Texto de em 26 de Abril de 2017 . Nenhum comentário.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti o peso das minhas decisões cair sobre as costas pela primeira vez. Dobrando as roupas ao meu modo rústico, empurrando para que coubessem dentro da mala, e tentando fazer de cabeça, mas com a ajuda dos dedos, a matemática de cuecas X meias X calças X número de dias, foi que percebi que talvez não estivesse pronto para ser adulto sozinho.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti desabar sobre mim a montanha de ausências da semana seguinte. A casa vazia ecoando os silêncios das horas úteis, o meu lado gelado na cama pela metade, e o despertador adormecido sem ninguém para acordar, gritaram a minha partida pela casa inteira.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti o medo da morte. Sempre amei a vista da janela do nosso apartamento, com árvores e pássaros escondendo o olhar curioso da rua como uma redoma de vida, mas agora ameaçadas pela chegada implacável do ar fresco de outono, talvez não estivessem mais presentes no meu retorno.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti o peso da bagagem que levava comigo cheia da saudade que viria. Dos almoços, das cervejas, dos cafés, dos jantares, e dos abraços. Das ruas, das cores, dos parques, dos caminhos, e dos bares.

Foi fazendo as malas para ir à cidade, que senti. E muito.

Foto: paxpuig