Texto de em 06 de junho de 2016 . Nenhum comentário.

Um amigo que já foi meu amante me instigou a voltar à prosa, a buscar outra vez um exercício de ordenação e coerência quase semântica de meus abismos. Eu respondi que ando afogada demais para conceber meu discurso entre parágrafos ou construir uma lógica contínua de vírgulas e pontos finais e letras maiúsculas ao início da frase seguinte. Que venho recorrendo à poesia como recurso para traduzir coisas que se expressam numa desordem que não compreendo, para salivar as afluências e ruídos da alma, em conceitos que não precisam ser literais ou articular um universo coeso de raciocínio. Não há como fugir dos versos agora que estou enlouquecendo. A prosa na mente de água, no peito reconvexo, põe-me impelida à mudez. E no caminho reto em que me algema eu sigo como débil poeta em busca d’um desvio rebelde, duma passagem secreta, de alguma maneira qualquer de transgredir.

Mas ele me disse que falta evasão em meu raciocínio. E me desperta ao Saramago, que escreve diálogos sem travessão, e ao Castelo Branco, que usa o dois-pontos de uma maneira à qual atribuo uma beleza quase desaforada: dois-pontos seguidos um do outro, repetidos na mesma oração: eu sou capaz de chorar por meses sob efeito desse eco, dessa força literária cujos resíduos permanecem dentro de mim como uma névoa intermitente. “Olhei a fisionomia dele: era sempre a mesma fisionomia: severa e fria, triste e um não sei quê de desprezadora”. Leio-a com a sensação de que a frase está sempre por recomeçar; que seu dizer nunca se encerra.

Eu enfim me entrego. É então possível desconectar-se à lógica de um percurso linear porque não é só o poema que sorve e palpita em lirismo. No caminhar das palavras a prosa não precisa ser literal se não quiser, nem há um protótipo reprodutível, um modelo pronto, um arquétipo arrogante que me expulsa de atuar em seu território porque eu tenho coração demais. Acho até que ela não tem tempo para se explicar enquanto corre pelas páginas letra após letra até o fim do espaço, e depois na linha abaixo, até espalhar-se pela folha dizendo coisas imensas sempre num traçado absoluto e de novo embaixo e mais e mais. Seu proceder carrega algo de infinito.

Penso que meu amigo que já foi meu amante é a prosa de carne que me desafia a ir além, a enxergar os ossos ocultos sob a mais grossa das peles e, embaixo dela, as coisas que não se podem ver. O fim do céu nunca chega e sempre há espaço para mais uma linha. A prosa jamais será um poema simplesmente porque não o é, porque se situa num outro universo em meio à busca incessante por expressar o que jamais pode ser dito; mas também dança um samba fino quando há coesão entre os acordes silábicos da sua partitura.

Meu amigo é como bom poema, ou boa prosa: uma daquelas em que os dois-pontos se sucedem numa pausa breve, como se a história permanecesse sempre disposta a começar outra vez: ainda hoje sabe pôr coração nas palavras que me diz.

Texto: Carolina Goetten
Ilustração: Caroline Rehbein