Escala de Mohs 0 151

Minha alma sofre de sonambulismo. Enquanto durmo ela vaga pelos mundos. Até sua volta permaneço rígido e pesado, como uma pedra à espera de ser lapidada. Quando voltamos a nos metamorfosear, acordo transbordante das ideias e revelações que ela me trouxe.

 

Sempre fui dos que têm respeito por alguns rituais, em especial pelos que crio. Não sou dado à severidade, mas de uma coisa tenho certeza: não se faz Cuba Libre com Pepsi. Foram oito meses em que acordei antes das seis, e muitas vezes antes do sol, para correr. Poucos eventos me impediam de ganhar as ruas, mesmo algumas intempéries que podiam configurar-se em boas desculpas para não fazê-lo. Comecei a correr para me provar de que era capaz, continuei porque me apaixonei (algo recorrente em minha vida), desisti completamente por desinteresse e tristeza (algo ainda mais recorrente).

Era uma terça-feira. Acordei antes do despertador, com o coração tentando evadir o corpo. Outro pesadelo com prédios ruindo, caos; pessoas despencando das janelas, batendo as cabeças como formigas sem antenas. Tudo vai desmoronar, ou mesmo já desapareceu. O que entendemos por catástrofe, em algumas esferas não passa de estatística e ordem natural da vida. Só terapia à base de endorfina para afastar estes pensamentos. A urgência me impediu até de lavar o rosto, simplesmente fui.

Frio, comecei devagar, ainda ancorado pela desordem. Os pensamentos se perdiam nos labirintos que me habitam, transitavam nos rizomas intermináveis de temor e desalento que parecem embaraçar-se ainda mais nessas ocasiões, sentimento de estar encurralado pela própria sensibilidade. Já estava longe de casa, o medo de perder-me dentro de mim me obrigou a ser pragmático: dar quantas voltas fosse possível em torno da praça mais próxima, para não me afastar muito de casa. Tomar uma decisão firme auxiliou a abrir trincheiras nos pensamentos, o corpo a esquentar, a mente ansiando o esvaziamento.

Chego à praça pouco depois do sol. É um lugar agradável, simples, muita grama e uma quadra poliesportiva no meio. Corro muito, de mim mesmo, de tudo. Quando o que me afligia ficou algumas voltas para trás, comecei enfim a pensar no dia em que vivia; nos afazeres, nos planos, viagens, no café da manhã, na geada que começava a derreter, nas flores que resistiam, naquele mendigo estirado ao lado da quadra. Demorei mais uma volta para notar que o indigente não tinha nem cobertas e nem roupas grossas. Mais outra para ver que o corpo não se mexia, mesmo minimamente. Corri até lá.

De barriga para cima, com a testa franzida como quem engoliu as preocupações, o corpo daquele senhor ainda trazia algum calor, mesmo que mínimo. Mas ao menos no que tange o sentido clínico, já não carregava vida alguma. Não adiantaria tomar atitudes emergenciais, nem mesmo correr, sentei. Contemplei os ossos magros de suas mãos, suas rugas que emolduravam seu rosto, seu cabelo desbotado pelo tempo, sua roupa que parecia um pijama. Talvez não fosse um sem-teto. Também não parecia ter sido ferido, ao menos não em um local aparente, acaso em seus labirintos.

Enfim liguei para a ambulância, porque nunca me agradou ligar para a polícia. Velei seu corpo até o momento em que fecharam-se as portas do rabecão. Sua alma órfã e confusa porventura pode ter se aproximado da minha, já que sua imagem me visita com frequência, mesmo sem saber seu nome. Nunca mais fui àquela praça. Nunca mais corri. E nem preciso mais dos pesadelos para me certificar, todo império cai.

Gabriel Protski

Previous ArticleNext Article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Dai-me Amor 0 174

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 318

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.