Texto de em 05 de Maio de 2016 . Nenhum comentário.

por Carolina Goetten

Hoje de manhã, quando vi você passar do outro lado da rua, eu tive vontade de não morar mais aqui. Pensei que se fosse embora pra Recife ou pra Tailândia, ou se nadasse todos os mares até o país oposto no globo terrestre, onde você nunca iria passar por mim do outro lado da rua, não sentiria esta vontade de chorar que tá até agora grudada na garganta. E já são sete da noite, veja bem.

Mas eu sei que de nada adiantaria. A dor lá fora não é menor que a dor que a gente sente quando está dentro de casa. É que a chuva quando cai faz parecer que a tristeza é grande, que afoga mais o peito, que o mundo encharcou todinho. Tá chovendo tanto e eu tô tão triste, mas não posso ir embora. Eu sei que acolher a dor aqui dentro vai me fazer maior amanhã – como se eu tivesse aumentado um pouquinho de tamanho com essa tristeza que não recusei, para a qual abri minha boca e meu ventre, que acolhi no espaço do meu peito como quem aceita algo que é tão meu quanto as sardas do meu nariz. E vai ser bom tê-la aqui, como uma parte de mim. Não posso deixá-la no meio desse temporal e ir embora pra Tailândia. Ela seguirá comigo até que eu aceite estar triste, que essa dor é toda minha.  Que ela vai aonde eu for.

Dizem que a chuva lava a alma, mas eu acho que ela inunda tudo e faz bagunça dentro da gente. Só que enquanto tentamos fugir dela não haverá no mundo qualquer canto acolhedor. A minha tristeza cresce e chego a me sentir forte: não preciso fugir porque sou capaz de ficar em casa e aguentar tudo isso aqui dentro e cruzar contigo na rua de novo amanhã, sem ter vontade de correr até que se acabem as fronteiras do mundo.  Eu moro na minha alma, a origem e o fim de tudo que é meu. Eu sou meu próprio passaporte e só irei ao Recife e à Tailândia quando não for mais preciso escapar da tua presença. Mas nesta noite eu não vou sair do meu quarto. Hoje eu não vou a lugar algum.

Deixo chover.