Monólogo 1 117

 

É inacreditável…

Acabo de por roupas novas depois de um banho quente e essa porcaria continua gotejando. Em noites normais isso nunca foi problema, mas essa não é uma noite normal, ao menos não para mim. Encontros com possibilidade de intercurso sexual não acontecem todos os dias, e queria causar boa impressão, por isso dessa vez a última gota não pode ser na cueca. E assim continuo balançando, mas parece que cada vez saem mais gotas de mijo.

Impressionante…

A medida que aumento a intensidade da chacoalhada, as gotas vão tomando direções mais aleatórias. A última caiu no papel higiênico, nesse ritmo logo vou me molhar inteiro apenas para salvar minha cueca de melhor elástico…

Funes, o memorioso, personagem de Jorge Luis Borges podia se lembrar de todos os detalhes, sons, odores e sensações que viveu em cada momento desde seu nascimento. Por causa disso, diz-se que ele era incapaz de aprender, porque aprender significa esquecer-se das diferenças, ou algo assim.

Gosto desse conto porque sou uma versão meio às avessas de Funes.  Lembro-me de tudo o que me aconteceu, mas sempre por meio de versões tão possíveis quanto improváveis, como se a memória chegasse a mim por meio de um telefone sem fio passado pelas várias pessoas que já fui até o momento em que preciso acessar aquela lembrança. E assim aprendo, o que aprendi, mas também como posso tê-lo aprendido.

 

***

 

“Sacode! Não, sacode com vontade! Sacudiu? Isso, meu guri!”

O menino se abaixa para levantar a calça, que foi abaixada até o chão.

“Por que eu não abaixo só um pouquinho igual você, pai?”

O pai, com P minúsculo, diz que é porque o menino ainda é pequeno. O menino olha em volta, é verdade. O banheiro masculino é enorme, não se parece nada com o das mulheres, ao qual sua mãe o levava antes, e ao qual ele jamais voltará, porque agora é oficialmente um homem.

Ele estranha, esse banheiro tem muito pouco espaço privado, e muito espaço público. Mas apesar disso, os homens não conversam entre si, na verdade, nem se olham. Ele o percebe, porque não entende as regras, e olha. Olhando, sabe que é pequeno, muito pequeno, tão pequeno que talvez nunca chegue a ser grande como o do Pai, com P maiúsculo.

O pai, com P minúsculo, instruiu o menino a abaixar as calças até o chão não porque ele é pequeno, mas porque o menino poderia se molhar todo. Então ele teria que explicar para a mãe, sempre com M minúsculo, como diabos o filho se sujou justamente na primeira vez que foi ao banheiro na sua companhia.

Lavam suas mãos e saem ao encontro da mãe, os homens que sacodem seus pintos.

 

***

 

E agora estou aqui, sacudindo, tentando não sujar minha melhor cueca.

Eu me pergunto se o pai, com P minúsculo, realmente achava que sacudi-lo era a melhor forma de se limpar. Acredito que não, porque não faz nenhum sentido. Talvez a ideia de sacudir o pinto depois de mijar seja algum tipo de legado que nos deixaram nossos antepassados mais animais, pode ter algo a ver com marcar território.

Mas não tenho mais tempo, agarro um pedaço de papel higiênico e me limpo. Dessa vez, não haverá última gota.

 

Marcelo “Pagode” Rossetin

Crédito Foto:nolievr28 via Compfight cc

 

 

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Vida comum parte 1 0 107

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 669

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra