Por vir 0 82

Um dos maiores fardos a se carregar é o do potencial. Quem tem potencial deveria estar fazendo alguma coisa importante, mas provavelmente está perdido entre um post e outro do Facebook. Eu tive potencial por muitos anos da minha juventude. Depois as pessoas pararam de falar isso, mas ainda não sei o porquê. Talvez eu tenha ficado velho, e ninguém vê potencial nos velhos. Talvez eu tenha finalmente atingido o que elas esperavam, ou simplesmente perceberam que na verdade eu era só mais um, e que elas erraram em acreditar que eu poderia ter feito algo que mudasse o mundo. O problema foi eu também ter acreditado, e hoje vivo em busca de um sentido para a vida. Um grande propósito onde eu possa fazer mais. Algo que me faça levantar da cama todos os dias, e que não seja o Tango precisando aliviar suas necessidades. Mas nessa época do ano é ainda mais difícil. A Primavera chega, abrem-se as flores e fecham-se os nossos olhos. São tempos difíceis para os alérgicos com potencial.

Por outro lado, Teresa parece ter nascido sabendo seu lugar no mundo, confortável em viver as horas de sua vida. Sempre a vi como uma mulher que não gosta de pagar caro pelas coisas. Em suas múltiplas personalidades, todas são econômicas. E todas têm aversão profunda ao toque em seus pés. Uma vez me contou que, quando criança, dizia que quando crescesse queria ser a mulher do Tio Patinhas, para guardar aquele dinheiro todo e comprar uma nuvem voadora que a levasse para qualquer lugar. Não sei o que deu errado para acabar se enrolando comigo. Talvez ela também tenha visto algum potencial em mim, à sua própria maneira. Ou talvez eu tenha conseguido disfarçar bem nesse tempo. Ela sempre soube falar sobre qualquer coisa, e continuava horas divagando, perdida em seus próprios pensamentos, sobre um assunto que merecia pouco mais do que duas frases. Por outro lado, eu sempre soube ouvir. No final, são as amenidades como essas que nos mantêm perto daqueles que amamos e, juntos, sempre soubemos preencher nosso amor com o dia a dia. Fosse ela uma pessoa quieta, e viveríamos em um abismo inquieto de segredos.

Na última semana comecei um projeto novo. Nada que valha a pena detalhar para você, mas foi um projeto no qual eu tive que dedicar algumas horas do meu pensamento e me ajudaram a levantar da cama com alguma disposição. Mas agora preciso esperar pela resposta de gente que, aparentemente, tem mais o que fazer do que me dar uma resposta. É o tipo de coisa que já faz meu mundo rodar em outra velocidade. O problema da ansiedade é que ela te obriga a viver cada segundo do presente, quando tudo que você mais deseja é passear um pouco pelo futuro. A minha sorte é que tenho a Teresa para falar por horas sobre os benefícios do suco verde e completar esse vácuo no qual eu me joguei. Porque se o potencial é algo que empurra a nossa realização para o futuro, pelo menos eu sei que estarei com ela quando ele finalmente chegar.

Escrito por André Petrini

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

maculada 0 200

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”