Texto de em 13 de outubro de 2016 . Nenhum comentário.

O que é isso se não um encarar-se?

Desta vez eu fui tão fundo que me senti a perder a linha de todas as coisas sólidas. Nenhuma tarefa era capaz de me resgatar daquela imensa incerteza, que fazia indiferente cada gesto e toque meu. A falta de sabor se tornava angústia à ponta da língua e convertia a saliva, a respiração e o caminhar em uma náusea profunda desta vida, como o amargo que resta após uma dose de café, sem açúcar, sem riso, sem ninguém mais. A bebida se dissipa da caneca, eu a tomo por inteiro, e resta apenas a impressão de que nada há de doce no âmago da consciência.

Será que foi ele quem fez isso comigo? Ou seus atos só refletem o fim inescapável de que é assim que é viver, afinal?

Meditei em busca do silêncio – eu, que embora a queira e tenha ciência de tamanha beleza, jamais medito. Só com o respirar mais profundo e ao cabo de um certo tempo, cuja noção eu já confundia, o coração entendeu que qualquer preocupação é tão funcional quanto apagar um incêndio com gasolina. Penso no signo atribuído a esse tudo – solidão – e finalmente as aulas de linguística se encaixam à materialidade do que existe: é isto que ele significa.

Estive só muitas vezes, mas tem sido diferente; eu aceito que assim é. De tudo só restou eu mesma e não há fuga possível. Até mesmo sentir-me assim soa efêmero diante deste ciclo infindável de dias que sucedem uns aos outros e trazem sempre outras impressões. Amanhã isso passará, mas essa conclusão bem pouco me ampara ou ajuda a descansar. Estou exausta.

Escutei, dia desses, que pedir desculpa é uma fuga para repetir os nossos atos sob o cômodo pretexto das falhas humanas. Mais vale mudar a postura do que desperdiçar através da boca uma palavra tão bonita, cuja expressão deveria se restringir aos dicionários. Mas ela existe porque a proferimos em excesso. Eu proporia aos linguistas trocar a “desculpa” por um vocábulo que defina o melhor exercício da conduta, e até sugiro o novo termo: florificar, definido como o ato ou efeito de ser flor ao mundo. Talvez esta transação jamais seja possível, mas quero acreditar num mundo em que a gente acerta mais do que erra e seja preciso inclusive repensar os dicionários, para que incorporem as novas palavras ao seu conteúdo e possamos utilizá-las largamente na referência a outros costumes.

Há tempos também leio mais do que escrevo porque tenho mais a ouvir do que a dizer. Do sabor amargo ao fim da xícara me resta degustar seus fragmentos, só. Leio o café em vez de escrever sobre ele e com isso aprendo sobre a angústia, sua fome amarga e consolos em vão. Nunca estarei pronta: sou ser em incessante passagem.

Faço mais café e tomo outra porção deste sôfrego sentir. Tudo é imenso hoje e também será amanhã…

Por isso, leio: nada sei sobre o mundo. Deste, porém, tenho tudo a compreender.

Carolina Goetten