Poemanarco 0 136

quis poupar palavra
quando meia poesia
já sozinha caminhava.
– Como ousa? – ruge o verso –
pôr-me em síntese, assim?
fazer tão pouquinho de mim
que transcendo o dicionário,
que falo em francês e latim?

larga dessa, poetisa.
Deixa o verso se gastar
que ele não é teu pra fazeres economias:
trova sopra ventania,
rima voa em boa brisa.
Solta a palavra que ele te pede
mata nele toda sede
até que o novo do novo
um dia, quem sabe,
corrompa o decreto
de encaixar esse ímpeto
tão lascivo e tão sem teto
na rotina de um soneto.

Carolina Goetten

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Sua 0 176

como fosse poema,
você me talha

me transforma
em versos
belos pra você

feito rima
sigo torta

nesse mundo
que tem tudo,
belez’alguma
é pra mim

ao redor,
só a dor
do que fui
até o fim.

 

texto: Rafael Antunes
ilustração: Nina Zambiassi

Plataforma 0 128

Há uma plataforma que balança. Ela fica na entrada para o mar, perto do Porto do Carvão. Ali, antigamente, ancoravam navios de carga. Porém, com o passar do tempo, o pequeno porto e sua longa plataforma flutuante se tornaram um ponto turístico. Agora, só chegam e saem os barcos de luxo com grandes restaurantes e bares a bordo. Seguem um roteiro de classe pela baia.

Há uma porção de pessoas que paga caro para ocupar esses barcos. Nas festas no convés elas têm a falsa impressão de que é a cidade quem muda de lugar. Divertem-se em uma noite de fim de semana. Lugar seguro e grandioso.

É calmo quando começa a anoitecer. Nessa época do ano a noite sempre demora mais para chegar. Tudo fica iluminado até tarde. Prédios, colinas ocupadas, cortadas por ruas largas. O oceano faz parte do cenário, não é um simples figurante.

A plataforma do velho porto tem as duas extremidades ligadas à terra, mas o meio flutua com as ondas. Os hidroaviões pousam perto dela quando descem na água. A plataforma oferece a mesma vista que se tem a partir dos barcos. Quando se está dentro de um, o mundo parece seguir em trânsito e na plataforma tudo se move.

Os prédios na margem oposta possuem superfícies envidraçadas, do alto a baixo. Eles também balançam. Há uma redação de jornal no topo de um deles e lá de cima os funcionários observam tudo que se move lá embaixo.

Há um posto de combustíveis suspenso na água. Ele flutua e balança quando alguns barcos ou aviões passam bem perto. Há também as boias laranjadas que demarcam os locais perigosos. Quase somem na noite, camufladas pela escuridão do oceano radioativo. Existem peixes de três olhos que nadam ali. Nunca coma peixes do oceano, não do Pacífico Norte pelo menos.

De cima da plataforma, um homem velho pesca todas as noites. Ele veio da China e mora na cidade há alguns anos. Usa instrumentos estranhos para aprisionar os peixes mutantes. São gaiolas de ferro ligadas a correntes de elos finos. Ele as gira no ar antes de atirá-las na água. As gaiolas descem para as profundezas e da superfície se ouve o momento em que fecham lá embaixo. Estalam e o velho chinês as puxa de volta, mas não há nenhum peixe. O velho não desiste, às vezes consegue algum.

Muitos usam a plataforma. Alguns fazem sexo com ela, ali mesmo, enquanto outros a levam para casa e a penetram no conforto de suas camas. Dormem com ela sentindo o cheiro de peixe, de mar contaminado, de combustível de avião, de tinta em papel jornal.

O chinês vive em Chinatown. Anda vinte e duas quadras para chegar e na volta erra sempre a mesma esquina. Um avião pousa e balança a plataforma uma última vez antes da noite aprisionar tudo que se move, como gaiolas para peixes de três olhos.

 

Jadson André