Surpresa 0 96

Tinha sido um dia de expectativa, de “mais tarde tem”, de uma alegria suspensa com estofo chato e previsível. Trabalhei demais, com direito até a duas horas-extra, que cairiam direto no meu banco de horas, nunca em dinheiro na conta. Estava cansada de ficar atrás da tela do computador. Meus olhos doíam um pouco, acho que por causa do excesso de luz artificial. Programei um pedação de um site que estava construindo e gastei tempo com notícias que me interessam e outras que não. A família de um ator que acabou de morrer abriu a casa pela primeira vez para mostrar a coleção milionária de quadros do finado para uma revista. Um ministro de estado deu um salto mortal ao vivo na tv, em uma demonstração prática de seus exercícios caseiros. Ganhei em umas, perdi em outras.

20h40, hora de sair – do estúdio direto para o primeiro posto de gasolina: duas long necks de eisenbahn, sempre em promoção, dois pães de queijo e um trident canela. Crédito, pra render milhas. Não precisa da minha via, moço, obrigada. Comecei a peregrinar pela Mateus Leme, com os fones no talo, alternando entre spotify e umas músicas soltas do youtube. Só porrada. Um pouco de Napalm Death para animar a caminhada, um pouco de Meshuggah para cadenciar o passo e circular dançante pela rua. Senti um pouco de refluxo no final da segunda cerveja, mas não dei importância. Não ia parar de tomar por tão pouco, mas sabia que tinha feito mal em esquecer o Plasil na casa dos meus pais.

Encontrei um trecho silencioso na altura do Mueller e liguei para a Ketlin, que estava chegando com o namorado Roberto, de carro. Eles me buscaram para jantar pastel antes do show. The Black Dahlia Murder no John Bull, vamos ver, vamos ver. Duvido que eles tocam naquela velocidade por mais que vinte minutos sem perder vigor. Duvido que não aprendo pelo menos uns três riffs de Deathmask Divine só de olhar para as mãos dos guitarristas.

Voltamos a tempo de perceber que tínhamos perdido as bandas de abertura. Às 21h40 a atração principal subiu ao palco. Eles estavam na porta, do lado de fora, tomando umas com o público e esperando a hora de quebrar tudo. Alternaram entre canções mais antigas e outras das levas mais recentes. Show amplo, show para todos.

No meio da quarta cerveja lá dentro olhei para minha comanda e me decepcionei com a falta completa de auto-controle. Levantei a cabeça e corri o olhar pela plateia. Atrás da mesa de som, no camarote – mais um elevado que um camarote, vá lá – uma surpresa. O homem do momento. O chefe da república.

Ketlin, aquele cara de boné e camisa do Mastodon ali no camarote é quem eu tô pensando?

Ai, amiga, é O MORO. Mas ele também agora não perde um show em Curitiba, né? Não entre em pânico.

Soltei uma risada aguda de uma só nota, como quando a gente se diverte mas lembra de voltar logo ao centro para não se expor demais.

 

Texto, imagem

Marco Antonio Santos

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”