Escala de Mohs 0 105

Minha alma sofre de sonambulismo. Enquanto durmo ela vaga pelos mundos. Até sua volta permaneço rígido e pesado, como uma pedra à espera de ser lapidada. Quando voltamos a nos metamorfosear, acordo transbordante das ideias e revelações que ela me trouxe.

 

Sempre fui dos que têm respeito por alguns rituais, em especial pelos que crio. Não sou dado à severidade, mas de uma coisa tenho certeza: não se faz Cuba Libre com Pepsi. Foram oito meses em que acordei antes das seis, e muitas vezes antes do sol, para correr. Poucos eventos me impediam de ganhar as ruas, mesmo algumas intempéries que podiam configurar-se em boas desculpas para não fazê-lo. Comecei a correr para me provar de que era capaz, continuei porque me apaixonei (algo recorrente em minha vida), desisti completamente por desinteresse e tristeza (algo ainda mais recorrente).

Era uma terça-feira. Acordei antes do despertador, com o coração tentando evadir o corpo. Outro pesadelo com prédios ruindo, caos; pessoas despencando das janelas, batendo as cabeças como formigas sem antenas. Tudo vai desmoronar, ou mesmo já desapareceu. O que entendemos por catástrofe, em algumas esferas não passa de estatística e ordem natural da vida. Só terapia à base de endorfina para afastar estes pensamentos. A urgência me impediu até de lavar o rosto, simplesmente fui.

Frio, comecei devagar, ainda ancorado pela desordem. Os pensamentos se perdiam nos labirintos que me habitam, transitavam nos rizomas intermináveis de temor e desalento que parecem embaraçar-se ainda mais nessas ocasiões, sentimento de estar encurralado pela própria sensibilidade. Já estava longe de casa, o medo de perder-me dentro de mim me obrigou a ser pragmático: dar quantas voltas fosse possível em torno da praça mais próxima, para não me afastar muito de casa. Tomar uma decisão firme auxiliou a abrir trincheiras nos pensamentos, o corpo a esquentar, a mente ansiando o esvaziamento.

Chego à praça pouco depois do sol. É um lugar agradável, simples, muita grama e uma quadra poliesportiva no meio. Corro muito, de mim mesmo, de tudo. Quando o que me afligia ficou algumas voltas para trás, comecei enfim a pensar no dia em que vivia; nos afazeres, nos planos, viagens, no café da manhã, na geada que começava a derreter, nas flores que resistiam, naquele mendigo estirado ao lado da quadra. Demorei mais uma volta para notar que o indigente não tinha nem cobertas e nem roupas grossas. Mais outra para ver que o corpo não se mexia, mesmo minimamente. Corri até lá.

De barriga para cima, com a testa franzida como quem engoliu as preocupações, o corpo daquele senhor ainda trazia algum calor, mesmo que mínimo. Mas ao menos no que tange o sentido clínico, já não carregava vida alguma. Não adiantaria tomar atitudes emergenciais, nem mesmo correr, sentei. Contemplei os ossos magros de suas mãos, suas rugas que emolduravam seu rosto, seu cabelo desbotado pelo tempo, sua roupa que parecia um pijama. Talvez não fosse um sem-teto. Também não parecia ter sido ferido, ao menos não em um local aparente, acaso em seus labirintos.

Enfim liguei para a ambulância, porque nunca me agradou ligar para a polícia. Velei seu corpo até o momento em que fecharam-se as portas do rabecão. Sua alma órfã e confusa porventura pode ter se aproximado da minha, já que sua imagem me visita com frequência, mesmo sem saber seu nome. Nunca mais fui àquela praça. Nunca mais corri. E nem preciso mais dos pesadelos para me certificar, todo império cai.

Gabriel Protski

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Uma tentativa de eternidade 0 670

Estas linhas são sobre o momento em que o sol se lançou corajoso no abismo do horizonte de ontem. Carregava consigo a invejável certeza de que teria forças para regressar pelo lado de lá. É sobretudo uma daquelas tentativas de promover o efêmero à eternidade –  com algo de poesia.

Um olhar descolorido poderia até dizer que o sol sequer saiu do lugar, que nós é que feito mariposas ofuscadas giramos em torno da lâmpada, sem nos importarmos com um pra-onde-ir.

Verdade é que nunca nos preocupamos com as coisas como de fato são. Queremos apenas classificá-las de acordo com nossas percepções. Se sentei aqui, foi para escrever sobre o que senti ao ser tragado pelo vazio da noite de ontem, que sequer-um-abraço.

Em momento algum nos deixamos avisar pela vida sobre o que ela pretende de nós. Se nos detemos diante do orvalho na flor, é pela nossa necessidade de um suspiro n’alma. Queremos o sorriso da criança para o nosso deleite. Não nos importamos com a felicidade que ali brotou.

Sentimos o mundo à nossa disposição, sem nos darmos conta de que somos apenas mais uma alegoria na beleza de uma grandiosidade que nos foge à compreensão. Algo que já foi Deus. Que hoje é mistério. E que amanhã estará passível de uma nova interpretação.

Algo que tentaremos eternizar, com a mesma eficácia com que buscamos absorver a vida que nos envolve por esses dias em que a noite absorve o sol. E que passam. Um a um.

texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra