Factoides da devastação 0 193

– Enchente destruiu um bairro inteiro no Sul da cidade.

 

– Furtaram minha bicicleta.

 

– A Terra vai acabar.

 

– A polícia foi chamada por uma família que encontrou maconha na mochila do filho mais novo. Exigiam que os policiais fossem atrás do colega da escola que passou a droga.

 

– Encontraram vida inteligente no espaço.

 

– Minha bike estava presa no bicicletário do meu emprego. Depois de trabalhar o feriado todo, na hora de ir pra casa, descobri que tinham furtado. Filhos da puta. Entre tantas bicicletas, por que a minha? Demorei em acreditar. Lá tem os vigilantes, mas perguntei e os caras nem tinham visto. E as câmeras? A central fica na sala do chefe, mas hoje é feriado e ele não está por ai, só segunda-feira. É o fim do mundo mesmo! Sai puto da cara. Tive que ir embora caminhando.

 

– Três pessoas morreram atropeladas por motoristas embriagados.

 

– Li as estatísticas do geoprocessamento e acho que as viaturas da polícia estão mal posicionadas. Na verdade não li porra nenhuma, vi isso em Tropa de Elite. Peguei uma pilha de papel com dados sobre a violência na cidade e limpei a caixa de areia do meu gato. Joguei água da máquina de lavar roupas em cima e coloquei no Sol pra secar. O resultado foi minha obra prima de nome composto: “Crimes de merda – lavando a cidade com água sanitária”. O curador da galeria que a colocou em exposição resolveu mudar o título para “Dilúvio pós-moderno”.

 

– Uma criança foi levada ao hospital com panela presa na cabeça.

 

– Analbeth de Jesus foi ao mercado comprar cigarros e não voltou mais. Familiares estão desesperados.

 

– Os frentistas do posto Leão, que fica perto da Praça do Comunista, costumavam beber no bar do Vermelho após o expediente. Ontem, durante um suposto assalto, um deles teria tentado bancar o herói. O ladrão deu tiro para todos os lados, matou os frentistas e o dono do bar. Baleado, Vermelho ainda tentou se esconder atrás do balcão, mas o marginal foi atrás dele pra finalizar. Diz uma testemunha que o bandido vestia camiseta da seleção canarinho.

 

– Elon Musk conseguiu pousar um foguete em segurança esses dias. Por mais simples que isso possa soar, representa um grande passo para a viagem espacial. Elon Musk tem cinco filhos, constrói carros elétricos, inventou o PayPal, inventou o Hyperloop e já disse que quer bombardear Marte. Esse cara é um robô?

 

– Preciso deixar o celular de lado. Tenho desperdiçado muito tempo lendo factoides no Twitter e no Reddit. Preciso parar de copiar as frequências de rádio da polícia. Preciso passear mais de bicicleta ouvindo aquele som o Hyldon: vamos passear, êhêh, vamos passear, êhêh….

 

– No dia que roubaram minha bike, em vez de ir para casa, fui ao Distrito Policial ali na Rua André de Barros registrar queixa de furto. Mas o policial disse que era feriado e estavam sem “sistema”, além disso, era melhor eu vazar, os presos estavam fazendo bate-grade. A cadeia ia virar. Se eu ficasse ali, ele não ia poder garantir a minha segurança.

 

– Encontrei minha bike. Sai da delegacia e desci a André de Barros com medo de ser assaltado e quando virei no Guadalupe, olhei o relógio, quase meia-noite. Caminhei alguns metros e perto de uma das estações-tubo havia um grupo de mendigos e um deles estava com a minha bike. Tive de agir sozinho. Corri na direção dele cego pelo ódio. Empurrei o mendigo com força e fui tirando a bicicleta. Dava socos nas costas dele e gritava o tempo todo: essa bike é minha seu filho da puta, ladrão do caralho, eu te mato, eu te mato. Os demais tentaram vir em auxílio do amigo, mas eu já estava longe pedalando sem olhar para trás. Comprei um cadeado novo, um desses de verdade.

 

– Os moradores do bairro no Sul da cidade, destruído pela enchente, tentam se reerguer. Foram realocados em um bairro novo, perto do barracão logístico da empresa de transporte ferroviário. Os trens são infernais. Ninguém mais consegue dormir à noite.

 

– Em dois dias tudo isso vai acabar. Uma estrela anciã que fica perto do centro da galáxia vai explodir. A gênese do buraco negro que engolirá todos nós, como uma inundação cósmica gigantesca.

 

 

Texto: Jadson André

Imagem: Nebulosa Abell 33, fotografada por um telescópio no Chile.

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Dai-me Amor 0 377

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 491

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.