Temporal às sete da noite 0 54

por Carolina Goetten

Hoje de manhã, quando vi você passar do outro lado da rua, eu tive vontade de não morar mais aqui. Pensei que se fosse embora pra Recife ou pra Tailândia, ou se nadasse todos os mares até o país oposto no globo terrestre, onde você nunca iria passar por mim do outro lado da rua, não sentiria esta vontade de chorar que tá até agora grudada na garganta. E já são sete da noite, veja bem.

Mas eu sei que de nada adiantaria. A dor lá fora não é menor que a dor que a gente sente quando está dentro de casa. É que a chuva quando cai faz parecer que a tristeza é grande, que afoga mais o peito, que o mundo encharcou todinho. Tá chovendo tanto e eu tô tão triste, mas não posso ir embora. Eu sei que acolher a dor aqui dentro vai me fazer maior amanhã – como se eu tivesse aumentado um pouquinho de tamanho com essa tristeza que não recusei, para a qual abri minha boca e meu ventre, que acolhi no espaço do meu peito como quem aceita algo que é tão meu quanto as sardas do meu nariz. E vai ser bom tê-la aqui, como uma parte de mim. Não posso deixá-la no meio desse temporal e ir embora pra Tailândia. Ela seguirá comigo até que eu aceite estar triste, que essa dor é toda minha.  Que ela vai aonde eu for.

Dizem que a chuva lava a alma, mas eu acho que ela nos alaga os aposentos do corpo. Só que enquanto tentamos fugir dela não haverá no mundo qualquer canto acolhedor. A minha tristeza cresce e chego a me sentir forte: não preciso fugir porque sou capaz de ficar em casa e aguentar tudo isso aqui dentro e cruzar contigo na rua de novo amanhã, sem ter vontade de correr até que se acabem as fronteiras do mundo.  Eu moro na minha alma, a origem e o fim de tudo que é meu. Eu sou meu próprio passaporte e só irei ao Recife e à Tailândia quando não for mais preciso escapar da tua presença. Mas nesta noite eu não vou sair do meu quarto. Hoje eu não vou a lugar algum.

Deixo chover.

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Geração Alpha 0 119

O comboio chega à estação. O homem a segurar a mão da sua filhinha, 3 ou 4 anos, para embarcarem.

Eis que a porta do vagão não abre sozinha. Não é automática como as portas do Metro, mas ele não sabe; é turista. Deve estar avariada, ele pensa, emperrou. Resolve forçar a porta. Usa toda a sua força mas não consegue. O comboio prestes a partir.

Na altura dos olhos da filha está o botão. Ela mete ali o dedinho e – tchanam! – a porta se abre.

O pai, misto de constrangimento e orgulho, solta um sorriso bobo. Leva a filha para dentro pela mão. Próxima paragem: Belém.

 

Murilo

 

Cruzeiro do Sul 0 119

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.