Texto de em 24 de novembro de 2016 . Nenhum comentário.

Assegurei a meus pais que havia feito todos os exames.
Menti. Fiz os que deveria, conforme recomendado pelo médico, mas menti.

Dias atrás, disse a Bino que ainda o amava.
Menti, outra vez.

Ontem sustentei que já não o queria, para nunca mais.
De novo, menti.

Desmarquei compromissos: “trabalho a fazer”;
Folguei, pernas para o ar.

Terminei o livro; mais um.
Sequer o comecei. É possível que não tenha lido nem mesmo a primeira frase.

Enchi os pneus da bicicleta.
Tudo se esvaziou.

Sigo a dizer inverdades e por isso me calo mais agora, comunicando-me sob a eloquência dos silêncios. Curiosa é a matéria da palavra, que sai afora a distorcer o lado de dentro, desloca coisas outras para além do que fora encarregada de dizer, incrementa-se delas e muda inteira de figura. Quando chega ao mundo já tem a forma diferente, refinada em meio às bactérias da faringe e às significações alteradas sob o próprio fluxo de passagem dos pensamentos. O que eu pensava um segundo atrás é outra coisa neste momento. Já não é a verdade – embora a contenha –, mas não é, nem pode ser minha mais pura franqueza.

Mesmo agora: por que escrevo? estas vãs palavras são fruto de uma perseguição inalcançável. Inútil tentar. Por vezes me flagro pensando: “Bino, caramba, como eu te amo”, quando ao mesmo tempo não o amo da forma como expressei, e desejo sofregamente ficar só. Ao dizer, minto. Assim me calo.

Talvez não haja diálogo possível: a palavra sai de mim sob outra fisionomia, difere quase por completo de quando a formulei em mente. Ainda ali dentro não foi capaz de dar conta das realidades que pensei. Depois se faz verbo, letra, gesto. O outro a escuta, a lê, sente seu cheiro, toda deformada de mim, revestida de mundo, de esquinas, de novas cores. Depois a leva a dentro, para o interior de si, onde comete a imprecisão de interpretá-la e novamente tudo se altera. Então eu lhe escapo por inteiro e tudo que eu queria dizer vira pó. “Eu te amo”. Tenho disso alguma garantia? Que fazem três palavras como essa em meio às profundezas da alma humana, em que tantos sentimentos coexistem? “Talvez” é a única sentença verdadeira. Talvez…

Posso gritar, espernear-me, vociferar meu dentro; o efeito não muda. A palavra não alcança o âmago de mim, e não consigo com ela chegar ao mais íntimo de Bino, ou de meus pais, ou de quem quer que seja. Sou em mim uma coisa. Para eles, sou outra. Dói nunca ser nada.

Minto e silencio a todo momento. Por isso, contemplo o mundo. Nenhuma razão lhe apreende com a fidelidade do espírito. Mais me vale informar a mudez, contraste indispensável ao diálogo, do que dizer o que não é. Ao menos o silêncio, a não-palavra, é coisa pura do início ao fim.

Não direi a Bino que o amo. Não direi mais nada. Assim, quem sabe, talvez, ele compreenderá.

por Carolina Goetten

 

*Fotografia registrada em viagem ao deserto do Atacama, cuja paisagem grita o mais violento dos silêncios.