Texto de em 25 de junho de 2016 . 1 comentário.

 

É inacreditável…

Acabo de por roupas novas depois de um banho quente e essa porcaria continua gotejando. Em noites normais isso nunca foi problema, mas essa não é uma noite normal, ao menos não para mim. Encontros com possibilidade de intercurso sexual não acontecem todos os dias, e queria causar boa impressão, por isso dessa vez a última gota não pode ser na cueca. E assim continuo balançando, mas parece que cada vez saem mais gotas de mijo.

Impressionante…

A medida que aumento a intensidade da chacoalhada, as gotas vão tomando direções mais aleatórias. A última caiu no papel higiênico, nesse ritmo logo vou me molhar inteiro apenas para salvar minha cueca de melhor elástico…

Funes, o memorioso, personagem de Jorge Luis Borges podia se lembrar de todos os detalhes, sons, odores e sensações que viveu em cada momento desde seu nascimento. Por causa disso, diz-se que ele era incapaz de aprender, porque aprender significa esquecer-se das diferenças, ou algo assim.

Gosto desse conto porque sou uma versão meio às avessas de Funes.  Lembro-me de tudo o que me aconteceu, mas sempre por meio de versões tão possíveis quanto improváveis, como se a memória chegasse a mim por meio de um telefone sem fio passado pelas várias pessoas que já fui até o momento em que preciso acessar aquela lembrança. E assim aprendo, o que aprendi, mas também como posso tê-lo aprendido.

 

***

 

“Sacode! Não, sacode com vontade! Sacudiu? Isso, meu guri!”

O menino se abaixa para levantar a calça, que foi abaixada até o chão.

“Por que eu não abaixo só um pouquinho igual você, pai?”

O pai, com P minúsculo, diz que é porque o menino ainda é pequeno. O menino olha em volta, é verdade. O banheiro masculino é enorme, não se parece nada com o das mulheres, ao qual sua mãe o levava antes, e ao qual ele jamais voltará, porque agora é oficialmente um homem.

Ele estranha, esse banheiro tem muito pouco espaço privado, e muito espaço público. Mas apesar disso, os homens não conversam entre si, na verdade, nem se olham. Ele o percebe, porque não entende as regras, e olha. Olhando, sabe que é pequeno, muito pequeno, tão pequeno que talvez nunca chegue a ser grande como o do Pai, com P maiúsculo.

O pai, com P minúsculo, instruiu o menino a abaixar as calças até o chão não porque ele é pequeno, mas porque o menino poderia se molhar todo. Então ele teria que explicar para a mãe, sempre com M minúsculo, como diabos o filho se sujou justamente na primeira vez que foi ao banheiro na sua companhia.

Lavam suas mãos e saem ao encontro da mãe, os homens que sacodem seus pintos.

 

***

 

E agora estou aqui, sacudindo, tentando não sujar minha melhor cueca.

Eu me pergunto se o pai, com P minúsculo, realmente achava que sacudi-lo era a melhor forma de se limpar. Acredito que não, porque não faz nenhum sentido. Talvez a ideia de sacudir o pinto depois de mijar seja algum tipo de legado que nos deixaram nossos antepassados mais animais, pode ter algo a ver com marcar território.

Mas não tenho mais tempo, agarro um pedaço de papel higiênico e me limpo. Dessa vez, não haverá última gota.

 

Marcelo “Pagode” Rossetin

Crédito Foto:nolievr28 via Compfight cc

 

 

  • Claudia Rossetin

    Acho que vou rir todas as vezes que eu ler.