Texto de em 02 de Maio de 2017 . Nenhum comentário.

Texto e ilustração: Caroline Rehbein

 

Resolveu entrar no bar. Pediu uma cerveja e um pastel, enquanto esperava permaneceu contando as gotículas que compunham o gelo da garrafa estampada no refrigerador. Gostava de comer sozinho, de andar sozinho, como também morar e passar todo tempo livre que podia sozinho. Era professor. Passava horas por semana rodeado de gente. E essas horas viravam semanas. Era bom quando passavam rápido. Às vezes, quando se dava conta, nove meses haviam sido gastos com os mesmos casos sem esperança e as férias vinham aí. Sentia-se a maior parte do tempo sem tolerância.

Diferente da maioria, naquela noite entrou no estabelecimento a procura de companhia. Nas férias, em alguns momentos, sentia saudade das pessoas. Passava tanto tempo sozinho que sentia vontade de se relacionar, as férias eram um período nebuloso, chegava a quase criar relacionamentos amorosos caóticos, baseados em supostas emoções que costumavam surgir nessa época. Sentiu um calafrio ao lembrar-se de quando havia se apaixonado pela moça da padaria por sempre atendê-lo com um sorriso no rosto, mal sabia ele que a menina não batia bem.

O “quase” era o máximo de comprometimento que conseguia manter com as pessoas. Não que demorasse a gostar delas. Sofria exatamente pelo contrário. Era com o tempo que o sentimento acabava. Conhecer um pouco mais era o que bastava para perder o interesse inicial.

Sentou-se de frente para entrada do estabelecimento. Observou as pessoas que ali estavam e se deu conta que conhecia os jovens hipsters e os velhos bêbados, eram todos da vizinhança. Como ele, também moravam por ali, frequentavam muito o lugar e algumas daquelas pessoas já lhe pareciam familiar. Ali, quase sem querer, esperava encontrar companhia em cada um que entrava.

O pastel veio. Comeu a metade e um pouco mais. O tempo passava e ele ficava ali, fingindo. Fingia não se importar, fingia não ouvir as conversas, fingia não conhecer as pessoas e, é claro, fingia não estar só.

Tomou outra cerveja, arrependeu-se de não ter o que fumar. Nenhuma companhia apareceu. Colecionava situações como aquela.