A.G.I.C. 0 217

Passava pouco das seis, mas apesar do horário de verão já era noite – ao menos para o transeunte pouco acostumado com a capital paranaense. Foi naquela oportunidade que, pela primeira vez, alguém interagiu com aquilo que viria a ser chamado de A Grande Infestação de Curitiba pelos livros de história. Para fins de registro, o primeiro cidadão foi um homem qualquer, branco, 30 anos, trabalhador, blá-blá-blá. Ele entrou no terminal do Cabral e, ao pisar apressado no último degrau para a plataforma do Santa Cândida/Capão Raso, sentiu aquela sensação relativamente incomum mas fácil de reconhecer e entender que é a de engolir um inseto. Cuspiu, quase vomitou, praguejou um “Puta merda, mas era só o que me faltava mesmo!” – como se a sua vida estivesse especialmente difícil naquele dia, mas não estava – e seguiu adiante, rumando ao Shopping Palladium, pegando o ônibus no sentido que ia para o terminal do Capão Raso.

Curitiba passou a ser assolada aí, e a partir desse primeiro contato, as mariposas começaram a tomar conta do terminal. Começaram pela própria plataforma do biarticulado, depois as banquinhas de doces, as de churros e crepes suíços e ao final até o túnel subterrâneo foi completa e inacreditavelmente dominado pelos bichos. Tudo isso num intervalo curto, coisa de dois ou três dias após a invasão bucal do personagem que deixamos no Portão.

A Grande Infestação de Curitiba foi implacável. As mariposas deixaram de ocupar apenas o terminal e se espalharam pelas redondezas. Eram “Milhares, milhões – talvez bilhões!”, dizia o chefe de um instituto local especializado em mariposas, o IMMC. Nas entrevistas que dava às rádios e televisões locais, o tom do cientista era de espanto, incredulidade e algum torpor. “Não faz sentido”, afirmava. “Não faz nenhum sentido”, finalizava. Ele, que era mais um homem qualquer, também branco, mas com 40 anos, etcetcetc, vinha passando por graves turbulências na vida afetiva que recentemente tinham se convertido em uma relação bastante próxima com o álcool e outras drogas relaxantes. Isso pode ter levado o pobre diabo ao estado de total confusão que apresentava nos depoimentos e – talvez – atrapalhado um pouco o rumo das pesquisas e diagnósticos? Pode. Mas isso não foi documentado, de forma que não nos interessa aqui.

Foram dois meses de extrema balbúrdia e confusão. Os taxistas pararam de entrar na região, porque “O pozinho que elas soltam acaba ca lataria!”. Um cadáver de cachorro teria sido encontrado próximo à Pastelaria Juvevê, com os buchos de fora e supostamente com uma mariposa gigante ainda a mastigar a pata posterior direita. Uma mulher afirmava ter flutuado por quadra-e-meia com a ajuda de um colossal coletivo daqueles insetos, seja lá qual for o nome que se dê a um coletivo de mariposas.

A Grande Infestação de Curitiba compreendeu, geograficamente, um pentágono de forma meio troncha mas de linhas quase perfeitas. Os vértices eram: O estádio do Coxa, à época com o melhor ataque da série B do Brasileirão; O museu Oscar Niemeyer, que trazia uma exposição surpreendentemente reveladora sobre a Semana de 22; o Alkatrazz Entertainment Complex, um espaço moderno de conceito confuso, decorado com algemas, barras de ferro e outros motivos prisionais, localizado na rua Anita Garibaldi, exatamente onde ficava o antigo presídio do Ahú; o aeroporto do Bacacheri, com sua tradicional pasmaceira e falta de destaques dignos de nota; E, por fim, um boteco de esquina na Dr. Goulin, famoso pela suspeita e deliciosa linguiça defumada caseira, confeccionada pelo próprio dono.

Como vieram, as mariposas se foram. Analisando friamente, a área nem era tão extensa, municipalmente falando, e o tempo de duração do domínio mariposal* não foi tão longo, se comparado à vida humana. Também não foi exatamente danoso, mas na falta de uma infestação mais parruda, o evento segue sendo chamado de A Grande Infestação de Curitiba.

 

*A palavra foi cunhada à época da infestação.

 

texto e montagem por Rômulo Candal.
foto de Victor W. Fazio III Flickr via Compfight cc.

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Dai-me Amor 0 248

Deus foi a primeira palavra que eu aprendi. Antes mesmo de aprender meu nome. Quando se é criança, os adultos tentam nos ensinar as coisas dos jeitos mais variados. Criança só aprende brincando. Minha mãe mandava eu pintar todos os “Deus” que eu achasse na Bíblia. Ela me disse que Deus sempre existiu e nunca nasceu. Perguntei como Ele se parecia. Ela disse que não sabia, pois a glória dEle é tão grande que era como olhar pro Sol. Tentei olhar pro Sol, ardeu.

Depois de pintar tudo, eu aprendi a palavra Jesus. Ela me disse que Jesus é a encarnação do amor, é quem criou todas as coisas. É filho de Deus com uma humana, Maria. Me disse que tem barba e cabelo grande. E que seu olhar muda e transforma escuridão em luz.

