Geometria plana 0 1029

Eu nunca entendi muito bem as pessoas, mas sempre entendi muito bem os triângulos, sejam amorosos, sejam geométricos.

Lembro como se fosse ontem do dia em que a professora de matemática desenhou um círculo no quadro, o dividiu em quatro partes iguais (às quais chamou de quadrantes) e puxou uma corda saindo do centro e chegando até um ponto qualquer da circunferência. Ela explicou que a corda era a hipotenusa de um triângulo que tinha seus catetos iguais ao seno e ao cosseno do ângulo formado entre a corda e o eixo horizontal.

Foi a primeira vez que eu senti esse choque sobre os seres humanos. As cordas vocais daquele primata estavam vibrando a uma determinada frequência e ele modulava o ritmo e forma de saída do ar por meio de seu aparato fonador. Essas vibrações eram percebidas pelos meus ouvidos e meu cérebro transformava tudo isso em uma mensagem que fizesse algum sentido. E no caso, o sentido era que, sabendo o tamanho de um dos lados do triângulo e o valor de qualquer função trigonométrica, é possível deduzir os tamanhos de todos os lados do triângulo.

Precisava compartilhar isso com alguém, então comentei com o garoto que sentava à minha frente que o mais estranho em tudo aquilo era que eu estava entendendo. Ele olhou pra trás e me disse que, na verdade, o mais estranho em tudo aquilo era que ele também estava. Eu ri.

Teve uma vez que fui acampar na praia com a família. Quando acordei fazia um calor tremendo, saí da barraca e meu primo comentou “Que lua, hein!”. Antes de responder eu olhei para o céu, e como não vi nada de estranho perguntei “Onde?”, porque eu sempre achei intrigante que às vezes a lua aparece no céu durante o dia, mas o Sol, por sua vez, é muito mais respeitador das regras, e nunca aparece de noite. Ele riu.
Acho que é isso, eu rio de relações trigonométricas, mas não das figuras de linguagem. Isso restringe muito o número de pessoas com quem eu posso me relacionar. E aí está Sabrina. Porque a Sabrina me escuta quando eu digo que logaritmos não são uma operação matemática, mas apenas uma forma de notação. E quando eu falo dessas coisas ela me olha com o mesmo interesse de quando falamos de literatura, música ou filosofia.

E daí eu faço um esforço homérico para manter isso que nós temos. E até agora eu nunca tinha pensado nisso, mas me parece que o esforço é sempre conservador. Acho que isso tem a ver com dois temas. O primeiro é que mais cedo ou mais tarde nós entendemos que a insatisfação é uma das únicas coisas constantes na vida. Não importa quanto você conquiste, sempre vai achar que merece e ou pode ter mais. O segundo tem a ver com o fato de que quando você faz um planejamento, estabelece metas e põe tudo isso em prática, o resultado é sempre muito longe do esperado. É verdade que há vezes em que as expectativas são superadas. Mas sinto que os humanos não lidam muito bem com a incerteza.

Por isso as pessoas fazem esforço gigante para conservar seus empregos, sua boa reputação, seus clientes, aquela relação que você não dá nome, mas não porque não quer um compromisso, mas sim porque você sente que ela é tão preciosa que não pode ser reduzida a uma palavra qualquer.

Isso me machuca, porque de vez em quando penso que a Sabrina gostaria que isso tivesse um nome que remetesse a algo familiar. Ela nunca me falou nada, mas é uma coisa que me ocorre. E agora eu já me sinto culpado porque eu fico imaginando o que ela pensaria se soubesse que eu estou pensando essas coisas em um momento como esse.

E tudo isso começou com os logaritmos. Não, acho que foi com o Sol que nunca aparece de noite. Mentira, começou com aquele garoto que entendia trigonometria. Mas eu só lembrei que ele entendia trigonometria porque eu estava falando dos malditos triângulos, que podem ser geométricos ou amorosos.

Há momentos em que é muito difícil manter a concentração, e na verdade todo esforço é sempre um movimento conservador. Porque a gente sabe que a insatisfação é a única constante. Todo mundo quer algo, dois quilos a menos, dois centímetros a mais, só dois minutos mais!

Mas aí você pesa dois quilos e percebe que eles não fazem diferença. Olha pra régua e vê que dois centímetros são uma distância muito pequena. E aqueles dois minutos? Já passaram e você nem percebeu.

– Ai, amor, isso! Mete! Forte! Assim!

fim
 
 

texto: Marcelo Silveira
ilustração: Gustavo Paris

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Escala de Baumé 0 2066

Já não se criam mais homens de barro, apesar de continuarmos nos esfarelando. É aceito que hoje somos compostos por água e ansiedade. De barro só os tijolos, com que se ergueram os muros de nossas casas e prisões. A ansiedade só cresce.

Na primeira vez em que fui visitar o Jaime na clínica ficamos em silêncio por quase uma hora, quinze anos de amizade nos poupam de certos diálogos dispendiosos. No momento de ir embora ouvi com clareza o que seus olhos me diziam, não podia abandoná-lo, e não o fiz. Na semana seguinte houve a necessidade de falar, de abraçar, de chorar; é difícil permanecer impassível quando seu colega de quarto é internado após tentar serrar os pulsos com um serrote, dessa vez era isso que seus olhos e braços me diziam. Os suicidas estão à procura de sua própria justiça, na qual a morte é a sentença final. O Jaime não era um suicida, ao menos não nos moldes convencionais, já que tomar uma garrafa de destilado por dia vinha se mostrando uma técnica efetiva para findar com sua vida. Seus sorrisos tornaram-se raros, pequenas ilhas de alívio no caos murado da instituição; os espaços cada vez menores, a alma tumultuada, a mente entulhada. Não sei o que tive mais medo de ver, se um surto ou a depressão profunda, um conforto mórbido me tomava ao vê-lo flutuar entre ambas hipóteses. Foi na décima terceira semana que decidimos que algo precisava ser feito.

Nunca concordei com essa internação, entendo-a, não é fácil para família alguma ter alguém fora de controle, mas não posso compactuar com isso. Lá fora o Jaime era a materialização da beleza na desordem, um furacão que arrasa um campo de rosas para se encher de cor, aqui ele não passa de um sopro, incapaz de espalhar as pétalas de um dente de leão. Onde esse ímpeto se perdeu? Na abstenção do álcool ou da vontade própria? Troquei minhas mágoas pela vergonha depois de descobrir o motivo de não ter sido ouvido em algumas visitas; certo dia trocaram o Jaime de quarto, sem consentimento algum ele foi amarrado em sua cama e transferido para outro cômodo, frio e com janelas menores. A crise de identidade se apossou dele, não se sentia mais um homem, era agora objeto. Não tinha mais nome, por isso não atendia quando o chamavam, tornou-se coisa, dessas que trocamos de lugar por mero paisagismo e descartamos quando causam problemas. Definitivamente, não existe amor sem empatia.

Uma hóstia podre e carcomida pelos vermes ainda é o corpo de cristo? Era a pergunta que me fazia todos os dias em que tinha que encarar um Jesus deteriorado na sala de espera da clínica. Dois mil anos com os pulsos pregados, quanto tempo mais era possível aguentar esse tipo de tortura? Na décima quarta semana cumpri com o combinado, depois que o Jaime voltou a ser alguém, a gente mergulhou num saudosismo afável, de quando éramos quem queríamos ser: bêbados que culpavam o álcool pelas próprias frustrações artísticas.

Pouco dormi na semana que antecedeu esse dia, nos momentos em que o cansaço venceu a angústia sonhei com prédios ruindo, maldito sonho que não me abandona. Deixei o carro embaixo da figueira de sempre, há quem diga que ela é a árvore da vida, também dizem que foi onde se deu o enforcamento de Judas Iscariotes. Minhas mãos suam, agora seria incapaz de dar um nó em qualquer corda. Como já me é habitual, encaro Jesus, com todas as minhas dúvidas.

Enfim chamam pelo meu nome. No caminho até o quarto o enfermeiro elogia minha decisão de trazer toddynho e trakinas para meu amigo, diz que nos últimos dias os internos passaram à pão e água, só meneio com a cabeça. É minha vez de engolir as palavras, sento em frente a ele e respondo com os olhos o seu questionamento. Trouxe? Estico a mão e lhe entrego, sinto medo, receio, vontade de me livrar logo disso e seguir em frente. Ele sorri nervosamente, a ansiedade lhe obriga a contrair seu maxilar, tomado pela dúvida, se espera o momento certo ou se entrega agora. Suo frio, quero ir embora, mas não consigo nem me levantar, nem virar o rosto, ele fura a superfície de alumínio com o canudinho e bebe tudo num gole só. Sorri com leveza, me abraça com calor, me pede pra voltar na semana seguinte. Vou embora me arrastando, as costas arqueadas carregam o peso de uma cruz, quantas mentiras conseguimos contar durante a vida?

Procuro no calendário onde foram parar os dias da semana que se foi, não há negociação, já é véspera de visita novamente. Encaro a prateleira do supermercado, água de coco ou suco de laranja? Nunca fui um bom alquimista, li dia desses que vão menos conservantes na água de coco, sei lá que diferença isso faz. A cena é cinematográfica, chego em casa e busco a sacola com meu kit, me sinto um coadjuvante de Trainspotting com uma seringa pontuda em mãos. Furo o fundo da caixinha de água de coco e retiro metade do líquido, a mão que segura a garrafa de vodka treme, encho novamente a seringa e preencho a embalagem usando o mesmo furo de antes, tapo a abertura com um pedaço milimétrico de durex. Torno a pegar a garrafa de vodka, a mão ainda tremendo, sirvo uma dose e bebo num gole só. Choro, por mim e por todos os bêbados que insistiram em criar descrença em seus queridos. Sóbrios ou não, permanecemos assistindo a ansiedade tomar conta.

Crédito da Imagem: Robert Mapplethorpe

Chegada 0 3334

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai