Geometria plana 0 163

Eu nunca entendi muito bem as pessoas, mas sempre entendi muito bem os triângulos, sejam amorosos, sejam geométricos.

Lembro como se fosse ontem do dia em que a professora de matemática desenhou um círculo no quadro, o dividiu em quatro partes iguais (às quais chamou de quadrantes) e puxou uma corda saindo do centro e chegando até um ponto qualquer da circunferência. Ela explicou que a corda era a hipotenusa de um triângulo que tinha seus catetos iguais ao seno e ao cosseno do ângulo formado entre a corda e o eixo horizontal.

Foi a primeira vez que eu senti esse choque sobre os seres humanos. As cordas vocais daquele primata estavam vibrando a uma determinada frequência e ele modulava o ritmo e forma de saída do ar por meio de seu aparato fonador. Essas vibrações eram percebidas pelos meus ouvidos e meu cérebro transformava tudo isso em uma mensagem que fizesse algum sentido. E no caso, o sentido era que, sabendo o tamanho de um dos lados do triângulo e o valor de qualquer função trigonométrica, é possível deduzir os tamanhos de todos os lados do triângulo.

Precisava compartilhar isso com alguém, então comentei com o garoto que sentava à minha frente que o mais estranho em tudo aquilo era que eu estava entendendo. Ele olhou pra trás e me disse que, na verdade, o mais estranho em tudo aquilo era que ele também estava. Eu ri.

Teve uma vez que fui acampar na praia com a família. Quando acordei fazia um calor tremendo, saí da barraca e meu primo comentou “Que lua, hein!”. Antes de responder eu olhei para o céu, e como não vi nada de estranho perguntei “Onde?”, porque eu sempre achei intrigante que às vezes a lua aparece no céu durante o dia, mas o Sol, por sua vez, é muito mais respeitador das regras, e nunca aparece de noite. Ele riu.
Acho que é isso, eu rio de relações trigonométricas, mas não das figuras de linguagem. Isso restringe muito o número de pessoas com quem eu posso me relacionar. E aí está Sabrina. Porque a Sabrina me escuta quando eu digo que logaritmos não são uma operação matemática, mas apenas uma forma de notação. E quando eu falo dessas coisas ela me olha com o mesmo interesse de quando falamos de literatura, música ou filosofia.

E daí eu faço um esforço homérico para manter isso que nós temos. E até agora eu nunca tinha pensado nisso, mas me parece que o esforço é sempre conservador. Acho que isso tem a ver com dois temas. O primeiro é que mais cedo ou mais tarde nós entendemos que a insatisfação é uma das únicas coisas constantes na vida. Não importa quanto você conquiste, sempre vai achar que merece e ou pode ter mais. O segundo tem a ver com o fato de que quando você faz um planejamento, estabelece metas e põe tudo isso em prática, o resultado é sempre muito longe do esperado. É verdade que há vezes em que as expectativas são superadas. Mas sinto que os humanos não lidam muito bem com a incerteza.

Por isso as pessoas fazem esforço gigante para conservar seus empregos, sua boa reputação, seus clientes, aquela relação que você não dá nome, mas não porque não quer um compromisso, mas sim porque você sente que ela é tão preciosa que não pode ser reduzida a uma palavra qualquer.

Isso me machuca, porque de vez em quando penso que a Sabrina gostaria que isso tivesse um nome que remetesse a algo familiar. Ela nunca me falou nada, mas é uma coisa que me ocorre. E agora eu já me sinto culpado porque eu fico imaginando o que ela pensaria se soubesse que eu estou pensando essas coisas em um momento como esse.

E tudo isso começou com os logaritmos. Não, acho que foi com o Sol que nunca aparece de noite. Mentira, começou com aquele garoto que entendia trigonometria. Mas eu só lembrei que ele entendia trigonometria porque eu estava falando dos malditos triângulos, que podem ser geométricos ou amorosos.

Há momentos em que é muito difícil manter a concentração, e na verdade todo esforço é sempre um movimento conservador. Porque a gente sabe que a insatisfação é a única constante. Todo mundo quer algo, dois quilos a menos, dois centímetros a mais, só dois minutos mais!

Mas aí você pesa dois quilos e percebe que eles não fazem diferença. Olha pra régua e vê que dois centímetros são uma distância muito pequena. E aqueles dois minutos? Já passaram e você nem percebeu.

– Ai, amor, isso! Mete! Forte! Assim!

fim
 
 

texto: Marcelo Silveira
ilustração: Gustavo Paris

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Dai-me Amor 0 173

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 318

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.