Mais tarde ela me falou pra pintar o “Espírito Santo” e disse que Ele não tem forma, corpo ou manifestação material. Já foi pomba no batismo de Jesus, mas também é descrito como o brilho da Glória de Deus. Ela me explicou que Deus se manifesta na trindade. E que eu podia falar com Ele(s) quando eu quisesse. Bastava orar e, é claro, com todo o respeito. E que quando eu orasse deveria confessar meus erros e pedir perdão. Deveria agradecer pelas dádivas e pela bênção da vida. Que deveria contar sobre meu dia, sobre meus medos, descobertas e felicidades. Foi assim que Jesus se tornou meu melhor amigo. Meu amigo imaginário. Meu Deus. Minha mãe me ensinou um bocado de coisas sobre a Bíblia, o céu e sobre como a vida nessa terra é passageira, é escola, é aprendizado, nada é por acaso, nada é destino. Tudo é providencial. Providência divina. Tudo de bom e tudo de ruim tem como propósito nos ensinar sobre Deus, e como Ele age em nossas vidas. Ela me contou que se eu deixasse, Ele poderia morar dentro do meu coração, e assim, o divino habitaria em mim. Disse também, que Jesus vai voltar pra levar os justos pro céu. Perguntei como eu fazia pra ir pro céu, ela me disse que imitando a Jesus, O aceitando como meu Deus e salvador, sua Graça me salvaria independente das obras. Me ensinou que só a religião dela era a correta e junto com essa religião muitas regrinhas, que eu nunca consegui seguir. Por muito tempo achei que por causa da parte que eu não cumpria, Deus não habitava em mim. Me senti perdida, vazia. Comecei a me odiar. Acelerar minha morte. A vida muitas vezes deixa de fazer sentido. Acontece que eu sou muito como Tomé, só acredito vendo. E como acreditar em alguém que eu só ouvi falar e que ninguém nunca viu? Com nove anos veio a primeira dúvida sobre a volta de Jesus. Junto com a dúvida veio a primeira vez que senti Deus falando comigo. Foi diferente de pensar. Foi quase como ouvir palavras que não foram pensadas. Eu ouvi: “Não desista, porque Eu não desisti de você”. Depois desse episódio nunca mais ouvi ele nos meus pensamentos, achei que era coisa de criança ter amigos imaginários, mas vira e mexe alguém usado por Ele me lembrava sobre não desistir de conhecê-Lo e procurá-Lo. E nessa eu vi que Ele não estava na religião. Não estava em uma igreja específica, não era o “não pode” tão popular. Compreendi o que significava Graça e aceitei a minha salvação. Aceitei a trindade e aceitei a minha mãe. Compreendi que amar nada tem haver com sexo ou paixão. Amor transcende toda essa metáfora feita de carbono que chamamos de realidade. Aceitei meu corpo, que foi presente de Deus pro meu espírito habitar. Espírito esse que saiu dEle.

A segunda vez que Deus falou comigo eu já não era mais criança, foi quando percebi que Deus não é religião e um bocado de regrinhas. Ele está onde há luz. E Ele deixou luz em tudo. Tomei um chá com Ele. Meu espírito saiu do corpo e subiu. Contemplei a Glória divina e senti meu espírito ir alto e mais alto. Eu vi a Deus e diferente do que minha mãe dizia, é como olhar pro Sol, mas os olhos não ardem. E Ele me disse: você é um anjo. Você é luz! Você está pronta!

Mateus 5:8 “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”

 

 

Vida comum parte 1 0 389

Vida comum parte 1

Véspera de feriado, antes da meia-noite e eu já com meia garrafa de conhaque na mente. Curtia me derreter no gole, de dose, de lata, de garrafa, de todo jeito. No feriado rolou um churrascão que nem lembro se comi, dropei umas caipiras antes de acender o fogo e fiquei mais preocupado com a temperatura das garrafas que da carne. Sábado a ressaca com a mão pesada, tava batendo forte, contra-ataquei com uns latão, encostado nos fundos do posto com a rapeize, só flagrando os doidinho tirando uns racha de Parati, Chevette e Gol Chaleira. Domingo rolou rave na região metropolitana, no meio do mato, não virava ir de bonde, botei uma gasolina na Bizz e meti o pé; duas carteiras de Minister depois já tinha descido whisky com energético, vodka com suco, vários ampola, um doce e umas água colorida que os parceiro botaram, sei lá qual fita, puta gosto de remédio. Bati a nave antes da hora, cheguei em Grayskull sem nem aproveitar a viagem, ensaiava falar e não saia voz, tava tenso, me mordendo, fiquei nervoso: deu bad. Tentei endireitar a caminhada tomando umas águas, mas não rolou, a conta não batia, os dentes rangendo, coração agitado querendo se mudar do peito. Precisava voltar pra minha goma, tomar um banho, talvez dois, sei lá, só precisava vazar, montei na moto e fui. Tava com dois IPVA atrasados, cabreiro de cair numa blitz, e se soprasse um bafômetro explodia a máquina – certeza. Queria chegar logo, entrei no modo Valentino Rossi e corri a milhão, como se fosse fuga. Foi aí que deu ruim no piloto automático, se pá que dormi em cima do jato, lembro só de uns clarão, uns flash. Vi o céu por baixo, deitado no asfalto, sei lá qual fita, tudo nublado, que dia bosta. Me liguei e já tava todo remendado no hospital, numa sala com umas vinte cabeça, todo mundo fudido, uns mais outros menos. Eu? Era cabeça de chave do grupo dos desgraçados: com a lata do frankstein, olho roxo, cara inchada, nariz quebrado, uns ponto na testa. Trinquei uma costela e quebrei outras duas, a clavícula rachou e a mão tava na carne viva. O médico foi desenrolando essa lista aí e eu aceitando na moral, os pensamentos embaçados, cheio de analgésico, todo bagunçado de dor. Aí teve uma mão que ele deu uma pausa, ficou mais bolado e mandou A real: disse que eu sofri um choque cabuloso no quadril, perdi mais de 80% do fígado, que num tinha como dizer o tamanho real do estrago, mais uma fita era certa, nunca mais ia poder beber, se tomar meia lata que seja, posso encomendar o caixão. Acordei umas três vezes crente que tava tendo um pesadelo, foquei umas horas que tava numa brisa errada de doce. Mas não. A vida é uma viagem desgraçada.