A.G.I.C. 0 125

Passava pouco das seis, mas apesar do horário de verão já era noite – ao menos para o transeunte pouco acostumado com a capital paranaense. Foi naquela oportunidade que, pela primeira vez, alguém interagiu com aquilo que viria a ser chamado de A Grande Infestação de Curitiba pelos livros de história. Para fins de registro, o primeiro cidadão foi um homem qualquer, branco, 30 anos, trabalhador, blá-blá-blá. Ele entrou no terminal do Cabral e, ao pisar apressado no último degrau para a plataforma do Santa Cândida/Capão Raso, sentiu aquela sensação relativamente incomum mas fácil de reconhecer e entender que é a de engolir um inseto. Cuspiu, quase vomitou, praguejou um “Puta merda, mas era só o que me faltava mesmo!” – como se a sua vida estivesse especialmente difícil naquele dia, mas não estava – e seguiu adiante, rumando ao Shopping Palladium, pegando o ônibus no sentido que ia para o terminal do Capão Raso.

Curitiba passou a ser assolada aí, e a partir desse primeiro contato, as mariposas começaram a tomar conta do terminal. Começaram pela própria plataforma do biarticulado, depois as banquinhas de doces, as de churros e crepes suíços e ao final até o túnel subterrâneo foi completa e inacreditavelmente dominado pelos bichos. Tudo isso num intervalo curto, coisa de dois ou três dias após a invasão bucal do personagem que deixamos no Portão.

A Grande Infestação de Curitiba foi implacável. As mariposas deixaram de ocupar apenas o terminal e se espalharam pelas redondezas. Eram “Milhares, milhões – talvez bilhões!”, dizia o chefe de um instituto local especializado em mariposas, o IMMC. Nas entrevistas que dava às rádios e televisões locais, o tom do cientista era de espanto, incredulidade e algum torpor. “Não faz sentido”, afirmava. “Não faz nenhum sentido”, finalizava. Ele, que era mais um homem qualquer, também branco, mas com 40 anos, etcetcetc, vinha passando por graves turbulências na vida afetiva que recentemente tinham se convertido em uma relação bastante próxima com o álcool e outras drogas relaxantes. Isso pode ter levado o pobre diabo ao estado de total confusão que apresentava nos depoimentos e – talvez – atrapalhado um pouco o rumo das pesquisas e diagnósticos? Pode. Mas isso não foi documentado, de forma que não nos interessa aqui.

Foram dois meses de extrema balbúrdia e confusão. Os taxistas pararam de entrar na região, porque “O pozinho que elas soltam acaba ca lataria!”. Um cadáver de cachorro teria sido encontrado próximo à Pastelaria Juvevê, com os buchos de fora e supostamente com uma mariposa gigante ainda a mastigar a pata posterior direita. Uma mulher afirmava ter flutuado por quadra-e-meia com a ajuda de um colossal coletivo daqueles insetos, seja lá qual for o nome que se dê a um coletivo de mariposas.

A Grande Infestação de Curitiba compreendeu, geograficamente, um pentágono de forma meio troncha mas de linhas quase perfeitas. Os vértices eram: O estádio do Coxa, à época com o melhor ataque da série B do Brasileirão; O museu Oscar Niemeyer, que trazia uma exposição surpreendentemente reveladora sobre a Semana de 22; o Alkatrazz Entertainment Complex, um espaço moderno de conceito confuso, decorado com algemas, barras de ferro e outros motivos prisionais, localizado na rua Anita Garibaldi, exatamente onde ficava o antigo presídio do Ahú; o aeroporto do Bacacheri, com sua tradicional pasmaceira e falta de destaques dignos de nota; E, por fim, um boteco de esquina na Dr. Goulin, famoso pela suspeita e deliciosa linguiça defumada caseira, confeccionada pelo próprio dono.

Como vieram, as mariposas se foram. Analisando friamente, a área nem era tão extensa, municipalmente falando, e o tempo de duração do domínio mariposal* não foi tão longo, se comparado à vida humana. Também não foi exatamente danoso, mas na falta de uma infestação mais parruda, o evento segue sendo chamado de A Grande Infestação de Curitiba.

 

*A palavra foi cunhada à época da infestação.

 

texto e montagem por Rômulo Candal.
foto de Victor W. Fazio III Flickr via Compfight cc.

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”