Factoides da devastação 0 101

– Enchente destruiu um bairro inteiro no Sul da cidade.

 

– Furtaram minha bicicleta.

 

– A Terra vai acabar.

 

– A polícia foi chamada por uma família que encontrou maconha na mochila do filho mais novo. Exigiam que os policiais fossem atrás do colega da escola que passou a droga.

 

– Encontraram vida inteligente no espaço.

 

– Minha bike estava presa no bicicletário do meu emprego. Depois de trabalhar o feriado todo, na hora de ir pra casa, descobri que tinham furtado. Filhos da puta. Entre tantas bicicletas, por que a minha? Demorei em acreditar. Lá tem os vigilantes, mas perguntei e os caras nem tinham visto. E as câmeras? A central fica na sala do chefe, mas hoje é feriado e ele não está por ai, só segunda-feira. É o fim do mundo mesmo! Sai puto da cara. Tive que ir embora caminhando.

 

– Três pessoas morreram atropeladas por motoristas embriagados.

 

– Li as estatísticas do geoprocessamento e acho que as viaturas da polícia estão mal posicionadas. Na verdade não li porra nenhuma, vi isso em Tropa de Elite. Peguei uma pilha de papel com dados sobre a violência na cidade e limpei a caixa de areia do meu gato. Joguei água da máquina de lavar roupas em cima e coloquei no Sol pra secar. O resultado foi minha obra prima de nome composto: “Crimes de merda – lavando a cidade com água sanitária”. O curador da galeria que a colocou em exposição resolveu mudar o título para “Dilúvio pós-moderno”.

 

– Uma criança foi levada ao hospital com panela presa na cabeça.

 

– Analbeth de Jesus foi ao mercado comprar cigarros e não voltou mais. Familiares estão desesperados.

 

– Os frentistas do posto Leão, que fica perto da Praça do Comunista, costumavam beber no bar do Vermelho após o expediente. Ontem, durante um suposto assalto, um deles teria tentado bancar o herói. O ladrão deu tiro para todos os lados, matou os frentistas e o dono do bar. Baleado, Vermelho ainda tentou se esconder atrás do balcão, mas o marginal foi atrás dele pra finalizar. Diz uma testemunha que o bandido vestia camiseta da seleção canarinho.

 

– Elon Musk conseguiu pousar um foguete em segurança esses dias. Por mais simples que isso possa soar, representa um grande passo para a viagem espacial. Elon Musk tem cinco filhos, constrói carros elétricos, inventou o PayPal, inventou o Hyperloop e já disse que quer bombardear Marte. Esse cara é um robô?

 

– Preciso deixar o celular de lado. Tenho desperdiçado muito tempo lendo factoides no Twitter e no Reddit. Preciso parar de copiar as frequências de rádio da polícia. Preciso passear mais de bicicleta ouvindo aquele som o Hyldon: vamos passear, êhêh, vamos passear, êhêh….

 

– No dia que roubaram minha bike, em vez de ir para casa, fui ao Distrito Policial ali na Rua André de Barros registrar queixa de furto. Mas o policial disse que era feriado e estavam sem “sistema”, além disso, era melhor eu vazar, os presos estavam fazendo bate-grade. A cadeia ia virar. Se eu ficasse ali, ele não ia poder garantir a minha segurança.

 

– Encontrei minha bike. Sai da delegacia e desci a André de Barros com medo de ser assaltado e quando virei no Guadalupe, olhei o relógio, quase meia-noite. Caminhei alguns metros e perto de uma das estações-tubo havia um grupo de mendigos e um deles estava com a minha bike. Tive de agir sozinho. Corri na direção dele cego pelo ódio. Empurrei o mendigo com força e fui tirando a bicicleta. Dava socos nas costas dele e gritava o tempo todo: essa bike é minha seu filho da puta, ladrão do caralho, eu te mato, eu te mato. Os demais tentaram vir em auxílio do amigo, mas eu já estava longe pedalando sem olhar para trás. Comprei um cadeado novo, um desses de verdade.

 

– Os moradores do bairro no Sul da cidade, destruído pela enchente, tentam se reerguer. Foram realocados em um bairro novo, perto do barracão logístico da empresa de transporte ferroviário. Os trens são infernais. Ninguém mais consegue dormir à noite.

 

– Em dois dias tudo isso vai acabar. Uma estrela anciã que fica perto do centro da galáxia vai explodir. A gênese do buraco negro que engolirá todos nós, como uma inundação cósmica gigantesca.

 

 

Texto: Jadson André

Imagem: Nebulosa Abell 33, fotografada por um telescópio no Chile.

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”