Metragem 0 158

Qual o seu espaço?

Se espremessem você, caberia em quantos cm³?

Uma lata de sardinha seria suficiente?

Já se mediu? Pegou uma régua e contou os centímetros. A distância entre dois pontos.

 

Eu já mudei muito. De endereço, de cor de cabelo, de escola, de vizinhos, de ideais, de amigos. Posso dizer que tudo isso me tornou a pessoa que sou hoje. As mudanças deixam marcas, seguem rastros.

 

20 m²

Era o que tinha meu primeiro quarto, que dividia com minha irmã. Duas camas. Um baú. Um grande armário. Uma escrivaninha. A primeira mudança foi quando meus pais se separaram. Minha mãe mudou de casa e eu já não era mais a mesma, aos 9 anos. Me lembro do trabalho que dei na escola, das brigas frequentes em que me enfiava, dos palavrões mal educados, da sensação de não saber exatamente o que fazer. Anos depois, um pouco mais velha, decidi morar com a minha mãe e assim deixei pra trás a casa onde vivia desde que nasci.

 

22 m²

Tinha meu quarto no apartamento, na minha nova casa no número 74, no sétimo andar. Subi na vida… Quem me dera. Continuava dividindo o espaço com a minha irmã mais velha. O quarto era amplo, uma cama ao lado da outra. Um armário rústico de madeira. Gostava de olhar pela janela, observar os apartamentos dos outros andares. Imaginar o que se passava ali. Eu era uma menina magrela que usava camisetas com o dobro do tamanho padrão. Meus amigos de infância no prédio eram praticamente todos meninos. Assistíamos Dragon Ball Z aos sábados no Cartoon Network. Jogávamos futebol e videogame de igual pra igual.

 

15 m²

Media o primeiro quarto que era só meu. Um universo inteiro meu. Quis pintar as paredes, colar cartazes, deixar com a minha cara. Foi o início da minha autonomia. As primeiras saídas noturnas, o ensino médio, os flertes. E assim, minha adolescência se passou ali, feito um sopro. Naquele cubículo. Esse, sem dúvida, foi um dos lugares onde eu mais gostei de morar. Os anos seguintes me levaram para uns quatro endereços diferentes até chegar na casa em que vivo hoje, a mesma casa onde meus pais começaram a vida deles juntos.

 

25m²

É a medida exata do consultório da minha terapeuta. A mudança que mais me marcou, sem dúvida. Enfrentava em sessenta minutos, uma vez por semana, naquela sala, situações das quais eu fugi a vida inteira. Minhas dificuldades, minhas defesas, minhas angústias, minhas virtudes. Sessões intensas e serenas que me fizeram a pessoa que sou hoje. Posso dizer que foi essa mudança que me deu forças para continuar enfrentando a vida, foi o que me tornou uma pessoa melhor. Não importa em quantos metros quadrados eu esteja. Se casa, apartamento, pensão, sobrado.
 
 
 
texto: Andreia Porto é atriz e psicóloga que gosta de escrever e dizer o que sente.

Link: http://andreiaporto.tumblr.com/


ilustração: Ju Coelho é artista visual, designer, fotógrafa, colagista e inquieta.

Link: http://bomju.tumblr.com/

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Vida comum parte 1 0 129

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.

Chegada 0 676

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, prepare a casa
e meu coração pulou afora
bateu amor por toda a cidade

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Ela está vindo!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, mas levo ainda um pouquinho
e antes de te ter em meus braços
já tenho em todos os sonhos do mundo

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Minha menina vai chegar!

hoje recebi sua mensagem
Estou chegando, já não falta mais tanto
e prevendo as noites com você,
me vejo em claro sonhando

conto os dias, conto as semanas
conto para todos
Vou ser pai