Batata frita 6 142

Anna fritou batata para si, sozinha em casa. Depois de tirar para esfriar esqueceu fogo ligado no alto e deitou para descansar os olhos.

O óleo queimou o fundo da panela, derreteu os cabos e manchou o azulejo das paredes, mais armários de fórmica e teto. A gordura espessa se alastrou.

Ela acordou com lágrimas de fumaça e tosse. Ficou doente na hora, de fuligem. Tapou o rosto com um sutiã de bojo reforçado e se esgueirou no nevoeiro rumo ao fogão. Os olhos arderam. Uma estufa tóxica em seu três-peças-de-fundo, no Campina do Siqueira. Tentou socorro, mas estava muda, com a garganta tão desmineralizada quanto o cérebro. Abriu a geladeira para respirar um pouco de ar puro. Olhou para o fogo: labareda: duende do inferno. Encheu um copão de água e jogou sobre o incêndio.

Tudo ficou preto. A vizinha Célia sentiu perigo e gritou alguma palavra que não deu para distinguir. Anna tropeçou numa caixa de pizza ao lado da geladeira, sem conseguir dar resposta. Enfiou a mão esquerda nos restos de um copo quebrado, espalhado sobre sua pá-de-catar-com-vassourinha. Ficou no chão.

Lembrou  do dinheiro emprestado para uma amiga que só gostava de sentar para beber e falar do que não sabia. Bilíngue: português e groselha. A devolução da grana faria bem, porque ia precisar de pontos para fechar os buracos da mão que limpou na blusa branca. De olhos fechados e costas geladas no piso de concreto, sem revestimento, ouviu os cachorros do bairro e a vizinha mais perto. Lembrou de seu time-dos-sonhos de suicidas: Sócrates por coerência, Elis de louca, Getúlio – isolado e traído, Leila Lopes, Phillip Seymour Hoffmann de O Mestre, Walmor Chagas e Amy Winehouse – overdose de tristeza com o inferno que inventaram ao redor dela. Lembrou das equipes Kirchner. Tanta ideia mal-orientada sob o mesmo teto que olha. A casa era rosada de vergonha. Equívocos e pequenos golpes. Pequenos golpes e novos equívocos. Lembrou de cenas variadas de homens adultos chorando. Coisa feia, mas queria ver alguns dos caras, porque ainda era um pouco apaixonada por três deles. Lembrou que precisava responder uns whats. Lembrou do Mercadorama, ontem. A fila de quinze minutos não era culpa dos funcionários. Lembrou do motoboy do trampo e do filho recém-nascido dele, Rei Arthur. Lembrou de um cara-qualquer-de-buzzfeed que foi fotografar a Fukushima pós-tragédia para comer chocolate em algum supermercado abandonado. Lembrou de tomar a pílula anticoncepcional diária quando conseguisse levantar; que convivia com muita gente viciada em remédios; que precisava dormir melhor; que as roupas limpas no varal deixariam de sê-lo. Lembrou que odiava Franz Ferdinand, Eminem, Anitta, Fernando & Sorocaba, Wesley Safadão, Roberto Carlos, Jota Quest, Metallica, Iron Maiden, AC/DC, Caetano Veloso, a cópia Eduardo Costa, o original Zezé di Camargo, o irmão Luciano, Wanessa & Zilu.

Anna de rosto protegido, pronta para desmaiar. Célia atacou a porta e entrou, feita de luz e vento.

 

 

Ilustração Nina Zambiassi & Débora Berté

Texto Marco Antonio Santos

 

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra