A puta da calcinha preta 0 186

Paradas as duas estavam ali todo dia. Glória e Capitu faziam ponto naquele local há mais de trinta anos. Modo de dizer, trinta anos elas tinham de carreira. No Passeio Público foram chegando com o passar do tempo. Conheciam todo o movimento da região, conheciam todas as meninas que trabalhavam por ali. Hoje em dia elas só trabalhavam recebendo as novas meninas que chegam, aliciavam-nas na vida. Cafetinas, conquistaram essa função com o tempo, ficam paradas a espera e todos os dias chega menina nova, que veio de longe, drogada, pura, pobre, chega de tudo.

As duas putas são as santas da região, maior escalão na hierarquia da vida, logo que chega alguma perdida, os taxistas os antigos clientes ou as velhas meninas, todos indicam Glória e Capitu. Trabalhar assim fazia com que Glória sempre se recordasse de Fatal, a santa que a ajudou quando chegou na rua. As meninas chegam dizendo que querem ser putas e muitas ficam trabalhando pras duas por anos.

Era lá pelas três da tarde quando chegou mais uma.

– Quem é Glória? Perguntou a menina que parecia ter no máximo uns 16 anos, vestia um jeans fora de moda, uma cacharréu e um moletom que pareciam ter saído de uma caixa esquecida dos anos 80. Pelo sotaque parecia ser gente muito simples, de qualquer lugar por ai. Glória lembrou de si mesma.

– Quem quer saber menina? Glória disse encarando a jovem que mal conseguia olhar nos olhos e não por timidez mas por safadeza.

– Sou Márrrcia, mas pode me chamar de Marrrcinha. Enquanto falava tirou o olhar do chão e fitou Glória por alguns segundos voltando a olhar pro chão.

Marcinha é? Pensou Glória. Gracinha. Facinha. Tinha que perguntar, era o rito de passagem, uma pergunta teste que definiria qual puta Marcinha seria.

– Quer ser minha puta Marcinha?  Glória sempre foi direto ao ponto.

– Quero. Respondeu séria com um olhar vibrante.

Olhou Marcinha dos pés à cabeça e fez a pergunta crucial.

– E qual cor é tua calcinha?

– Aaaah! Fez cara de safada e santa e respondeu: é vermelha.

Glória deu um sorrisinho torto, sabia o que significava. Convidou Marcinha pra caminhar enquanto falavam de negócios. Capitu permaneceu no ponto a espera demais meninas.

Caminhando e aliciando a nova menina, Glória lembrou-se que em seu primeiro encontro com Fatal usava uma calcinha preta.

 

 

Texto e Ilustração: Caroline Rehbein

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra