Do lado de cá da Saldanha 1 90

Entre o cruzamento de estradas radiais, transversais e longitudinais, cercada pela arquitetura corporativa e cidadãos engravatados – cuja sobriedade é transgredida por esquinas dispostas à margem, que denunciam cotidianos bem menos empresariais – situa-se a casa onde eu moro.

Posso escolher diferentes roteiros para chegar até ela. A noroeste, a paisagem nostálgica do centro histórico constrói o caminho do Largo da Ordem, num corredor aprazível quando em dia de sol, e ainda mais bonito quando este se põe. Abaixo, a alameda Augusto Stelfeld conduz com rapidez os motoristas apressados a bairros nobres da cidade, ávidos pelo desembarque em suas amplas e aconchegantes salas de estar, pelo controle da Smart TV, pelo aroma da cerveja importada. Numa rua transversal à minha transcorre a Cruz Machado, cenário de diversas lojinhas de produtos naturais e assistências técnicas que nunca têm as peças necessárias para o conserto prometido dos equipamentos. Acima dela, o restaurante-dançante-Pantera-Negra acomoda notívagos em qualquer grau de embriaguez. Completando o leque de itinerários que me escoltam à porta de casa, pouco mais ao sul, a rua onde moro desemboca precisamente na Boca Maldita. A praça, rodeada de cafés, de engraxates e de velhos cavaleiros jamais fartos de discutir política, é palco de um incessante ir-e-vir no calçadão da rua XV de Novembro.

Dentre todos, porém, o único caminho que como filha me acolhe perpassa um trecho da Saldanha Marinho. A rua se abre no coração da cidade e talvez por isso seja a fonte de todo o seu sentir, das pulsações, dos batimentos; surge na catedral da praça Tiradentes – o marco zero de Curitiba – e, como o preâmbulo de tudo que existe, é ali que a vida desperta. A cada passo em frente deixo atrás pequenos restaurantes, a casa de fumo, as bicicletas com garupa dos jovens entregadores de água mineral, os bares, os bares e os bares; de uma ponta da quadra à outra, numa ocasião, já topei com uma freira no início e uma prostituta no final, que compartilham o ambiente em respeito mútuo. Há espaço para qualquer semelhança e qualquer diferença naquele pedaço de mundo. Na Saldanha, a vida é permitida a todos e é privilégio de ninguém.

Passo por ali sempre que o acaso me possibilita escolher o rumo dos meus passos. Há quem a evite, quem a rejeite e até quem lhe sinta aversão, pelo estigma de ponto de venda de drogas, pela prostituição declarada, pelo andar soberano com que transitam as travestis. Mas ali sobrevive uma Curitiba de outros tempos, quando os prédios não apinhavam pessoas nem enriqueciam imobiliárias. As portas das casas ainda se abrem para as ruas, os vizinhos se reconhecem, há freiras e há prostitutas que preservam o valor da partilha.

O que mais me encanta é a presença de quem se reconhece como império duradouro, enquanto chega a zombar da má fama que lhe foi atribuída. A Saldanha tem uma postura inabalável de rua que já está na vida há muito tempo para dar corda a falatórios, a pequenezas dos burgueses, a cismas de quem não sabe a vida que desperdiça ao evitar suas calçadas. Convivem sem tensão donos de banquinhas e travestis; senhorinhas e senhorinhos entre sacolas de supermercado; eu, que transito a cantar. Jamais um desrespeito me foi proferido e nunca me senti insegura quando a atravesso, no andar ou no pedal, atenta ou distraída, ardente de saudades ou ansiosa para estar só.

Desde seu desabrochar, na Tiradentes, a Saldanha se prolonga por mais quatro quilômetros. Cinco ou seis quadras adiante, desaparece pouco a pouco a arquitetura nostálgica, que dá lugar a casas luxuosas no bairro nobre do Batel. Já li sobre a região e sei que os moradores reclamam dos assaltos e da violência. Mas violenta, para mim, é a profunda desigualdade que se escancara de uma extremidade à outra da rua, com excesso para uns e falta para tantos outros. Talvez eu goste de fazer dela meu trajeto cotidiano porque sinto que ali pulsa a mais inescapável dentre todas as verdades: das cortinas de seda aos moribundos e marginalizados, a Saldanha começa e termina gritando que o mundo é injusto.

Dia desses pesquisei sobre o sujeito que dá nome à rua. Saldanha Marinho foi mais um dentre os homens ricos e brancos que, segundo os relatos que nos contam, fizeram a História acontecer. Foi grão-mestre da maçonaria, deputado, senador, advogado, jornalista e tudo o mais que quisesse, porque as oportunidades seguem uma lógica diferente para quem tem dinheiro.

