Do lado de cá da Saldanha 1 230

Entre o cruzamento de estradas radiais, transversais e longitudinais, cercada pela arquitetura corporativa e cidadãos engravatados – cuja sobriedade é transgredida por esquinas dispostas à margem, que denunciam cotidianos bem menos empresariais – situa-se a casa onde eu moro.

Posso escolher diferentes roteiros para chegar até ela. A noroeste, a paisagem nostálgica do centro histórico constrói o caminho do Largo da Ordem, num corredor aprazível quando em dia de sol, e ainda mais bonito quando este se põe. Abaixo, a alameda Augusto Stelfeld conduz com rapidez os motoristas apressados a bairros nobres da cidade, ávidos pelo desembarque em suas amplas e aconchegantes salas de estar, pelo controle da Smart TV, pelo aroma da cerveja importada. Numa rua transversal à minha transcorre a Cruz Machado, cenário de diversas lojinhas de produtos naturais e assistências técnicas que nunca têm as peças necessárias para o conserto prometido dos equipamentos. Acima dela, o restaurante-dançante-Pantera-Negra acomoda notívagos em qualquer grau de embriaguez. Completando o leque de itinerários que me escoltam à porta de casa, pouco mais ao sul, a rua onde moro desemboca precisamente na Boca Maldita. A praça, rodeada de cafés, de engraxates e de velhos cavaleiros jamais fartos de discutir política, é palco de um incessante ir-e-vir no calçadão da rua XV de Novembro.

Dentre todos, porém, o único caminho que como filha me acolhe perpassa um trecho da Saldanha Marinho. A rua se abre no coração da cidade e talvez por isso seja a fonte de todo o seu sentir, das pulsações, dos batimentos; surge na catedral da praça Tiradentes – o marco zero de Curitiba – e, como o preâmbulo de tudo que existe, é ali que a vida desperta. A cada passo em frente deixo atrás pequenos restaurantes, a casa de fumo, as bicicletas com garupa dos jovens entregadores de água mineral, os bares, os bares e os bares; de uma ponta da quadra à outra, numa ocasião, já topei com uma freira no início e uma prostituta no final, que compartilham o ambiente em respeito mútuo. Há espaço para qualquer semelhança e qualquer diferença naquele pedaço de mundo. Na Saldanha, a vida é permitida a todos e é privilégio de ninguém.

Passo por ali sempre que o acaso me possibilita escolher o rumo dos meus passos. Há quem a evite, quem a rejeite e até quem lhe sinta aversão, pelo estigma de ponto de venda de drogas, pela prostituição declarada, pelo andar soberano com que transitam as travestis. Mas ali sobrevive uma Curitiba de outros tempos, quando os prédios não apinhavam pessoas nem enriqueciam imobiliárias. As portas das casas ainda se abrem para as ruas, os vizinhos se reconhecem, há freiras e há prostitutas que preservam o valor da partilha.

O que mais me encanta é a presença de quem se reconhece como império duradouro, enquanto chega a zombar da má fama que lhe foi atribuída. A Saldanha tem uma postura inabalável de rua que já está na vida há muito tempo para dar corda a falatórios, a pequenezas dos burgueses, a cismas de quem não sabe a vida que desperdiça ao evitar suas calçadas. Convivem sem tensão donos de banquinhas e travestis; senhorinhas e senhorinhos entre sacolas de supermercado; eu, que transito a cantar. Jamais um desrespeito me foi proferido e nunca me senti insegura quando a atravesso, no andar ou no pedal, atenta ou distraída, ardente de saudades ou ansiosa para estar só.

Desde seu desabrochar, na Tiradentes, a Saldanha se prolonga por mais quatro quilômetros. Cinco ou seis quadras adiante, desaparece pouco a pouco a arquitetura nostálgica, que dá lugar a casas luxuosas no bairro nobre do Batel. Já li sobre a região e sei que os moradores reclamam dos assaltos e da violência. Mas violenta, para mim, é a profunda desigualdade que se escancara de uma extremidade à outra da rua, com excesso para uns e falta para tantos outros. Talvez eu goste de fazer dela meu trajeto cotidiano porque sinto que ali pulsa a mais inescapável dentre todas as verdades: das cortinas de seda aos moribundos e marginalizados, a Saldanha começa e termina gritando que o mundo é injusto.

Dia desses pesquisei sobre o sujeito que dá nome à rua. Saldanha Marinho foi mais um dentre os homens ricos e brancos que, segundo os relatos que nos contam, fizeram a História acontecer. Foi grão-mestre da maçonaria, deputado, senador, advogado, jornalista e tudo o mais que quisesse, porque as oportunidades seguem uma lógica diferente para quem tem dinheiro.

Se me fosse possível rebatizá-la, a rua se chamaria Carolina Maria de Jesus, escritora, preta, mulher, as portas batidas na cara, a voz dos sem-palavra. Fez poesia em cadernos que encontrava no lixo. Temos o mesmo nome, mas meu destino já foi outro desde que nasci: nunca me faltaram cadernos para escrever quando e o quanto quisesse.

Não há cortinas de seda capazes de abafar o grito da Saldanha. Eu volto por ali para ouvir sua algazarra, para lembrar-me sempre de que a vida é injusta; que entre Carolinas de mesmo sonho a desumanidade ergueu um imenso abismo. Munida da caneta e do papel eu preparo o gatilho. Há muito declarei guerra contra as atrocidades do mundo, e nessa batalha eu já me posicionei: estou do lado de cá da Saldanha Marinho.

por Carolina Goetten

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1 Comment

  1. carolina, adorei teu texto,como curitibano exilado a mais de 30 anos na suiça tinha “esquecido” da saldanha, nossa como pode,durante bom tempo caminhei da tiradentes ate a praça espanha, onde morava uma guria que era minha paixao na epoca, nunca pegava outra rua, nem tampouco o busao vicente machado, adorava caminhar por ela,estreita, sombreada, cheia de vida e lojinhas nas primeiras quadras,depois por tras da antiga secretaria de educaçao do pr, ate a rua larga que antes tinha um riacho com muitos choroes,depois canalizaram e cobriram o rio,fernando moreira? dai começava a subir ate a espanha, e ao paraiso que eram os beijos da minha amada. alem do bucolico do teu texto tmb gostei da analogia politica,onde a saldanha representa perfeitamente a cwb de ontem, e talvez de hj, ligaçao direta entre os puteiros atras da catedral e o burgues bem situado. obrigado por me lembrar.

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Dai-me Amor 0 239

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 384

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.