Temporal às sete da noite 0 101

por Carolina Goetten

Hoje de manhã, quando vi você passar do outro lado da rua, eu tive vontade de não morar mais aqui. Pensei que se fosse embora pra Recife ou pra Tailândia, ou se nadasse todos os mares até o país oposto no globo terrestre, onde você nunca iria passar por mim do outro lado da rua, não sentiria esta vontade de chorar que tá até agora grudada na garganta. E já são sete da noite, veja bem.

Mas eu sei que de nada adiantaria. A dor lá fora não é menor que a dor que a gente sente quando está dentro de casa. É que a chuva quando cai faz parecer que a tristeza é grande, que afoga mais o peito, que o mundo encharcou todinho. Tá chovendo tanto e eu tô tão triste, mas não posso ir embora. Eu sei que acolher a dor aqui dentro vai me fazer maior amanhã – como se eu tivesse aumentado um pouquinho de tamanho com essa tristeza que não recusei, para a qual abri minha boca e meu ventre, que acolhi no espaço do meu peito como quem aceita algo que é tão meu quanto as sardas do meu nariz. E vai ser bom tê-la aqui, como uma parte de mim. Não posso deixá-la no meio desse temporal e ir embora pra Tailândia. Ela seguirá comigo até que eu aceite estar triste, que essa dor é toda minha.  Que ela vai aonde eu for.

Dizem que a chuva lava a alma, mas eu acho que ela nos alaga os aposentos do corpo. Só que enquanto tentamos fugir dela não haverá no mundo qualquer canto acolhedor. A minha tristeza cresce e chego a me sentir forte: não preciso fugir porque sou capaz de ficar em casa e aguentar tudo isso aqui dentro e cruzar contigo na rua de novo amanhã, sem ter vontade de correr até que se acabem as fronteiras do mundo.  Eu moro na minha alma, a origem e o fim de tudo que é meu. Eu sou meu próprio passaporte e só irei ao Recife e à Tailândia quando não for mais preciso escapar da tua presença. Mas nesta noite eu não vou sair do meu quarto. Hoje eu não vou a lugar algum.

Deixo chover.

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Vida comum parte 1 0 107

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 671

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai