu possa fazer mais. Algo que me faça levantar da cama todos os dias, e que não seja o Tango precisando aliviar suas necessidades. Mas nessa época do ano é ainda mais difícil. A Primavera chega, abrem-se as flores e fecham-se os nossos olhos. São tempos difíceis para os alérgicos com potencial.

Por outro lado, Teresa parece ter nascido sabendo seu lugar no mundo, confortável em viver as horas de sua vida. Sempre a vi como uma mulher que não gosta de pagar caro pelas coisas. Em suas múltiplas personalidades, todas são econômicas. E todas têm aversão profunda ao toque em seus pés. Uma vez me contou que, quando criança, dizia que quando crescesse queria ser a mulher do Tio Patinhas, para guardar aquele dinheiro todo e comprar uma nuvem voadora que a levasse para qualquer lugar. Não sei o que deu errado para acabar se enrolando comigo. Talvez ela também tenha visto algum potencial em mim, à sua própria maneira. Ou talvez eu tenha conseguido disfarçar bem nesse tempo. Ela sempre soube falar sobre qualquer coisa, e continuava horas divagando, perdida em seus próprios pensamentos, sobre um assunto que merecia pouco mais do que duas frases. Por outro lado, eu sempre soube ouvir. No final, são as amenidades como essas que nos mantêm perto daqueles que amamos e, juntos, sempre soubemos preencher nosso amor com o dia a dia. Fosse ela uma pessoa quieta, e viveríamos em um abismo inquieto de segredos.

Na última semana comecei um projeto novo. Nada que valha a pena detalhar para você, mas foi um projeto no qual eu tive que dedicar algumas horas do meu pensamento e me ajudaram a levantar da cama com alguma disposição. Mas agora preciso esperar pela resposta de gente que, aparentemente, tem mais o que fazer do que me dar uma resposta. É o tipo de coisa que já faz meu mundo rodar em outra velocidade. O problema da ansiedade é que ela te obriga a viver cada segundo do presente, quando tudo que você mais deseja é passear um pouco pelo futuro. A minha sorte é que tenho a Teresa para falar por horas sobre os benefícios do suco verde e completar esse vácuo no qual eu me joguei. Porque se o potencial é algo que empurra a nossa realização para o futuro, pelo menos eu sei que estarei com ela quando ele finalmente chegar.

Escrito por André Petrini

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Escala de Baumé 0 1915

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3205

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai