Texto de em 06 de outubro de 2016 . Nenhum comentário.

Hoje saí com teus brincos no bolso para, caso te encontrar,

A pequena-amarela entrou decidida pela janela do ônibus e pousou sobre o colo de Pérsio, que interrompeu a mensagem que seria para Mariana. A flor, que já tinha o marrom nas pétalas, desprendeu-se do ipê à margem da rua e encontrou em Pérsio sua poesia final.

Diante da frágil-força que se lançara ao mundo, Pérsio sentiu-se a flutuar e o peso dos brincos no bolso da camisa o devolveu ao abraço metálico do ônibus. Achou triste não ter com quem compartilhar a coincidência que de tão leve parecia sequer existir.

Sem tocar a pequenina, fez uma foto com o celular. Teve pena da pobrezinha condenada ao fim, talvez por vontade própria, por que não? Pérsio havia lido dia desses que o desejo da morte se alimenta da solidão. Lembrou-se das palavras como um acalanto e sorriu um daqueles sorrisos que se contentam com um sereno-suspiro.

Num rompante retomou o celular e publicou a foto no Instagram, “Visita Inusitada! #flowers”. Mas logo descobriu a real-razão daquele encontro, mesmo sabendo que a razão nunca explica o que vivemos com poesia.

Apagou o post e reservou a foto para Mariana, que a recebeu com as palavras:

“Uma flor de ipê amarelo acaba de entrar pela janela do ônibus e cair no meu colo. Vou ter que descer e não sei o que fazer com ela. Não quero só jogar fora, coitada. Mas se eu pegar, vai murchar na minha mão e vai ser triste. Então eu mando ela pra você, porque sim”.

por
que
sim

Enviou a mensagem e sorriu, agora ao mundo. Repleto. Levantou-se, apertou a campainha e desceu no ponto seguinte, levando consigo os brincos órfãos de Mariana.

Sequer tocou a flor, que caiu no ônibus e ficou. Ainda amarela, mas cada vez menos.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi