Colecionador de não encontros 0 82

Texto e ilustração: Caroline Rehbein

 

Resolveu entrar no bar. Pediu uma cerveja e um pastel, enquanto esperava permaneceu contando as gotículas que compunham o gelo da garrafa estampada no refrigerador. Gostava de comer sozinho, de andar sozinho, como também morar e passar todo tempo livre que podia sozinho. Era professor. Passava horas por semana rodeado de gente. E essas horas viravam semanas. Era bom quando passavam rápido. Às vezes, quando se dava conta, nove meses haviam sido gastos com os mesmos casos sem esperança e as férias vinham aí. Sentia-se a maior parte do tempo sem tolerância.

Diferente da maioria, naquela noite entrou no estabelecimento a procura de companhia. Nas férias, em alguns momentos, sentia saudade das pessoas. Passava tanto tempo sozinho que sentia vontade de se relacionar, as férias eram um período nebuloso, chegava a quase criar relacionamentos amorosos caóticos, baseados em supostas emoções que costumavam surgir nessa época. Sentiu um calafrio ao lembrar-se de quando havia se apaixonado pela moça da padaria por sempre atendê-lo com um sorriso no rosto, mal sabia ele que a menina não batia bem.

O “quase” era o máximo de comprometimento que conseguia manter com as pessoas. Não que demorasse a gostar delas. Sofria exatamente pelo contrário. Era com o tempo que o sentimento acabava. Conhecer um pouco mais era o que bastava para perder o interesse inicial.

Sentou-se de frente para entrada do estabelecimento. Observou as pessoas que ali estavam e se deu conta que conhecia os jovens hipsters e os velhos bêbados, eram todos da vizinhança. Como ele, também moravam por ali, frequentavam muito o lugar e algumas daquelas pessoas já lhe pareciam familiar. Ali, quase sem querer, esperava encontrar companhia em cada um que entrava.

O pastel veio. Comeu a metade e um pouco mais. O tempo passava e ele ficava ali, fingindo. Fingia não se importar, fingia não ouvir as conversas, fingia não conhecer as pessoas e, é claro, fingia não estar só.

Tomou outra cerveja, arrependeu-se de não ter o que fumar. Nenhuma companhia apareceu. Colecionava situações como aquela.

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maculada 0 203

Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”