Se me fosse possível rebatizá-la, a rua se chamaria Carolina Maria de Jesus, escritora, preta, mulher, as portas batidas na cara, a voz dos sem-palavra. Fez poesia em cadernos que encontrava no lixo. Temos o mesmo nome, mas meu destino já foi outro desde que nasci: nunca me faltaram cadernos para escrever quando e o quanto quisesse.

Não há cortinas de seda capazes de abafar o grito da Saldanha. Eu volto por ali para ouvir sua algazarra, para lembrar-me sempre de que a vida é injusta; que entre Carolinas de mesmo sonho a desumanidade ergueu um imenso abismo. Munida da caneta e do papel eu preparo o gatilho. Há muito declarei guerra contra as atrocidades do mundo, e nessa batalha eu já me posicionei: estou do lado de cá da Saldanha Marinho.

por Carolina Goetten

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1 Comment

  1. carolina, adorei teu texto,como curitibano exilado a mais de 30 anos na suiça tinha “esquecido” da saldanha, nossa como pode,durante bom tempo caminhei da tiradentes ate a praça espanha, onde morava uma guria que era minha paixao na epoca, nunca pegava outra rua, nem tampouco o busao vicente machado, adorava caminhar por ela,estreita, sombreada, cheia de vida e lojinhas nas primeiras quadras,depois por tras da antiga secretaria de educaçao do pr, ate a rua larga que antes tinha um riacho com muitos choroes,depois canalizaram e cobriram o rio,fernando moreira? dai começava a subir ate a espanha, e ao paraiso que eram os beijos da minha amada. alem do bucolico do teu texto tmb gostei da analogia politica,onde a saldanha representa perfeitamente a cwb de ontem, e talvez de hj, ligaçao direta entre os puteiros atras da catedral e o burgues bem situado. obrigado por me lembrar.

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Cruzeiro do Sul 0 106

Para Gal

 

Navegar pelo mar Mediterrâneo ou pelos outros mares interiores da pequena Europa era relativamente seguro. As distâncias sempre foram curtas e, mesmo durante as noites, Alfa de Ursa Menor oferecia aos marinheiros uma orientação segura. Todas as estrelas e constelações do hemisfério norte orbitam em torno da estrela polar e a partir dela se sabia para onde ir ou qual direção evitar.

– Você é o brasileiro mais calado que eu conheço, sabia?

– Isso não é muito, sou o único brasileiro que você conhece.

– Não é verdade. Não te contei que eu morei dois anos em Salvador?

– Ah, então é por isso. Eu sou de Curitiba, e os curitibanos não falam muito.

– Mas eu também vivi em Curitiba, por seis meses. Dava aulas de inglês em uma escola de línguas. Eles nunca me pagaram e depois disso passei uma temporada trabalhando na Ilha do Mel. E insisto que você fala muito pouco.

Os silêncios de Antonio a desesperaram desde o primeiro contato. É que apesar dele sempre ter demonstrado interesse, e de que ao longo de toda a convivência sempre tenha sido tão atencioso quanto um companheiro pode ser, ela sentia que as palavras eram a forma mais eficiente para se evitar qualquer mal entendido. Aprendeu cedo que suas atitudes eram condicionadas pelos seus discursos e, por isso, ao longo de seus relacionamentos descobriu o quanto os homens tentam por meio das palavras (ou da falta delas) manter sua liberdade de ação.

Por isso, cada demonstração de afeto desacompanhada da correspondente declaração lhe provocava calafrios. Ainda pior era ver que tinha se interessado, outra vez, por um desses homens que abraçam pouco e falam menos ainda.

– Me dá um beijo?

– Bobo, há coisas que não se pergunta.

– Mas como eu posso conseguir coisas quando elas dependem de outras pessoas?

– Aí você tem que ter a coragem de tomar uma atitude e esperar que seja correspondido.

Para ele, eram justamente as palavras que provocavam os males entendidos. Tinha muita dificuldade em traduzir ao português, e depois ao inglês, ao espanhol, ao francês, o alcance e a intensidade de seus desejos, medos e aspirações mais profundas. Acreditava sinceramente que o olhar, o sorriso e a expressão corporal eram representações muito mais inequívocas de todos os conflitos pelos quais passava.

– Me escreve uma carta?

– Esqueceu que há coisas que não se pergunta?

– Eu sei, mas eu quero uma carta. Além do mais, você é que tem que tomar a iniciativa.

– Mas eu tomei, até pedi um beijo.

Ao fim e ao cabo, ele conseguiu não só um, mas incontáveis beijos. Molhados de saliva, molhados de suor, molhados de lágrimas. Doces, salgados, amargos. Distantes, próximos, falados, abraçados. Bianca também conseguiu mais cartas do que qualquer pessoa que houvera conhecido. Cartas enviadas de outras cidades, outros países, outros continentes. Cartas pretéritas, presentes, futuras, perfeitas e mais-que-perfeitas. Algumas sequer lhe eram endereçadas, mas à mulher que um dia havia sido, ou à mulher que talvez viesse a ser.

Abaixo da linha do equador existe outro mundo. A estrela polar desaparece no horizonte e mesmo as constelações conhecidas abandonam seu comportamento habitual. Nas noites de outono o imponente caçador Órion descansa deitado, acompanhado das Três Marias que compõem seu cinturão.

Do lado de cá nada é seguro como do lado de lá. Mesmo o Cruzeiro do Sul, que serve de bússola com seu ponteiro indicando o meridiano, nasce no leste e se põe no oeste como todos os corpos celestes. Há pouco espaço para certezas quando se navega por águas desconhecidas.

Daqui é curioso olhar que Antonio e Bianca inverteram as posições. Não porque seja um fenômeno particularmente comum em relacionamentos tão duradouros, mas porque a intromissão de um terceiro elemento sempre provoca transformações profundas.

Agora é Antonio quem busca estar sempre por perto e, ao sentir que a pouca distância ainda é muito longe, se agarra desesperadamente às palavras. Fala sobre as estrelas e as constelações, e como elas não são as mesmas nos dois hemisférios. Fala sobre o regime das marés, e como eles são influenciados pelos movimentos lunares. Fala tão corretamente quanto possível, cuidando da colocação pronominal, muito mais complicada no português do que em qualquer outro idioma que conhece.

E diante da impotência em estabelecer o contato que tanto busca, se vê refletido nos olhos dela. Tenta entrar, e fala que vai cuidar de tudo. Não como quem sabe que pode cuidar de tudo. Nem como quem acha que pode cuidar de tudo. Sequer como quem acredita que pode cuidar de tudo. Fala que vai cuidar de tudo como quem implora permissão para cuidar de pelo menos uma parte de tudo o que pode acontecer dali em diante.

Para ela, as palavras já perderam muito do seu sentido. Não é insensível à cena. Tampouco é demasiado tarde para ele. Mas ela sentiu no próprio corpo o amor que ali cresceu nos últimos meses, e percebe que ele não precisa de linguagem para se expressar.

Como um marinheiro perdido, Antonio assiste cada nova estria com o mesmo estupor com que os antigos navegantes miravam o céu sem a estrela polar. Compara aquela esfera crescente com o universo em expansão e busca, nas novas formas e desenhos, algum sentido de orientação. É inútil, os dias passam e ele não sabe o que esperar.

Ela o surpreende com um olhar grato e condescendente. A gratidão por saber que tem ao seu lado a melhor pessoa possível, e a condescendência de quem sabe que pode caminhar sozinha, mas prefere ter alguém com quem compartilhar a experiência.

Esse olhar o deixa mais tranquilo. Entende que talvez não possa cuidar de tudo, mas terá o seu espaço. Afinal, lá fora estão o céu, as estrelas, as luas e as marés, tudo por ser explicado e entendido. E tudo recomeça.

Cantina Açores 0 200

Faz um dia ameno de sol, no contexto de um período chuvoso no inverno de Curitiba; é fim de mês e o dinheiro rareia. A vontade de comer bem e em demasia logo após o apetite ser aberto por um bigode de grilo, sem despender grandes investimentos, me carrega à um dos mais tradicionais restaurantes da cidade: Cantina Açores. Chego mais para o fim do turno do almoço, com a luxuosa possibilidade de escolher onde me sentar – duas horas atrás, é bastante provável que algumas pessoas estavam organizando pequenos motins para conquistar os poucos lugares vagos – a mesa que recebe um feixe de luz solar me convida à habitá-la, apesar de ocupar um espaço mais ao fundo do salão, e que a essa hora é quase oculto aos olhares desatentos dos atendentes (que são os donos) do lugar.

