Moquequinha de Belém 0 92

Quando as pessoas passam ali por cima da ponte e me veem pescando aqui no Rio Belém, devem pensar que eu sou um idiota, ou muito otimista – o que, no fundo, acaba sendo a mesma coisa – mas acontece que ultimamente apareceram uns peixes por aqui. Eu já vi de tudo nesse rio esgoto, sabe. Lixo, garrafa, pneu, merda humana, sofá e buquê de flores. Agora deu de aparecer uns peixinho, é mole? Aqui perto da BR com a Salgado Filho. Se dá pra comer? Aí já é outra história. Deve vir todo fodido e cheio de doença.

Eu já fui muito de pescar assim em beira de rio. Nada de barco, molinete e horas de espera; era ali, vara de bambu tirando um atrás do outro. Com as mulheres a mesma coisa, nunca fui homem de um peixe só. Na foto ou no samburá fica até bonito, mas bom mesmo é quando tá ali no anzol, recém fisgado. A linha esticada dá um tesão que só.

Nos últimos trinta anos, já fisguei mulher de todo tipo. As maior, as menor, as mais fácil e as mais difícil; as que prendem a isca lá na garganta e não tem como tirar sem machucar. E também as famosas peixe enrosco, ou ainda as toroço, que nem uns que aparecem no Belém. Não que eu seja um Don Juan, um galã de novela, nada disso. É que eu manjo de puxar na hora certa, sabe, enquanto a maioria dos homens por aí puxam muito cedo ou muito tarde.

Há uns sete anos, quem diria, foi a Roberta quem me fisgou. Pô, achei que não fosse acontecer, mas ela tinha aquele jeito que pega a gente de jeito. A gente casou e fez uma grande festa. Se eu senti que ela era o amor da minha vida? Sim, claro. Se depois disso eu sosseguei e parei de tacar minha vara por aí? Não, claro que não. São coisas diferentes, tem que saber separar. E eu acho que logo ela descobriu que acontecia assim. Elas sempre descobrem, né?

Só que ultimamente eu tenho desconfiado que a Roberta também está dando seus pulos por aí com a vara dos outros. É foda. Faz alguns meses que isso tem se arrastado. Eu com meus rolos por fora e ela com cara de santa; mas com o vizinho é aquela simpatia que eu nunca vi igual. Filhos da puta.

Mas tudo bem, a gente vai levando. Hoje, consegui tirar uns quatro peixes ali do Belém. Já faz umas semanas que pesco e levo pra casa. Limpo as escamas e as entranhas, falo pra Roberta que peguei na peixaria e tá tudo certo. Daí a gente almoça e eu vejo ela se deliciar. Fritinho, à milanesa ou até mesmo um ensopado: Moquequinha de Belém. Eu fico na carne de boi ou frango mesmo; ela sabe que eu nunca fui muito de comer qualquer coisa que vem do rio ou do mar.

É que tem gente que gosta de peixe, e tem gente que gosta mesmo é de pescar.

 

Murilo.

Arte: Nina Zambiassi

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”