Texto de em 02 de agosto de 2016 . Nenhum comentário.

começou com a ânsia de enrugar a testa, ou franzir o cenho, como diz a alta literatura. a fronte parecia pesar e se não esticasse, nossa, parece que ela iria ficar eternamente travada numa mesma posição. e aí era um tal de cara-de-brava que virava cara-de-espanto e depois de um tempo ela notou que todos olhavam e imaginava o que é que as pessoas pensavam dessa alternância de expressões.

depois veio o negócio de mexer os dedos das mãos sem parar. primeiro os mindinhos das duas mãos ao mesmo tempo, na sequência o anelar da esquerda e depois o anelar da direita e eram só esses quatro mesmo, os outros seis ficavam parados. normalmente ela escondia as mãos no bolso que era pra ninguém reparar, mas ela sabia que todos reparavam sim.

aí o pezinho batendo. o pezinho direito que não parava nunca, feito um bate-estaca de obra grande só que mais rápido. esse foi um pouco mais difícil de esconder e aí então ela passou a ficar descalça o máximo de tempo que conseguia, que a pisada fazia menos barulho e chamava menos atenção, mas ainda chamava, ela tinha certeza.

os ombros seguiram a lógica lá de cima, da testa enrugada ou do cenho franzido. era como alguém puxasse os ombros para baixo e nessa hora ela precisava mexer e se não mexesse parecia doer. não era dor, mas era como fosse. ela mexia e isso ajudava um pouco, mas o alívio não passava dos dez segundos, quando muito, e ela tinha que fazer de novo e as pessoas notavam.

levou um tempo até entender que todo mundo continuaria vendo e que os tiques não iriam embora. quer dizer, às vezes até se ausentavam por um tempo, mas voltavam depois de dois ou três dias e frequentemente ainda mais fortes e então foi atrás de uma solução.
 
 
hoje ela toma alguns remédios e vez em quando dança, mas geralmente sozinha.
 
 
 

por Rômulo Candal

fotografia: Plonq via Compfight cc