Jogos vorazes 0 110

O final de 2014 agredia até as ruas tranquilas do Portão, perto das Faculdades Bagozzi. Várias casas já estavam vestidas de Natal: lâmpadas de loja de um e noventa e nove, falsificações de vegetações estrangeiras, neve de algodão e papais noeis mais e menos gordos pendurados em muros, chaminés e janelas.

Quatro meninos marcaram encontro num fim de sexta-feira para construir um caixote. Era o terceiro ano seguido em que faziam das férias escolares dois meses de skate, bagunça, beber o que conseguissem arranjar e curtição inconsequentemente. Cada moleque trazia para a roda o que pudesse, desde que divertisse. Naquele momento festavam continuamente para anestesiar a transição entre primeiro e segundo ano do ensino médio. Os uniformes deram lugar a roupas corriqueiras: bermudas velhas, bonés, tênis e camisetas sujáveis.

Miguel chegou na Kombi verde do pai, o carro três da família. Tinham nela um veículo de bater e carregar peso. O clã levou ao encontro tábuas de compensado e vigas de faveira. Através de contatos, haviam recebido uma leva de madeira da região do cerrado. Pagaram para tratar o material e cortaram em casa, na serra de bancada que servia para pedidos do caçula. Em segunda aplicação, também usavam o equipo para construir pequenos móveis com que presenteavam parentes, amigos e parceiros comerciais do ramo da exportação. O velho, Tobias, aparou as arestas o quanto pôde, mas preferiu não correr risco de estragar o couro dos bancos de seu Civic, nem puxar fiapinhos do porta-malas; e queria menos ainda sujar a Pajero zero que tinha dado para a esposa no dia seguinte ao recebimento do décimo-terceiro.

Ti levou a caixa de ferramentas da mãe, mulher divorciada e sacudida; resolvedora; provedora. Martelos, chaves, parafusos de tamanhos variados e o principal: força de trabalho. Era ele quem sabia de estrutura e construção, por influência da velha, que tinha informações de tudo um tanto. O piá queria fazer reforço de matemática a partir de fevereiro para, mais ligado, tentar nota boa no ENEM e ingressar no curso de engenharia civil da UTFPR, mas não sofria pressão para acertar a boa de primeira. Se não desse no fim do ano que vem, que fosse no próximo ou no próximo do próximo.

Chris vasculhou sete construções na procura de uma quina longa de metal. Era o responsável por garantir os grinds. Circulou tranquilo em sua bicicleta Light cromada, presente e quase herança de um primo mais velho, Lúcio, que se dizia pastor evangélico, ex-pixador e ex-cheirador de cola e thinner. Na oitava obra encontrou uma canaleta que daria para o gasto. Lixou as pontas e boa. Carregou duas garrafas pet de dois litros com água gelada e as colocou em sua mochila Nike preta. Trocou as rodas do carrinho por um jogo Zero que ganhou antecipado de aniversário, dali três semanas. Pendurou a borda entre as costas e a bagagem, por dentro das alças, montou na bikezinha e rua.

E Du chegou por último com duas velas de sete dias, mais um isqueiro e cigarros que tirou de uma senhora no começo da tarde. Meteu a aba reta nas sobrancelhas e: saiu com carteira e o que mais a velha segurava na saída do Banco do Brasil da rápida Centro-Pinheirinho, duas quadras antes do Drive in. Conseguiu R$ 85. Virou à direita na primeira quadra e jogou os documentos no chão, na porta da igreja. Precisava de dinheiro para continuar alargando as orelhas e fazendo tatuagens. Já tinha conseguido pagar duas, feitas na casa de um camarada mais velho, longe dos olhos dos pais: um dragão na parte interna do braço direito e um contorno da palavra diabo em fonte gótica acompanhando a curva de cima da barriga. Morava em uma casa em invasão e circulava em skates montados com contribuições dos amigos. Vinha um shape daqui, às vezes Flip, um jogo de rolamentos dali, às vezes ABEC 5 ou 7, um par de trucks novos dali outro, às vezes Venture.

Tobias assistiu aos cumprimentos da molecada e o começo do trabalho com as bochechas erguidas, num sorriso frouxo e atencioso. Despediu-se do filho e dos outros dizendo para ninguém entrar em confusão, porque queria relaxar e assistir futebol com som 7.1 de seu home theater novo.

O serviço dos adolescentes durou quarenta minutos de risada. Montaram lateral com lateral e colocaram o máximo de pregos que seus braços finos aguentaram bater.

O palquinho ficou firme. Colocaram o trem na rua. Testaram o novo brinquedo com fiftys de front e aprovaram. Aí começaram a tentar manobras mais difíceis, cada qual na sua; em quatro ritmos distintos, capacidades e incapacidades. Chris, o mais focado, acertou um tailslide back e um switch crooked devagar, mas funcional. Treinar em pista fechada estava fazendo bem. Quando os amigos cansaram, perto do fim do segundo garrafão de água, começaram as despedidas. Primeiro foi Ti, correndo, como sempre. Depois Chris, esquisito.

Du sentiu a agitação dos colegas e parou de alongar as pernas. Respirou. Andou até tapar a visão do remanescente Miguel, que estava deitado no meio-fio para soltar as costas antes de ir embora. Perguntou o que o amigo faria mais tarde.

– Hoje vou ver o Jogos Vorazes novo no cinema do Curitiba, tá ligado?

– Aham. Sozinho?

– Ah… meio de festa de aniversário…

– Ah é?

– … do Ti que a mãe dele chamou. Com a primaiada? Ela te falou, né?

– Não.

– Mas vamo, né? Não pode beber lá, mas a gente já chega louco, né? – e riu constrangido.

Du discordou, pediu para o amigo esconder o caixote no terreno ao lado e também quis ir embora. Falou de um vídeo novo do Daewon Song e de outro do Luan de Oliveira, no Youtube, tomou mais um gole de água e deu tchau. Passou num posto de gasolina da João Bettega e comprou duas Brahma latão com sua cara batida de maior de idade. Tomou a primeira sentado na mureta. Tirou o dinheiro do bolso e contou. Ainda tinha setenta e uns quebrados. Olhou para a placa em cima da cabeça e pensou naqueles preços. Tudo caro. Viu um Interbairros V indo para a esquerda e outro para a direita. Levantou, deu meia volta e perguntou para um frentista se dava para encher dois litros de gasolina em alguma garrafa para levar.

Minha Jog tá sem nada.

O frentista duvidou que ele tivesse uma, mas não tinha nada que ver com o assunto. Tomou o último copinho de uma Sprite já quente que os funcionários tinham rachado mais cedo e fez o que o moleque pediu, depois de ouvir tranquilo o som de moedas no bolso do cliente.

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Imagens e texto: Marco Antonio Santos (rs)

 

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”