Sombras Difusas 0 73

Dormem durante o dia os demônios que invadem a noite?

 

Drive Thru do fast-food, outra vez, mesmo o menu de café da manhã é gorduroso e pobre em vitaminas. Sabe disso, só não se importa, também não tem tempo de pensar em outra coisa. Está atrasada faz mais de quarenta minutos, e mais do que comida, precisa de um café forte. Na noite anterior teve happy hour com as colegas do trabalho, metade do preço no sushi e na saquerinha até as 21h. A última companheira de mesa foi embora às 21h30, após três saquerinhas de kiwi, para ela a noite estava apenas começando.

 

Os penhascos fazem sombras que reforçam a escuridão dos abismos.

 

A bandeja com café presa entre as coxas, a mão que envolve o folhado também encontra espaço para segurar o volante, a outra se alterna entre o café e o câmbio do carro. Queria ter outra mão para mudar a música, está definitivamente cansada da Rihanna. Come o último pedaço de folhado sem mastigar muito bem, as olheiras que encara no retrovisor a fazem lembrar que é necessário um pouco de maquiagem. Merda, não vai dar mesmo pra passar a música. O resto de café morno esquenta sua azia, por precaução sempre há um estomazil na bolsa. Estaciona o carro na vaga de sempre. Não sabe qual dos quatro perfumes emergenciais que deixa na porta do carro irá usar hoje, fecha os olhos e deixa o acaso escolher, tem funcionado.

 

Ninguém fica nu pela ausência de roupas, sim pela existência de normas.

 

O beijo de despedida, dado próximo às cinco da manhã, foi bastante tímido se comparado com os que recebeu horas antes, distribuídos quase que uniformemente pelo seu corpo. Sozinha, na cama, o cansaço se aliou ao torpor para vencer a insônia. Não é necessário calor alheio para embalar o sono, não mais. A vida sempre oferta uma nova fase, todos os dias, por mais que não pareça. Existe meio de não abraçar incertezas? Sentia que a resposta logo viria, infelizmente acordou antes disso. Passou a sonhar com esse tipo de questão, assim que se habituou a cochilar no banheiro do escritório. Mais um café, possivelmente mais antiácido. Combinou de sair a noite com as ex-colegas de faculdade. Onde seus braços vão parar?

 

Gabriel Protski

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”