Texto de em 06 de Fevereiro de 2017 . Nenhum comentário.

Eu me vejo em todas as mulheres que encontro.

Em muitas percebo a presença de alguém que já fui. Meu passado está vivo em um de seus gestos, minhas cicatrizes em seus pesares e todo novo modo de pensar tem na insegurança de cada uma delas a semente que, daquele mesmo solo tão árduo, fez-se flor em mim. Há nesse passado um medo oculto a mascarar-se no automatismo da rotina. Há, num ponto ou outro com que me identifico, uma resignação estagnada sem gosto nem cheiro, quase sem vida. Há uma dor que de funda não sabemos o que ela é, nem por que machuca tanto.

N’outras tantas, aos milhares, contemplo quem lutei para deixar de ser. Vejo condutas superadas e rememoro a dor que vivi para desorganizar a teia de ideias que se entrelaçavam no meu cérebro, no meu peito, nas decisões, nos conceitos e por tudo à minha volta; um tecido que se fiava sob uma receita pronta, enquanto eu só seguia o traçado que aprendi, sem pensar, sem refletir, sem saber que cada nova linha engrossava a jaula ao meu redor e me mantinha cada vez mais presa dentro de mim. Em encontros como este a memória do caminho percorrido tem um cheiro mais latente do que as recordações da mulher cega que fui. Já ouvi dizerem que a ignorância é uma bênção, mas eu a considero o segundo pior nos abismos dos vivos, porque mata por dentro e nos amarra os pés, sem que possamos distingui-los como uma força que nos pode tirar dali. Não há, porém, inferno maior do que enxergar a brutalidade da nossa vida e abrir as portas do peito à dor de mudar todo o traçado e tudo o mais que aprendemos até então. Cada ponto e cada nó deve ser desfeito e depois refeito de modo que a linha nos seja aconchego e calor; não mais algemas.

Em mulheres que se mantém próximas pela harmonia de nossas cadências eu vislumbro muito do que sou, num equilíbrio geral de ideias, num consenso mais ou menos próximo de posturas e opiniões. Mas em nossas diferenças vejo ainda pedaços de tecido não desfeitos e linhas soltas por fiar. Algumas já trocaram toda a cor mas não avançam no desalinho, outras já soltaram quase tudo o que havia e têm diante de si o desafio de reaprender consigo mesma o melhor método de fiá-las outra vez. E há as que avançam passo a passo, num gesto que segue adiante conforme um novo nó se desfaz. Como eu.

No entretanto, é por ver em tão poucas quem quero ser que às vezes me canso, sinto-me exausta, desabo à calçada querendo que o mundo me diga quando essa corrida de linhas e agulhas vai enfim terminar. Tenho sede, tenho ganas de fazer outras coisas da vida, quero andar segura por aí e trilhar logo meus passos por um caminho livre dos maus hábitos que me fazem retroceder ou me ferem de novo. Tenho uma cortina inteira que costuro para se abrir, mas que se fecha à claridade em muitas horas do dia.

E quando o cansaço parece insuperável uma companheira preenche o meu copo com cerveja gelada, meu peito com sorriso quente, as angústias e inquietações com a sombra de uma resposta. Nesse momento a epifania me desfaz mais um nó e põe-me pronta a fiar mais uma parte do caminho: nesse tear a gente se costura umas às outras também. Uma jaula que abre um furo pela primeira vez é ponto de luz e de ar puro, livre de nossos fardos, trazendo os ventos de um outro mundo. Com mãos em soma de forças é possível rasgá-lo mais e mais, ampliando as rupturas até onde for possível, e até que as cortinas se abram para todas.

 

Carolina Goetten