O instante que se propõe eterno 0 123

“Estou vivendo um eclipse”, disse Mariana e iluminou o mundo com o brilho dos seus olhos. Uma luz que ninguém viu. Uma luz que ela sentia e levaria uma vida inteira a tentar compreender. Um entender sem pressa, que de tanto sentir, pouco importaria chegar a alguma definição.

Pouco ou quase nada ocorre no desenrolar de um instante. Muito esperamos, mas dificilmente nos damos conta de que o que define a vida acontece durante o tempo em que o mar leva para absorver a imensidão de uma gota de chuva. A explosão da água contra o seu universo de origem dura um punhado de tempo percebido por ninguém. Logo tudo é todo. Logo é passou.

Se distraídos julgamos viver em decadência, é por perceber nunca que passamos a eternidade na busca por reacender a faísca que explodiu no momento em que acontecemos. E que passou.

Para os céticos, um eclipse acontece por uma coincidência astronômica. Uma total ausência de poesia. Algo que nos escapa a dimensão, mas que petulantemente nos atrevemos a definir e acumular junto às coisas que julgamos dominar. Sequer compreendemos a grandeza de um sol que se ergue todos os dias diante de nós, mas nos acalma limitar as coisas dentro de conceitos, sem levarmos em conta o que existe além do que vemos na nossa finita existência. O todo que nos contém.

E foi por nunca se deixar convencer da concretude da vida que Mariana viu em si o alinhamento de um eclipse. Compreendia a poesia do instante que se propõe eterno.

A visão de um pôr do sol jamais seria a ilusão de ótica que as passageiras ideias insistiam em lhe falar. Tinha a certeza de que, ao contrário das teorias, a beleza torna-se parte de quem a flagra na eternidade do instante de sua perpetuação. E foi ali, diante da imensidão de um alinhamento que ninguém mais percebeu, que Mariana reconheceu-se num eclipse e eternizou a beleza em si. Uma beleza em forma de um sorriso que se iniciava em seus olhos e descia pelo rosto, milímetro a milímetro, equilibrando-se por fim nos cantos da boca a soletrar: “E-clip-se.”

Diante do escuro de seu quarto, olhando para um teto absorvido pela luz ausente, Mariana percebeu-se maior. Compunha um eclipse. Absorvida pela beleza que brilharia consigo enquanto fechasse nunca os olhos para a imensidão das coisas que a arranjavam.

Sabia que a felicidade seria sua capacidade de reconhecer e estender instantes preciosos por todo o seu caminho. Eternizaria o vasto brilho daquela faísca que jamais lhe sairia dos olhos. Carregava consigo o cosmos. O infinito. O silêncio que tudo absorve. Que tudo é. E Mariana era tudo ao constatar-se parte de um universo. Um universo de si.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

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Tenho cá pra mim que deveria ser obrigatório parar pra saborear a lua por uns minutos quando ela está imensa lá no céu. Deveria ser mesmo uma lei: não admirou a lua cheia nesta quinta-feira? Vem a multa pelo correio. Não deu uma mordidinha sequer durante toda a semana? Vem a polícia da lua até a sua casa para ver o que se passa. Algo não está a correr bem.

Naquela época, as coisas não estavam mesmo bem. Quando as manchas começaram a aparecer , foi um desespero. Google, médicos, Google, exames, Google, dermatologistas, diagnósticos, tratamentos. Céus! Não era coisa que se pudesse esconder, aí é que estava o medo. Na pele. O medo era feito de manchas e as manchas eram feitas de medo. Céus! Foi minha família que me segurou, se não eu não aguentava. Juro que não aguentava. Eu queria quebrar os espelhos, queria que as selfies não estivessem mais na moda. Que as pessoas fossem um pouco mais cegas dos olhos e menos do coração.

Então uma vez estávamos eu e a minha filha sentados na varanda da casa de veraneio. Começava a anoitecer. Ela tinha nessa época uns sete anos de idade e um mundo inteiro por descobrir.  Admirávamos o céu, como há muito tempo eu não fazia.

Ela disse: “Olha, mãe, a lua tem manchas igual você”.

E depois: “Ela é linda, não é?”

E então a lua que move marés formou um oceano inteiro dentro dos meus olhos.

Nunca estivera tão feliz. Abracei a pequena; clarear a noite dela me bastava. Porque eu era também o reflexo do reflexo. Destas luas que não ficam bem em qualquer foto. Destas que têm manchas e crateras, sim, mas que balançam os mares e iluminam toda uma vida. E que giram e giram e giram e às vezes cometem suspiros dentro do peito dos poetas.

 

Murilo.

O estranho caso da sommelière de lágrimas 1 323

Por Mariana Porto

 

No dia em que nosso amor morreria, você me trouxe um vinho de qualidade questionável e disse “isso é pra você aprender que a vida pode te surpreender”. Na hora, juro que fiquei inicialmente sem entender, já que o fato do vinho ser meio agressivo eu já esperava. No entanto, confesso que isso jamais tinha sido um problema em nossa relação.

Sem medo de parecer clichê, posso dizer que seus beijos sempre harmonizaram tão bem, e que sua boca me preenchia com tanta delicadeza, que mesmo se eu tivesse acabado de tomar uma dose da pior cachaça da praça, ainda assim, me desceria com o frescor mais equilibrado que já provei.

Mas, naquele dia, eu senti tudo como um grande coice, de uma brutalidade que foi realmente inesperada. Você segurou meu rosto, se despediu, e me deu um beijo seco. Sua mão estava suada, mas entendo que também não deve ter sido fácil pra você — tanto me dizer adeus, quanto tomar aquele vinho ruim.

Você saiu e bateu a porta, me deixou e deixou aquela garrafa que, no fim, fiz questão de guardar como souvenir, só pra lembrar do azedume que nosso amor se tornou. Serviu também para não esquecer de que você me largou ali, sozinha, e tomando aquele vinho vagabundo diluído em uma tristeza profunda. “Sommelière de lágrimas”, é um título eu ostento até hoje por sua causa.

Mas, sendo bem sincera, admito que eu guardo essa garrafa vergonhosa principalmente como uma artimanha pra tentar me impedir de sentir saudades. Essa saudade de quando eu poderia me embriagar inteira de você, e ainda me manter de pé. Feliz. Com a boca preenchida, com o frescor do amor novo. Porque eu sinto sim saudades. Todos os dias. Desde o dia que nosso amor pareceu que morreu.

“Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet”