Texto de em 08 de agosto de 2016 . Nenhum comentário.

Paradas as duas estavam ali todo dia. Glória e Capitu faziam ponto naquele local há mais de trinta anos. Modo de dizer, trinta anos elas tinham de carreira. No Passeio Público foram chegando com o passar do tempo. Conheciam todo o movimento da região, conheciam todas as meninas que trabalhavam por ali. Hoje em dia elas só trabalhavam recebendo as novas meninas que chegam, aliciavam-nas na vida. Cafetinas, conquistaram essa função com o tempo, ficam paradas a espera e todos os dias chega menina nova, que veio de longe, drogada, pura, pobre, chega de tudo.

As duas putas são as santas da região, maior escalão na hierarquia da vida, logo que chega alguma perdida, os taxistas os antigos clientes ou as velhas meninas, todos indicam Glória e Capitu. Trabalhar assim fazia com que Glória sempre se recordasse de Fatal, a santa que a ajudou quando chegou na rua. As meninas chegam dizendo que querem ser putas e muitas ficam trabalhando pras duas por anos.

Era lá pelas três da tarde quando chegou mais uma.

– Quem é Glória? Perguntou a menina que parecia ter no máximo uns 16 anos, vestia um jeans fora de moda, uma cacharréu e um moletom que pareciam ter saído de uma caixa esquecida dos anos 80. Pelo sotaque parecia ser gente muito simples, de qualquer lugar por ai. Glória lembrou de si mesma.

– Quem quer saber menina? Glória disse encarando a jovem que mal conseguia olhar nos olhos e não por timidez mas por safadeza.

– Sou Márrrcia, mas pode me chamar de Marrrcinha. Enquanto falava tirou o olhar do chão e fitou Glória por alguns segundos voltando a olhar pro chão.

Marcinha é? Pensou Glória. Gracinha. Facinha. Tinha que perguntar, era o rito de passagem, uma pergunta teste que definiria qual puta Marcinha seria.

– Quer ser minha puta Marcinha?  Glória sempre foi direto ao ponto.

– Quero. Respondeu séria com um olhar vibrante.

Olhou Marcinha dos pés à cabeça e fez a pergunta crucial.

– E qual cor é tua calcinha?

– Aaaah! Fez cara de safada e santa e respondeu: é vermelha.

Glória deu um sorrisinho torto, sabia o que significava. Convidou Marcinha pra caminhar enquanto falavam de negócios. Capitu permaneceu no ponto a espera demais meninas.

Caminhando e aliciando a nova menina, Glória lembrou-se que em seu primeiro encontro com Fatal usava uma calcinha preta.

 

 

Texto e Ilustração: Caroline Rehbein