Texto de em 21 de julho de 2016 . Nenhum comentário.

Quando as pessoas passam ali por cima da ponte e me veem pescando aqui no Rio Belém, devem pensar que eu sou um idiota, ou muito otimista – o que, no fundo, acaba sendo a mesma coisa – mas acontece que ultimamente apareceram uns peixes por aqui. Eu já vi de tudo nesse rio esgoto, sabe. Lixo, garrafa, pneu, merda humana, sofá e buquê de flores. Agora deu de aparecer uns peixinho, é mole? Aqui perto da BR com a Salgado Filho. Se dá pra comer? Aí já é outra história. Deve vir todo fodido e cheio de doença.

Eu já fui muito de pescar assim em beira de rio. Nada de barco, molinete e horas de espera; era ali, vara de bambu tirando um atrás do outro. Com as mulheres a mesma coisa, nunca fui homem de um peixe só. Na foto ou no samburá fica até bonito, mas bom mesmo é quando tá ali no anzol, recém fisgado. A linha esticada dá um tesão que só.

Nos últimos trinta anos, já fisguei mulher de todo tipo. As maior, as menor, as mais fácil e as mais difícil; as que prendem a isca lá na garganta e não tem como tirar sem machucar. E também as famosas peixe enrosco, ou ainda as toroço, que nem uns que aparecem no Belém. Não que eu seja um Don Juan, um galã de novela, nada disso. É que eu manjo de puxar na hora certa, sabe, enquanto a maioria dos homens por aí puxam muito cedo ou muito tarde.

Há uns sete anos, quem diria, foi a Roberta quem me fisgou. Pô, achei que não fosse acontecer, mas ela tinha aquele jeito que pega a gente de jeito. A gente casou e fez uma grande festa. Se eu senti que ela era o amor da minha vida? Sim, claro. Se depois disso eu sosseguei e parei de tacar minha vara por aí? Não, claro que não. São coisas diferentes, tem que saber separar. E eu acho que logo ela descobriu que acontecia assim. Elas sempre descobrem, né?

Só que ultimamente eu tenho desconfiado que a Roberta também está dando seus pulos por aí com a vara dos outros. É foda. Faz alguns meses que isso tem se arrastado. Eu com meus rolos por fora e ela com cara de santa; mas com o vizinho é aquela simpatia que eu nunca vi igual. Filhos da puta.

Mas tudo bem, a gente vai levando. Hoje, consegui tirar uns quatro peixes ali do Belém. Já faz umas semanas que pesco e levo pra casa. Limpo as escamas e as entranhas, falo pra Roberta que peguei na peixaria e tá tudo certo. Daí a gente almoça e eu vejo ela se deliciar. Fritinho, à milanesa ou até mesmo um ensopado: Moquequinha de Belém. Eu fico na carne de boi ou frango mesmo; ela sabe que eu nunca fui muito de comer qualquer coisa que vem do rio ou do mar.

É que tem gente que gosta de peixe, e tem gente que gosta mesmo é de pescar.

 

Murilo.

Arte: Nina Zambiassi