Na primeira mesa chega um casal que parece ter uma amizade próxima com os proprietários, o cardápio de cervejas (que surpreendentemente existe) demora à chegar nas mãos deles, é entregue pela sua amiga, que trava um intenso monólogo travestido de diálogo. Quando enfim eles conseguem focar sua atenção no menu, a atendente oferece, enquanto já serve, uma generosa taça da batidinha especial da casa; antes que eles possam aceitar, a taça chega à mesa já desfalcada de um respeitável gole. Enquanto contemplo a batidinha alheia – mais uma novidade pra mim, que me considerava um habitué do recinto – minha existência é enfim notada, faço contato visual, olho no olho, mas pouco comovo; ergo minha mão com timidez, na altura do queixo, um aceno de cabeça em resposta é o código de que tudo foi compreendido. Explico que por hora não vou pedir a refeição, afinal o Marco ainda não chegou, peço uma garrafa de cerveja e pergunto (já mal intencionado) “quanto custa a batidinha?”, “a batidinha é um agrado para os clientes, já te trago”. Fico contente ao notar que as bordas da taça não denunciam nenhum gole no caminho da geladeira até minha mesa. Provo a iguaria e me abalo, entro no meio de uma batalha, o maracujá disputa violentamente o espaço com o álcool, tenho sede em apaziguar logo esse embate.

Da mesma forma que os rituais são representados nos filmes, quando se oferece algo à alguma entidade e ela se materializa instantaneamente na sua frente, vejo o Marco adentrar ao recinto assim que repouso o copo de cerveja à mesa. E apesar da existência do Marco ter quase dois metros de altura, ela também é notada com certo atraso pelos garçons, mas tudo fica bem quando quem vem tirar o pedido já se aproxima com um copo na mão; das vantagens de se almoçar em um boteco. O prato do dia é Parmegiana, de frango ou bovino, democraticamente optamos por escolhas distintas, em comum uma porção de batata frita e mais uma cerveja, afinal, é sexta-feira.

A salada, que certamente já estava pronta desde as onze, chega antes que possamos re-abastecer nossos copos. Tomo a decisão pouco sábia de ignorá-la, enquanto ouço sobre a última que rolou no prédio do Marco, que me é confidenciada em tom tenso e humorado: o síndico do seu prédio sofreu um impeachment. O golpe foi orquestrado por um morador que chegou há menos de três meses no condomínio, uma espécie de Eduardo Cunha do 301C. Além de cativar o coração dos moradores que vislumbraram a destruição do jardim em lugar de novas vagas para carros, o golpe foi amplamente apoiado pela bancada evangélica do condomínio, que implicavam com as camisetas do Iron Maiden do ex-síndico. O porteiro ouviu dizer em modernização no sistema de interfones e novos circuitos de monitoramento; ele já teme pelo seu emprego. Em todas as esferas, vivemos tempos sombrios.

Desembarca em nossa mesa a porção de batata frita, naufragada em óleo, meu coração reclama logo na segunda garfada, me finjo de desentendido e interpreto como forte emoção. Uma discussão acalorada se instaura entre os funcionários, pouco parece ter relação com o trabalho, bastante com o possível almoço de domingo em família. Ecoam por todo lugar palavrões associados à verbos que nem imaginava que podiam ser usadas para ofender. Assim que os ânimos se acalmam, nossa amiga vem à mesa munida da garrafa de batidinha, veio conferir se estamos sendo bem atendidos: um novo consenso declara que sim, como nunca. O filé, que mal cabe no prato, vem acompanhado de arroz, macarrão, chuchu e farofa; o estado de confusão total no universo é evitado com o feijão sendo servido numa cumbuca separada. É necessário saber no mínimo oito movimentos no xadrez para traçar uma estratégia digna para a degustação do banquete, numa ação cautelosa o feijão se funde à farofa, bem planejado cabem até umas batatas (aquelas) ao lado do bife. Sou um homem de projetos ousados.

Vejo-me refletido no fundo do prato, aliança da alvura da louça com vestígios de gordura, e um sorriso cansado denuncia o sucesso na empreitada. O tempo segue estável lá fora, já aqui dentro deveria chover papel picado, pois o sentimento é de fim de campeonato e todos sagraram-se campeões. Completamos a volta olímpica até o balcão, onde a contabilidade que é feita no guardanapo não falha: pouco mais de vinte reais pela comida, bebida e workshop de novos xingamentos, ministrado pela dona da casa. Justo, nem preciso fazer figas com os dedos – para torcer pelo saldo positivo – quando a máquina engole meu cartão. Pego uma bala de iogurte no balcão e vou embora desejando uma vida tão honesta quanto um almoço na Cantina Açores.

Escrito pelo Gabriel Protski