Texto de em 08 de outubro de 2016 . Nenhum comentário.

Qual o seu espaço?

Se espremessem você, caberia em quantos cm³?

Uma lata de sardinha seria suficiente?

Já se mediu? Pegou uma régua e contou os centímetros. A distância entre dois pontos.

 

Eu já mudei muito. De endereço, de cor de cabelo, de escola, de vizinhos, de ideais, de amigos. Posso dizer que tudo isso me tornou a pessoa que sou hoje. As mudanças deixam marcas, seguem rastros.

 

20 m²

Era o que tinha meu primeiro quarto, que dividia com minha irmã. Duas camas. Um baú. Um grande armário. Uma escrivaninha. A primeira mudança foi quando meus pais se separaram. Minha mãe mudou de casa e eu já não era mais a mesma, aos 9 anos. Me lembro do trabalho que dei na escola, das brigas frequentes em que me enfiava, dos palavrões mal educados, da sensação de não saber exatamente o que fazer. Anos depois, um pouco mais velha, decidi morar com a minha mãe e assim deixei pra trás a casa onde vivia desde que nasci.

 

22 m²

Tinha meu quarto no apartamento, na minha nova casa no número 74, no sétimo andar. Subi na vida… Quem me dera. Continuava dividindo o espaço com a minha irmã mais velha. O quarto era amplo, uma cama ao lado da outra. Um armário rústico de madeira. Gostava de olhar pela janela, observar os apartamentos dos outros andares. Imaginar o que se passava ali. Eu era uma menina magrela que usava camisetas com o dobro do tamanho padrão. Meus amigos de infância no prédio eram praticamente todos meninos. Assistíamos Dragon Ball Z aos sábados no Cartoon Network. Jogávamos futebol e videogame de igual pra igual.

 

15 m²

Media o primeiro quarto que era só meu. Um universo inteiro meu. Quis pintar as paredes, colar cartazes, deixar com a minha cara. Foi o início da minha autonomia. As primeiras saídas noturnas, o ensino médio, os flertes. E assim, minha adolescência se passou ali, feito um sopro. Naquele cubículo. Esse, sem dúvida, foi um dos lugares onde eu mais gostei de morar. Os anos seguintes me levaram para uns quatro endereços diferentes até chegar na casa em que vivo hoje, a mesma casa onde meus pais começaram a vida deles juntos.

 

25m²

É a medida exata do consultório da minha terapeuta. A mudança que mais me marcou, sem dúvida. Enfrentava em sessenta minutos, uma vez por semana, naquela sala, situações das quais eu fugi a vida inteira. Minhas dificuldades, minhas defesas, minhas angústias, minhas virtudes. Sessões intensas e serenas que me fizeram a pessoa que sou hoje. Posso dizer que foi essa mudança que me deu forças para continuar enfrentando a vida, foi o que me tornou uma pessoa melhor. Não importa em quantos metros quadrados eu esteja. Se casa, apartamento, pensão, sobrado.
 
 
 
texto: Andreia Porto é atriz e psicóloga que gosta de escrever e dizer o que sente.

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ilustração: Ju Coelho é artista visual, designer, fotógrafa, colagista e inquieta.

Link: http://bomju.tumblr.com/